Gerz: quando ver é lembrar

O "Monumento contra o Fascismo" foi a primeira obra plástica significativa desenvolvida pelo artista Jochen Gerz, que, em parceria com Esther Shalev-Gerz, ergueu um monumento que em pouco tempo desapareceria. Ele deveria ser engolido pelo solo, como de fato ocorreu. O monumento, cuja finalidade natural é fazer lembrar um fato, passava a habitar o liame do esquecimento: o monumento de Gerz deveria ser lembrado para que continuasse a existir.


fascismo, Gerz, Hamburgo, memoria, monumento © Jochen Gerz, Monumento contra o Fascismo.

A partir de 1986 o distrito de Harburg, no subúrbio da cidade de Hamburgo, na Alemanha, teve a sua paisagem estampada por um monumento que desapareceu alguns anos depois, em 1993. O autor do projeto era o artista Jochen Gerz, juntamente com sua esposa naquela época, Esther Shalev-Gerz, também artista. Foi o seu primeiro grande trabalho no campo das artes plásticas. Até então, sua atividade havia se restringido à poesia, o que daqui a algumas palavras poderá, talvez, fazer algum sentido.

Era o “Monumento contra o Fascismo”: uma imponente coluna – 12 metros de aço erigido. Quatro faces revestidas de chumbo. Os transeuntes eram convidados a marcar naquela superfície o seu protesto contra o fascismo enquanto pouco a pouco a coluna se afundava no chão, desaparecendo lentamente aos olhos daqueles que paulatinamente se acostumavam, em vão, com sua presença naquele ambiente de intensa circulação de pedestres. Era um monumento cuja matéria era aço, chumbo, palavra e tempo.

Gerz operava ali uma série de desconstruções. Ele subvertia o movimento inaugurado pelos egípcios e seus obeliscos na frente dos templos, cristalizando os raios solares que, batidos no solo, retornavam como pedra ao céu; os romanos e suas colunas comemorativas, das quais a mais famosa é a Coluna de Trajano; a verticalidade sempre ascendente das catedrais góticas... e não nos esgotariam os exemplos. Ele literalmente põe abaixo todo o esforço de Brancusi, com a sua Coluna Infinita, em questionar o lugar do monumento para a arte moderna. Ele inverte o sentido perspéctico, que nos parece natural. Mais que isso: ele toca diretamente no imaginário da forma fálica, mas também esvazia o sentido de sua obra de qualquer religiosidade ou misticismo totêmico.

Gerz também nos faz perguntar pela figura do herói. Aquele monumento que rendia culto à imagem do herói da pátria é posto de lado, como havia ocorrido desde o Projeto de Monumento à Terceira Internacional de Tatlin: político por excelência, utópico por natureza – jamais executado, desconsiderando-se as tentativas frustradas, fracassadas. Gerz, a exemplo de Tatlin, elimina a imagem do herói, o imortal da nação, mas impregna o seu monumento de uma antitética pessoalidade pública, de uma individualidade que se constrói a partir do coletivo. É quando o pessoal, o individual, é construído a partir do social. Mas diferente do russo, a palavra do povo se torna aqui um meio, uma via de mão dupla, entre Gerz e o seu trabalho de reflexão profunda sobre a história.

fascismo, Gerz, Hamburgo, memoria, monumento © Jochen Gerz, Monumento contra o Fascismo.

fascismo, Gerz, Hamburgo, memoria, monumento © Jochen Gerz, Monumento contra o Fascismo.

Ocorre que, ainda assim, Gerz não abriu mão da palavra “-Monumento” que precede o título de sua obra, e como todo monumento, ele deveria cumprir o imperativo ético da lembrança. Ele deveria ativar o dispositivo da recordação seguida da reflexão. De fato, a população alemã que um dia havia estado a favor de um regime totalitário tinha nas mãos a oportunidade, agora, de protestar, enfrentando cara-a-cara a memória do terrível passado, com o qual aquele país tinha que lidar.

O monumento, que tem por finalidade natural lembrar de um fato e conduzi-lo à eternidade, neste caso, ao se enterrar, ele próprio se esqueceu, se ocultou. Pouco a pouco foi deixando o mundo exterior, mas as milhares de assinaturas e protestos, por sua vez, foram se isolando, se encriptando, deixando de ter o tempo agindo docemente sobre sua superfície. Mesmo assim, ele deixava lentamente de existir, enquanto, no mesmo ritmo, passava a habitar o liame do esquecimento, e se contradizendo, por consequência: o monumento agora deveria ser lembrado para que de fato existisse.

O que resta, além de um quadrado no chão, é parte da coluna exibida por uma abertura na passagem de pedestres e um texto traduzido para sete idiomas. Restam também as 70.000 assinaturas e protestos, compromissos em vigília que não deixaram de existir, pois se tornaram eternos. Gerz tem a memória como matéria nas mãos. Com ele, ver é um constante trabalho de lembrar.

fascismo, Gerz, Hamburgo, memoria, monumento © Jochen Gerz, Monumento contra o Fascismo.

fascismo, Gerz, Hamburgo, memoria, monumento © Jochen Gerz, Monumento contra o Fascismo.

fascismo, Gerz, Hamburgo, memoria, monumento © Jochen Gerz, Monumento contra o Fascismo.

fascismo, Gerz, Hamburgo, memoria, monumento © Jochen Gerz, Monumento contra o Fascismo (foto de: Hannes Schrodêder).


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