Dario Argento: o mestre do horror orquestrado e surreal

Assistir a um filme de Dario Argento é fazer uma viagem que exalta o medo e transcende a arte. Sua versatilidade em dialogar com a morte e o sobrenatural extasia o expectador, que fica diante de uma experiência inesquecível. Sua obra é capaz de remodelar conceitos fílmicos já estabelecidos e abalar as estruturas da lógica cinematográfica.


argento, cinema, dario, italiano, policial, terror © Asia e Dario Argento em Cannes, 1993 (Wikicommons, Olivier Strecker).

Um grande talento e capacidade de transformação estiveram presentes no cinema italiano desde o início. Assim, diretores trabalharam brilhantemente no desenvolvimento de alguns dos principais gêneros da sétima arte, alheios à inegável hegemonia da indústria de Hollywood. Além de faroestes e comédias, a obra italiana foi decisiva para a construção das diversas facetas do suspense e terror, ganhando vida graças à percepção de Mario Bava, a experimentação de Lúcio Fulci e, sobretudo, a genialidade ótica e metafórica de Dario Argento.

Nascido em Roma, filho de um produtor cinematográfico italiano e de uma fotógrafa brasileira, o diretor de 71 anos começou cedo sua relação com a sétima arte. Além de uma evidente influência paterna, ainda jovem atuou como colunista e escreveu roteiros, o que lhe possibilitou trabalhar com Sérgio Leone. A experiência com o lendário diretor de bang bangs resultou em sua participação no roteiro do clássico Era uma vez no oeste, a escolha de sua profissão e uma influência permanente em seu trabalho, ainda que em outro tipo de filme. Argento sempre teve verdadeira paixão por histórias policiais, de suspense e terror, o que, com a sua admiração pelo diretor americano Alfred Hitchcook, definiu o caminho que trilharia no cinema.

argento, cinema, dario, italiano, policial, terror © Dario Argento (foto de Penny Dreadful e Jon Kossman).

O longa-metragem Dois olhos diabólicos, feito por Mário Bava em 1963, foi o embrião criativo responsável pelos ajustes finais no molde de estilo e estética fílmica de Argento. Inspirado pela obra que deu vida nas telas aos livros de crimes e investigação conhecidos como giallos, seu primeiro filme como diretor foi O pássaro das plumas de cristal (1970), e iniciou um mergulho a uma tensão psicológica e visceral até então desconhecida no cinema. Com planos-sequência de uma ousadia mirabolante e inédita e tramas notavelmente costuradas, O gato de nove caudas e Quatro moscas no veludo cinza, ambos de 1971, acabaram por confirmar sua excelência. Embora cultuado, o cineasta sempre dividiu opiniões com suas obras quase surreais. Mas mesmo tendo consolidado sua carreira priorizando elementos visuais e relegando a um segundo plano as narrativas, foi graças aos seus filmes que o cinema fantástico adquiriu um formato que garante sucesso até hoje. A complexidade arquitetônica da mente de Argento criou um legado artístico único. Uma fotografia revolucionária de beleza que transcende o real, uma explosão de cores e sons e assassinatos tão performáticos e sincronizados que remetem à perícia de um maestro regendo uma orquestra com sua batuta, se tornaram suas marcas registradas. Em meio a violentos banhos de sangue, o diretor também carrega o mérito de ter construído uma impecável identidade sobrenatural, que paira até hoje em suas produções. Sua habilidade em conduzir o cinema fantástico ficou evidente em Suspiria (1977), o começo de sua saga sobre três bruxas que querem governar o mundo por meio do sofrimento, seguido por Inferno (1980) e La Terza Madre (2007). Este aspecto de seu trabalho é marcado por uma atmosfera subjetiva, representada pela dicotomia entre o vermelho, o azul e outras cores vibrantes e uma trama cuidadosamente desenvolvida dentro de uma espécie de pesadelo real.

Tamanha sensibilidade artística também se reflete na identidade sonora inconfundível das produções do cineasta. A longeva parceria com o músico Claudio Simonetti e a banda Goblin resultou em trilhas sonoras icônicas e eternas, como o obscuro tema de Profondo Rosso (1975), o sintetizador marcante do som de Tenebre (1982) e a incisiva ópera rock presente em Phenomena (1985). O tom soturno do som progressivo do grupo parece vir da mesma fonte criativa que inspira Argento. Consequentemente, a união entre as músicas e as imagens de ambos torna-se uma das melhores e mais eficientes dentro do cinema.

Dario Argento faz parte da história da sétima arte como um dos cineastas mais inspiradores de todos os tempos. Sua maestria em orquestrar o medo dentro dos filmes e sua inventividade visual está imortalizada na mente de fãs e admiradores do mundo todo, e certamente se manterá viva por gerações. E independentemente das críticas e da relativa perda da força do trabalho recente do diretor, seu merecido status de mestre é eterno.


jeferson scholz

é fascinado pela cultura pop em todas as suas esferas de manifestação, por música, cinema e nerdices em geral.
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