Banksy e a arte da manipulação

Quais as fronteiras entre arte, protesto, sátira e fama? Ou melhor, essas fronteiras existem? Banksy responde a essas perguntas usando tintas e muros e mostra que, apesar das críticas, entende o mercado das artes e o usa em seu favor, valendo-se da arte da manipulação.



arte, banksy, critica, grafiti, ironia, stencil, urbana © Banksy.

Arte, protesto e ironia. Parecem ser esses os principais ingredientes que o grafiteiro mais famoso de Bristol (e do mundo?) utiliza em seus trabalhos. Porém, há um último e talvez mais importante fator que torna o trabalho de Banksy o sucesso que se vê na atualidade: o deboche ao mercado de artes. Irônico, como é de se esperar, assim critica o próprio trabalho, já que se especula que lucrou com a venda de suas obras o equivalente a 12 milhões de reais.

É essa relação de amor e ódio com o mercado que permeia o trabalho de Banksy, transitando entre os muros de Bristol e as paredes do Museu Britânico. Mas quem é o homem por trás do muro? O mais provável é que se trate de Robert Banks, nascido entre 1974 e 1975 em Bristol, na Inglaterra. Porém, toda a história divulgada sobre sua vida não é comprovada, concede poucas entrevistas, na maioria das vezes cheias de respostas evasivas.

Diz-se que Robert Banks começou na adolescência suas primeiras pichações e, como quase foi pego pela polícia enquanto grafitava um vagão de trem, passou a desenvolver a técnica do estêncil, que tornava seu “trabalho” mais rápido. Na década de 90, seus grafitos começaram a chamar atenção pelo uso dessa técnica e em 2003, ainda antes da fama, foi responsável pela capa do álbum Think Tank (2003), da banda Blur.

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Seu trabalho envolve críticas ácidas de cunho político e social. O autoritarismo é um alvo constante, ora representado na figura policial, explorada incessantemente em seus grafitos, ora indo mais a fundo na crítica às guerras. Um grande exemplo é uma de suas obras mais polêmicas, uma montagem sobre a célebre foto de Kim Phuc fugindo de um bombardeio norte-americano na Guerra do Vietnã, agora de mãos dadas a Mickey e Ronald Mc Donalds - uma visão incômoda, mas uma crítica ferina ao capitalismo. Ironicamente, seus trabalhos têm transformado a street art em objeto de consumo: pedaços de muros com grafitos seus têm sido retirados e vendidos em leilões na internet. O que era arte gratuita agora tem preço - e na maioria das vezes, bem alto.

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Outro trabalho polêmico de Banksy, de 2005, são as pinturas no lado palestino do Muro da Cisjordânia, que sugerem pessoas olhando através do muro paisagens idílicas - um choque com dura realidade vivida naquele lado da construção. Em 2006, em um ato ousado até mesmo para ele, colocou um boneco inflável vestido com o uniforme dos prisioneiros de Guantánamo e com o rosto coberto na Disneylândia, na Califórnia. A intervenção permaneceu por uma hora e meia no local até ser descoberta.

Porém as obras de Banksy não se restringem a ácidos protestos políticos; o deboche à fama, que parece servir a todos e a qualquer um (ironicamente, ao próprio Banksy) também é um de seus alvos. Em 2006, Banksy substituiu em 42 lojas na Inglaterra CDs de Paris Hilton (socialite, empresária, modelo...) por outros com remixes próprios com títulos sugestivos como “Por que sou famosa?”, “O que foi que eu fiz?”, “Pra que eu sirvo?”. A capa do CD também foi substituída por uma imagem de Paris com a cabeça de um cachorro em um falso topless. Seguindo a onda do “leve, porém ácido”, é o quadro da Rainha Vitória, considerada símbolo do imperialismo britânico, em uma relação de sexo oral com outra mulher. O quadro foi vendido por 25 mil libras à cantora Christina Aguilera. Em 2005 Banksy colocou uma obra sua no Museu Britânico: um homem das cavernas empurrando um carrinho de supermercado. A obra se tornou parte do acervo permanente do museu.

Bansky também se serve da própria arte, como no quadro “This is a pipe”, em uma clara referência à obra “Ceci n’est pas une pipe”, de René Magritte. Polêmica e mordaz é a abertura do seriado Os Simpsons criada por Banksy em 2010, que mostra trabalhadores asiáticos em péssimas condições e em um ambiente sombrio produzindo produtos dos personagens do seriado. Diz-se que nada foi censurado na sua versão.

arte, banksy, critica, grafiti, ironia, stencil, urbana © Magritte “Ceci n’est pas une pipe”.

arte, banksy, critica, grafiti, ironia, stencil, urbana © Banksy, “This is a pipe”.

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Em 2011 Banksy enveredou pelo campo do documentário, com Exit Trough The Gift Shop (Saida pela Loja de presentes) que é um relato sobre o trabalho dos artistas de rua e foi indicado ao Oscar de melhor documentário. Mas não é só um documentário sobre arte de rua - é um questionamento, e por que não uma sátira, sobre o significado, propósito e valor da própria arte e da fama que resulta dela.

arte, banksy, critica, grafiti, ironia, stencil, urbana © Banksy, Exit Through the Gift Shop".

Seu trabalho vem causando um movimento chamado “efeito Banksy” - um crescente interesse pelos artistas de rua desencadeado pela fama do artista de Bristol.

Crítica, sátira, protesto, mas qual o real poder de transformação dos stencil e grafitos espalhados nas ruas? O próprio Banksy responde, em forma de texto e imagem “Graffiti is one of the few tools you have if you have almost nothing. And even if you don’t come up with a picture to cure world poverty you can make someone smile while they’re having a piss.” — Banksy (Banging Your Head Against a Brick Wall)

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Esse misto de anonimato e fama, arte e vandalismo, ironia e protesto são sua grande propaganda. Banksy entende a mídia e a faz trabalhar em seu favor. Eis assim a sua melhor arte, a arte da manipulação.

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bianca vale

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