O homem solitário de Deus

Como o cartaz do próprio filme diz: “em toda rua de toda cidade deste país, há um ninguém querendo tornar-se um alguém”.


O roteirista Paul Schrader desejava criar um personagem que percorresse as ruas de Nova York como um anônimo, e que este personagem pudesse, a partir de um perfil discreto, conviver com os mais variados habitantes de uma cidade gigante e populosa, palco dramático de uma solidão e de uma desolação quase generalizadas em meados dos anos 70. Esta foi uma década em que a Big Apple viveu tempos difíceis no tocante à violência. Paul Schrader e Martin Scorsese pensaram então em um taxista, pois assim haveria perfeitamente uma amostra análoga à vida e à convivência nas metrópoles: curta, superficial, contratual, transitória.

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Por trás do taxista anônimo está o jovem solitário Travis Bickler, interpretado por Robert DeNiro. Bickler é um ex-fuzileiro naval que está à procura de um trabalho que o isole de todos seus conflitos existenciais, que não são poucos. A repulsa pelo estilo de vida caótico dos subúrbios nova-iorquinos, a mediocridade da sua vida cotidiana, um sentimento descomunal de solidão e inadaptação às regras de convivência, racismo, amoralidade são alguns desses conflitos.

Bickler chega ao fundo do poço após uma desilusão amorosa com Betsy (Cybill Shepherd), a única que se parece com um “anjo”, a única que “eles não podem tocar”. Eles, aqueles a que se refere Bickler, são os outros, o resto das pessoas que fazem parte desse mundo tão atroz. No entanto, Biclker estava enganado quanto a Betsy, e percebeu depois que ela era exatamente como os outros. A partir deste fato, sua vida repetitiva e medíocre sofre uma reviravolta. Disposto a fazer algo “realmente grande”, e se destacar perante este ambiente claustrofóbico e nulo, Bickler decide fazer ele mesmo sua própria transcendência pelo meio de que dispõe: a violência, expediente herdado da sua temporada no Vietnã.

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Os alvos desta revolução pessoal são, naturalmente, os aspectos que ele mais abomina em Nova York: o submundo de violência e prostituição nos subúrbios, os donos do poder (na figura do Senador Palatine) e toda a “escória” que, para ele, é responsável pela degeneração da cidade. Todo esse esforço consiste fundamentalmente em livrar deste universo hostil a jovem Iris Steensma (Jodie Foster), garota do interior que ganha a vida nas ruas de Nova York fazendo favores sexuais em nome de Sport (Harvey Keitel), seu amante e cafetão.

Lançado em 76, Taxi Driver ganhou a Palma de Ouro do festival de Cannes, bem como outros prêmios na Europa e nos Estados Unidos. Foi indicado a quatro categorias do Oscar, incluindo melhor diretor (Martin Scorsese), melhor ator principal (Robert De Niro) e melhor ator coadjuvante (Jodie Foster). O filme acabou colhendo o aplauso unênime de público e crítica, e está até hoje entre os melhores momentos da cinematografia de Martin Scorsese e do seu astro Robert De Niro. E não seria exagerado dizer que se trata de um dos melhores capítulos do cinema estadunidense.


Ederval Fernandes

Ederval Fernandes é baiano de Feira de Santana.
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