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Gladiatrix: feminilidade, sangue e aço

publicado em recortes por | 5 comentários

Belos corpos femininos, musculosos e esculturais são admirados por milhares de homens, à distância. Elas se estudam e se analisam, e então, como duas fêmeas raivosas que defendem sua ninhada, atacam ferozmente a adversária. O que parece ser uma narração dramática de uma luta moderna de MMA Feminino ou apenas um roteiro de filme pornográfico B é uma descrição fiel dos combates de gladiadoras, as coadjuvantes nas sangrentas lutas do Coliseu, em Roma.

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© Gladiatrix postcard - Julianapostata, deviantart.

Afinal, quem eram as Gladiadoras e, se realmente existiram, porque tão pouco se sabe sobre elas? A primeira evidência da existência de tais lutadoras surgiu com a descoberta de uma peça arqueológica em Halicarnasso, uma região que hoje faz parte da Turquia. A peça, de mármore, mostrava a imagem de duas Gladiadoras prontas para o embate. Uma delas tem, inclusive, seu seio à mostra, o que talvez fosse uma prova de feminilidade ou simplesmente uma maneira de favorecer a excitação dos espectadores.

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Gladiadoras de Halicarnasso (Wikicommons, Xastic).

De fato, além das formas femininas e dos penteados, a inscrição na pedra não deixa dúvidas: Amazônia e Achillia. Apesar de essa ser a prova mais cabal da existência das bravas fêmeas empunhadoras de gládios (nome da espada curta utilizada pelos combatentes, de onde deriva o nome gladiador), existem várias referências documentais e arqueológicas da existência das gladiatrix (ou gladiatrices). Foi Tácito quem escreveu, em 63 dC, que Nero havia organizado certos jogos onde havia ofertas incomuns, entre elas, mulheres guerreiras. Outros escritores como Marcial e Estácio também citaram presenças incomuns nos combates, já no reinado de Domiciano. Segundo eles, além de novidades como combates noturnos e anões combatentes, mulheres gladiadoras também eram opções de entretenimento. Além dos documentos, existem também duas ossadas que são apontadas pelos arqueólogos como possíveis restos de gladiadoras. Além do local e da posição de sepultamento, os objetos encontrados junto aos corpos e a estrutura física forte fornecem indícios de que elas seriam realmente mulheres guerreiras.

Apesar de toda a polêmica, os historiadores são praticamente unânimes em afirmar que realmente existiram as mulheres gladiadoras, embora todos concordem que elas não gozassem do mesmo prestígio dos homens, como era de se esperar de uma sociedade machista como era a Roma dos primeiros anos do século I. As gladiadoras combatiam entre si, e contra animais, o que era menos prestigioso, embora haja relatos de gladiadoras que foram obrigadas a enfrentarem até pigmeus. Juvenal, autor romano, escreveu sobre as gladiadoras em sua sátira, dizendo inclusive que algumas eram mulheres de nobre linhagem que se tornavam gladiadoras por vontade própria, inclusive. Talvez cansadas de viver uma vida de submissão e humilhação, essas jovens mulheres houvessem preferido arriscar a própria vida a submeter-se a uma sociedade masculina e escravocrata, que delegava às mulheres unicamente a missão de reproduzir-se. Por outro lado, sabe-se que os gladiadores gozavam de grande admiração nos tempos do império romano, tais como os grandes atletas em nossa sociedade atual. Essas mulheres talvez tenham optado por uma glamorosa vida de combates em vez do ostracismo de uma vida doméstica.

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Wrestlemania - Diva Battle Royal.

Além dessas hipóteses, sabemos que havia mais motivos para os romanos apreciarem os embates femininos. Basta uma pesquisa na internet para que encontremos um pedaço da história vivendo, ainda hoje, na mente dos homens modernos. Mulheres musculosas, com pernas fortes e seios perfeitos adornando um tônus muscular poderoso, parece ser uma receita de sucesso ainda hoje encontrada nas academias. Além de milhares de fotos, desenhos e imagens 3D encontradas na internet de gladiadoras lindas e suadas, também podemos estabelecer outro paralelo moderno: as ligas femininas de Wrestling e MMA têm a atenção de dezenas de milhares de espectadores em todo o mundo. Além dessas categorias sérias de luta esportiva, ainda existem shows onde beldades se digladiam nas mais diversas substâncias escorregadias, como gel e lama. Um espetáculo erótico que muitas vezes beira o bizarro.

De onde virá essa fantasia masculina que levou no berço da civilização a assistir a contendas de jovens mulheres lutando até à morte e que ainda hoje encontra ecos nas lutas e esportes femininos de enfrentamento? Certamente, em uma parte de nosso cérebro ancestral residem traços de personalidade símia que se animam ao ver duas fêmeas enfrentando-se, algo que talvez ocorresse na disputa por um macho forte do grupo. Na Roma dos primeiros anos da era cristã, como hoje nos canais de TV a cabo, o que vemos são rastros de nossa mente primitiva aguardando o fim de um combate que provaria qual a fêmea vencedora e, portanto, a mais digna de conceber nossos herdeiros. Com todo o seu sofrimento e sangue, as gladiadoras figuraram apenas como coadjuvantes da história machista e sexista da humanidade. Infelizmente, uma luta inglória.

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Lucy Lawless em "Xena".

 

eugênio mira é tecnólogo, professor, escritor e intrometido. Sonha com um mundo onde as pessoas tenham valor pelo que pensam, e não pelo que possuem. Saiba como fazer parte da obvious.

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Rafaela werdan

Eugênio, super parabéns pela matéria! Está lindíssima, muito bem escrita. E obrigada por relatar esses fatos da história feminina que tantos insistem em apagar. Abraços =)

regine

Boa tarde Eugenio,fantastica sua materia,muito boa mesmo...Parabens,obrigada opr compartilhar.
Bjs Regine

Vitor

Parabéns pelo texto!!! Ótimo e super interessante.

willians

Eugênio,

Na antiguidade havia uma ilha - creio que talvez hoje a Sicilia - que era chamada de Lesbos.
Nessa ilha habitada apenas por mulheres, dai a origem do nome lésbica, ou seja aquela de Lesbos, homens eram proibidos.
A sociedade feminina de Lesbos era "perfeita", as lésbicas verdadeiras amazonas e hábeis na espada e outras artes de guerra.
Os homens eram permitidos em Lesbos para raros momentos de cópula e apenas quando as lésbicas estavam férteis.
Se o neófito era macho, esse era enviado por uma guardiã para o continente para ser criado pelos homens e se fosse fêmea ficaria em Lesbos para ser devidamente educada pelas amazonas.
Nesse seu breve relato, faltou falar sobre Lesbos e sobre as excelentes guerreiras que lá se formavam.
Tenho por mim, que a melhor imagem duma guerreira de Lesbos é a da personagem Xena, como você postou acima.
Grande abraço,

Impossível falar de mulheres guerreiras sem lembrar a icônica figura de Lucy Lawless em Xena. Muito interessante seu ponto, mas nesse artigo em questão quis me ater principalmente ao histórico, enquanto a ilha de Lesbos, embora existam historiadores que defendam sua existência, até onde eu sei ainda é uma civilização mitológica.

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