lendas paraenses: do místico ao sobrenatural

No Pará, principalmente em cidades do interior, as lendas têm uma grande influência sobre o povo, que acredita na veracidade de suas histórias. Basta um instante conversando com algum morador mais antigo para ser envolvido em uma aura mísitica.


búiuna, boto, capelobo, fantasia, lendas, matinta perêra, mitos, Pará © Amanda Tavano.

Fantasia misturada a realidade, com aspectos místicos e um pé no sobrenatural, as lendas nascem, crescem e se reproduzem mas, de fato, nunca morrem. Sobrevivem na memória das pessoas e povoam nossa imaginação com fatos irreais, sem comprovações científicas ou verdades absolutas. Como “quem conta um conto, aumenta um ponto”, são repassadas de gerações a gerações e se mantêm vivas no imaginário de um povo.

O conteúdo das lendas é fortemente simbólico e geralmente tem detalhes que podem ter realmente acontecido ou não, e que ao serem contados e recontados começam a ter um outro nível de realidade e imaginação. Na antiguidade, não conseguindo explicar os fenômenos da natureza de forma científica, os povos criavam mitos para dar um sentido maior aos acontecimentos inexplicáveis. Tal qual os mitos de Édipo e Electra que, extraídos de lendas gregas, acabam sendo explicados à luz da psicologia moderna. No Brasil, a miscigenação contribuiu fortemente para a origem de um grande número de lendas que, vindas de outros povos, acabaram fazendo parte da nossa própria história.

As lendas, em especial as amazônicas, são muito famosas e vagam pelos quatro cantos do país. As mais difundidas, de origens índigenas, costumam buscar explicações para os elementos da natureza; as européias, principalmente as portuguesas, tratam mais de assombrações e fantasmas; por fim, as africanas são ligadas a entidades, exus e etc.. Em maior ou menor grau, estão presentes em nosso cotidiano e acabam influenciando a formação cultural de cada brasileiro.

Aqui vamos dar a conhecer algumas das lendas que assombram até os mais céticos dos habitantes do Pará:

búiuna, boto, capelobo, fantasia, lendas, matinta perêra, mitos, Pará © Fabio Ferezin do XGuilera.

Boiúna (Cobra Grande) A Boiúna, de boi (cobra) e una (negra), é uma cobra de tamanho imensurável. Tem olhos que “alumiam” feito tochas e ao passar pelos rios e igarapés derruba embarcações e devora crianças ou adultos que se banham nas margens. O povo paraense acredita que a Boiúna vive adormecida na cidade de Belém, entre a Cidade Velha e o bairro de Nazaré. E, quando ela acordar, irá afundar toda a cidade com seu movimento. Ao rastejar, a Boiúna vai deixando sulcos onde se formam novos igarapés. Vamos torcer para que ela nunca acorde - caso contrário, adeus bela Belém.

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Boto Segundo os ribeirinhos, um belo homem vestido de branco e com chapéu cobrindo a cabeça costuma aparecer nas festividades de São João para escolher a moça mais linda. Sedutor e charmoso, ele a convida para dançar e com seus encantos leva a escolhida para o fundo do rio. Sempre que avistam um homem de chapéu nas festas, os moradores costumam expulsá-lo, pois temem que ele possa ser o temido boto. Dizem que ele costuma usar o chapéu para esconder o rosto, já que sua tranformação em humano não é completa. E também para camuflar as narinas, que ficam no topo de sua cabeça. E aí, toparia uma dancinha com ele?

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Capelobo Presente em lendas da região Norte, principalmente no Pará, e também no Nordeste, lá pelas bandas do Maranhão, o capelobo é um bicho medonho. A lenda não explica bem como surgiu ou nasceu o Capelobo. Sabe-se apenas que é uma mistura de anta com tamanduá e homem e, ainda por cima, tem pés em formato de fundo de garrafa. O Capelobo é uma besta que, de acordo com os casos contados, suga a massa encefálica de suas vítimas. Digamos que ele é um parente não muito distante do Lobisomem, e suas vítimas preferenciais são animais recém-nascidos, entre eles gatos e cachorros. Ele também não descarta um delicioso cérebro humano. Eu que não gostaria de cruzar com um desses.

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Matinta Perêra Também conhecida como Matinta Perê, reza a lenda que ela é uma pessoa que carrega a maldição de se transformar em uma velha com unhas incrivelmente compridas, vestida de preto, que solta um assobio estridente e assustador. Costuma andar pela noite assobiando e quem a escuta deve prometer tabaco a ela, que no dia seguinte irá a casa da pessoa buscar o prometido. Dizem que ela também se apresenta como um pássaro negro, conhecido como “rasga-mortalha”, e quando está para morrer diz “Quem quer? Quem quer?”. A pessoa que responder a ela, achando que irá ganhar algum presente ou algo precioso, acaba ganhando a herança de se transformar em Matinta Perêra. Se escutar essa frase por aí, não vá responder, hein!

Outras lendas que vale a pena conhecer: Iara ou Mãe D’Água, Curupira, Mula-sem-cabeça e Vitória-Régia.

Veja: Ele, o Boto (1987 ) de Walter Lima Jr., com Carlos Alberto Ricelli, Cássia Kiss Magro e Dira Paes. Lendas Amazônicas (1998) de Moisés Magalhães e Ronaldo Passarinho. Matinta (2009) de diretor Fernando Segtowick, com atores paraenses, entre eles, Dira Paes.

Ouça: “Curupira”, “Foi bôto, Sinhá” e “Matinta Perêra” – do maestro paraense Waldemar Henrique. “Amazônia” do cantor paraense Nilson Chaves. “Águas de Março”, que cita Matinta Perêra – Tom Jobim.

Leia: “Visagens e Assombrações de Belém” do escritor paraense Walcyr Monteiro que traz um apanhado de lendas, entre elas lendas urbanas como “A moça do táxi”.

Fonte: Jornal Diário do Pará Ilustrações: Boiúna, Boto, Capelobo e Matinta Perêra foram ilustradas pelo artista Fabio Ferezin do XGuilera


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