Dar vida pela palavra: as biografias de Marguerite Yourcenar

Em 1951, Marguerite Yourcenar roubou a voz a Adriano, o imperador romano. Trinta anos mais tarde, foi Michelangelo o escolhido. Mas estes foram surrupios que deram vida, que reconstituiram, com a massa das palavras, dois homens mortos há tanto tempo: Yourcenar possui uma maneira particular de lidar com um artista ou um vulto histórico, muito diferente da relação que alguns outros escritores criaram com as suas personalidades eleitas.


Ninguém tem dúvidas de que a obra de Tintoretto ganhou certo vigor e corpo denso depois do belo ensaio de Jean-Paul Sartre, “O Sequestrado de Veneza”. Na mesma medida, quem seria Degas sem os escritos meditativos de Paul Valéry em “Degas Dança Desenho”? Alguém duvida de que Manet muito deve ao impulso reflexivo de Bataille? Devemos ao menos reconhecer que Cézanne é o que é por dever muito a Merleau-Ponty. Lembremos também que Delacroix, um pouco menos que esses citados acima, também deveu parte do seu reconhecimento a Baudelaire. Não se esgotariam aqui os exemplos dos artistas que devem algum do seu reconhecimento às vozes dos escritores que o elegeram, mas parecem-nos fugir exemplos do processo contrário.

adriano, biografia, literatura, marguerite, michelangelo, yourcenar Marguerite Yourcenar.

Em 1983, a escritora belga Marguerite Yourcenar travou uma relação um tanto curiosa com ninguém menos que Michelangelo, grande artista do Renascimento italiano, considerado divino ainda em vida, transformado em mito no momento de sua morte, mas a quem Marguerite Yourcenar, sem dúvida, imortalizou. A escritora de língua francesa toma Michelangelo para si, e ela mesma lhe dá a voz. Ela abre mão da passividade biográfico-narrativa do escritor diante de seu objeto. Ela lhe devolve a voz através de sua própria voz; lhe devolve a vida através de sua própria vida. Ela assume a primeira pessoa e quem fala não é mais Marguerite de Crayencour – anagrama imperfeito de Yourcenar. É Michelangelo quem lhe toma a voz, ou ao contrário: ela é quem toma a voz de Michelangelo, como quem rouba uma parte vital de alguém que lhe permite o surrupio com sorriso macio no rosto.

adriano, biografia, literatura, marguerite, michelangelo, yourcenar © Retrato de Michelangelo Buonarroti do pintor Jacopo del Conte (1515-1598), (Wikicommons).

adriano, biografia, literatura, marguerite, michelangelo, yourcenar © Capela Sistina, Michelangelo Buonarroti, Roma, (Wikicommons).

“Sistina”, capítulo de “O Tempo, esse grande escultor” é uma narrativa delicada, com tom de confissão, entoada pela voz do artista forçado pelo papa a executar a pintura que seria um sucesso no momento imediato de abertura da capela ao público. É um relato de alguém que parece lidar com um tumulto de conflitos entrelaçados e que já se confundem. Ou melhor: tudo isso é uma bela farsa; Michelangelo não escreveu absolutamente nada daquilo. São escritos que revelam um gosto especial pela apreensão da essência do outro. Talvez seja um desejo de pertença tão agudo que a única maneira de ter e ser Michelangelo seja dando-lhe ou tomando-lhe a voz. Marguerite Yourcenar não está em momento algum se comprometendo em forjar uma nova face para o artista italiano; não pensa em criar um grande vulto para a História, porque ele já o é. Seu empenho parece ser apenas em dar vida ao artista através de substância literária, com a massa da palavra.

Mas, àquela altura, esse artifício utilizado por esta escritora já não lhe era uma grande novidade: trinta anos antes quem tinha tornado a viver era Adriano, um dos imperadores de Roma, que também nunca precisou dos escritos de Marguerite Yourcenar para se tornar quem é. Esta empreitada levou a Yourcenar décadas de estudos a fio. Adriano foi autor de uma autobiografia que não chegou aos nossos dias. Marguerite Yourcenar toma a voz de Adriano para que assim ele possa reescrever aquilo que foi perdido. Ele reflete sobre a sua vida que se encontrava, àquela altura, na fronteira com a morte. Lembra de sua infância e juventude, sua subida ao poder, sua maturidade, seus amores. Nos deixa escapar a sua obstinação pelo mundo helênico, mas também nos revela as suas fraquezas, inseguranças e a sua constante desconfiança face aos que o cercavam.

adriano, biografia, literatura, marguerite, michelangelo, yourcenar © Estátua Romana de Adriano, imperador romano de 117 a 138, Museu Glyptothek, Munique (Wikicommons, Bibi Saint-Pol).

adriano, biografia, literatura, marguerite, michelangelo, yourcenar © Estátua Romana de Adriano, imperador romano de 117 a 138, Museu Hérmitage de S. Peterburgo (Wikicommons, George Shuklin).

Mais uma vez, não é nada disso: Marguerite Yourcenar é capaz de apreender delicada e cuidadosamente a mente daquele que lhe desperta profunda admiração. O uso atento, preciso e fluido das palavras é acompanhado de um forte compromisso com os fatos históricos, que a escritora não desrespeita em momento algum. “Memórias de Adriano” não é uma simulação, como se a escritora se vestisse de imperador romano e o interpretasse como em um teatro. Ela lhe rouba a voz na pré-condição de devolvê-lo à vida novamente. Não por acaso essa foi a mais bem sucedida obra do gênero na história da literatura.

Em 1980, Marguerite Yourcenar seria a primeira mulher integrante da Academia Francesa, nove anos depois de se tornar membro da Academia Belga de Línguas e Literatura. Ela agora era a imortal. Talvez tenha alcançado aquilo que de fato perseguia em Michelangelo e Adriano. Ela os encarnou: teve coragem de fazer por dentro aquilo que os arqueólogos e historiadores do século XIX fizeram observando por fora. Ela lhes roubou as vozes, devolvendo-os como literatura.

adriano, biografia, literatura, marguerite, michelangelo, yourcenar © Busto de Antínoo (amante de Adriano), (Wikicommons, Bibi Saint-Pol).


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