Hasan Elahi: o foragido que todos sabem onde está

Sem sombra de dúvida, o professor e artista conceitual Hasan Elahi sabe transformar um limão em limonada. Um dia, o FBI confundiu-o com um terrorista que tinha um armazém com explosivos na Flórida. Os seus movimentos começaram a ser vistos como "suspeitos", e Elahi decidiu expor sua vida completamente, compondo um projeto artístico que o mantém longe dos muros da prisão de Guantanamo, enquanto questiona os limites entre segurança pública e privacidade. É como transformar uma fuga vigiada em arte - algo muito mais palatável.



arte e tecnologia © Hasan Elali, Sundance Film Festival (Wikicommons).

Desde o primeiro incidente com o FBI, ocorrido após o atentado de 11 de setembro de 2001, Elahi já expôs suas ideias e produções artísticas em espaços de referência, como a Tate Modern, a Associação Americana de Inteligência Artificial, o Sundance Film Festival, o Hermitage Museum e a Bienal de Veneza.

A ideia é simples, mas bastante instigante. Para convencer a polícia americana de sua inocência e afastar possíveis suspeitas sobre os seus movimentos, Elahi criou o site Tracking Transience e passou a abastecê-lo diariamente com informações detalhadas sobre todos os seus passos. Desta forma, o artista tentava evitar o incómodo - e mesmo o perigo - de ser interrogado na fronteira quando regressava aos EUA.

arte e tecnologia © Hasan Elali, Tracking Transience site (Wikicommons).

Os dados são atualizados pelo menos uma vez a cada hora, via celular. Um dispositivo de GPS, carregado por Elahi em seu bolso, também transmite informações precisas sobre a sua localização, que assim pode ser facilmente rastreada através de um mapa interativo, disponível em sua página virtual.

Paradoxalmente, Elahi parece ter abdicado de sua privacidade em troca de uma garantia implícita de liberdade. Após anos de vigilância sobre sua própria vida, o artista, que nasceu em Cravo, Bangladesh, prefere não dar margem a um novo equívoco da polícia americana. A opção feita foi escancarar sua vida pessoal a quem quisesse observá-la, afastando suspeitas sobre seu envolvimento com práticas terroristas.

A exposição pessoal quase escravizante rendeu ao artista várias instalações, que suscitam questionamentos cruciais sobre sentimentos como medo, segurança e preconceito na contemporaneidade. O trabalho artístico de Elahi extrapola o voyeurismo, tão explorado pelas tendências atuais da comunicação de massa, para atingir um campo de observação alimentado por suspeitas e ameaças de opressão sobre a vida privada.

arte e tecnologia © Hasan Elali, Instalação em Santa Fé - Novo México (Wikicommons).

O incômodo provocado por um projeto como o Tracking Transience (também chamado The Orwell Project) está na certeza de uma superexposição compulsória, similar àquela que nos impõem as câmaras de segurança que, cada vez mais, invadem os espaços domésticos e coletivos nas cidades. Para manter-se livre do rótulo de terrorista, Elahi decidiu pagar o preço da eterna vigilância. O resultado foi tornar-se um curioso espelho do Big Brother imposto à vida moderna.

No entanto, e tal como num antigo conto oriental, o mestre guarda para si um trunfo secreto: é que embora no site possamos ver imagens dos locais onde Elahi vai passando, dos objetos que ele toca, das refeições que come, ele mesmo nunca aparece em nenhuma imagem.



andreia mendes

é feita de livros, filmes, sonhos, memórias, medos e muito chocolate.
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