
yankee hotel foxtrot, Wilco.
Começo este artigo me lamentando, pois tenho noção de que tudo que eu escrever sobre o Yankee Hotel Foxtrot será incompleto e insatisfatório, não tem jeito. É claro que apelar para a ineficiência da linguagem (e para a minha própria ineficiência) é um meio freqüente de que os escritores se valem para expressar algo que consideram grandioso como algo que não se pode expressar. É um expediente fácil e tudo, mas às vezes é preciso se render ao óbvio e admitir, quando isso implica agir honestamente consigo mesmo: não consigo dizer tudo que eu gostaria de dizer sobre este disco – me desculpem.
Eu estava com 17 anos e o único e obsessivo pensamento que eu tinha era sair de casa. Não é uma boa sensação quando você é jovem, ainda estuda e precisa de seus pais para absolutamente tudo, mas eu estava com aquilo na cabeça e via meus amigos mais próximos irem embora. Estranhamente, algum ciclo estava se fechando, e estava claro que algo novo nascia, e era algo estranho e imediatamente melancólico. Foi neste período que eu li uma matéria sobre o Yankee Hotel Foxtrot, assinada pelo jornalista Marcelo Costa na hoje extinta Rock Press. A matéria parabenizava o Wilco pelo disco belíssimo e pela garra com que bravamente desafiara a poderosa Time Warner para ter seu disco aceito como ele nascera. A Time Warner, através do selo Reprise, achou o YHF anti-comercial e propôs mudanças, que não foram acatadas, é claro. Resultado: a Reprise quebrou o contrato com a banda e ainda deixou os direitos do disco com o grupo, prova de que realmente não se interessava pelo álbum. Sem se abater, ou deixando o abatimento de lado, Jeff Tweedy e sua turma disponibilizaram o disco para audição no site oficial da banda. Aquele que seria um disco anti-comercial tornou-se um dos discos mais ouvidos no fim de 2001 e o mais vendido da banda até o momento. O disco físico só seria lançado em abril de 2002, pelo selo nova-iorquino Nonesuch Records, ironicamente subsidiado pela mesma Time Warner que desprezara o disco e demitira a banda.

yankee hotel foxtrot, Wilco (Wikicommons, James Huckaby).
You have to die
“Você tem que perder, você tem que aprender a morrer se quiser continuar vivo”. Este é o refrão de War on War, quarta canção do disco. Você tem que aprender a morrer se quiser continuar vivo. Esta frase me impressionou demais ao lê-la na matéria de Marcelo Costa. Afinal, diante de uma realidade que acabara e de algo novo que não se mostrava muito contagiante, era isto que eu precisava ouvir: “você tem que aprender a morrer se quiser continuar vivo”. E foi o que eu fiz. Me agarrei a este disco como se não houvesse amanhã e a cada nova e ininterrupta audição era como se as canções ajudassem a moldar este novo jeito de ser que nascia pela solidão e pela melancolia.
Num texto antigo do jornalista Jardel Sebba, ele escreveu algo a respeito das canções que ouvia na sua adolescência e juventude. Elas nunca o abandonaram e nunca o desapontaram; sempre se mostraram presentes quando ele mais precisou – concluiu que havia motivos suficientes para colocá-las desde sempre num patamar acima das amizades. Por algum tempo tomei isto como verdade absoluta e, por um longo tempo, nada foi tão presente em minha vida do que essas onze canções; nada promoveu em mim uma espécie de conforto e segurança maior do que essas músicas. Uma confissão deste quilate, hoje, quando me somam 26 anos, pode soar ridícula. Talvez. Mas a verdade não pode ser distorcida e, conquanto a questão exija certa prudência, não vejo outro jeito de dizer o quanto Yankee Hotel Foxtrot me afetou senão confundindo-o com os anos decisivos na formação do meu caráter, e acreditando que sem este golpe do acaso – ter lido sobre, ter feito download do disco pelo Soulseek, ter ouvido Ashes of American Flags, Radio Cure, Reservations e Jesus, etc. pela primeira vez numa noite especialmente triste –, sem isto eu não teria sido quem sou.
Quem ainda não o conhece, ou por outra, quem conhece pouco sobre o disco, aconselho que procure o quanto antes o documentário “I’m trynig to break your heart”, dirigido por Sam Jones. No filme está toda a história em torno do álbum e principalmente todo o conturbado ambiente que o fez florescer. Isso nos poupa de algumas descrições enfadonhas sobre as canções, com os inevitáveis clichês da crítica musical: uma guitarra cortante, uma melodia assobiável, um baixo matador, cordas primaveris...

"I am trying to break your heart / A film about Wilco, by Sam Jones.
Quem leu este artigo até aqui está ciente de que não escreverei nenhuma linha comentando as músicas em si, até porque quem chegou até aqui se identificou com meu depoimento e sabe muito bem como é difícil explicar a sensação (vou tentar) ao mesmo tempo melancólica, desesperada, feliz, poética, íntima que uma canção como Radio Cure ou Poor Places ou Reservations pode causar.
Comentários
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Palandi
:~
boa, Eder. discaço...
Vitor Bruno Ricardo Silva
Conheci o disco através da falecida revista Zero (não a diet, mas uma antiga publicação sobre música), naquela época eu me interessava por bandas pelo que lia a respeito delas e depois sim ouvia as musicas.Se a musica tivesse sido feita por alguem que fosse contra o mainstream, que batesse de frente com gravadora, ou que de alguma forma virasse as costas para a classe média e deixasse de ganhar uma boa grana por acreditar na musica, eu estava dentro. Se o disco fosse um fracasso de vendas então, era como se eu houvesse encontrado algo que ninguém mais conhecesse, que só eu tinha acesso. É claro que me alegrei quando mostrei Jesus etc. para o meu tio e ele disse que era a melhor coisa que ele tinha ouvido nos anos 2000, no fim das contas a satisfação que me dava ao conhecer bandas assim só era completa quando eu conseguia provar para o mundo que a verdadeira musica, aquela que sai de debaixo da pele e dos nervos, era feita longe dos olhos do mundo. Pessoalmente, é assim que acho que a lei de equlilibrio do universo funciona. Discos como Yankee Hotel Foxtrot são o mais perto que se consegue chegar quando paramos para pensar em como as coisas verdadeiramente funcionam, ou deveria funcionar.O pior de tudo, é que como você disse, qualquer coisa que se escreva, que se diga, que se sinta e que se pense, até pode chegar perto, mas tentar explicar o que significa estar no mundo e ter o privilégio de ouvir essas musicas faz qualquer texto não ter sentido. No fim das contas o que posso dizer sobre esse tipo de disco é: "sou feliz por estar vivo".
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