Sex and the City: meninas, não se queixem das flores

Quando uma parcela da sociedade, com seus tradicionalismos, rotula um grupo ou determina um comportamento não está sendo mais imbecil do que a outra parcela que, posteriormente, se entrega a um estúpido radicalismo em detrimento das represálias sofridas, traumatizando o bom senso.


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- “Não há nada de mais nisso, é assim mesmo “– dizia uma amiga antes de abocanhar a pizza de suas mãos. - “Não é assim, não tem que ser assim e não podemos deixar que seja assim!” – replicava a outra, enquanto apontava seu dedo indicador aos narizes alheios em seu campo de visão. Ela reclamava que a mulher era conscientemente submissa. A outra não se importava que tivesse sempre sido assim. Uma era feminista, a outra não.

A conversa teve início quando comentei que havia assistido a “Sex and the City” na noite anterior. Disse que preferia "Mr. Big" em “The Good Wife” e que ali, sim, eu poderia imaginá-lo realmente grande. Mas, para meu infortúnio, promovi sentimentos feministas, trazendo à tona as inconformidades dos gêneros, o que fez com que meu juvenil e indecente comentário fosse descartado para o limbo dos ignorados. Limitei-me a ouvir retóricas já quase etílicas de teorias conspiratórias contra as mulheres e citações de Simone de Beauvoir numa interminável oratória social, política e filosófica acerca do comportamento feminino e masculino ao longo dos anos.

- “Como assim, é um insulto que o homem pague a conta?” – perguntou a garçonete que ouvira a conversa atrás de nós, em tom muito curioso e assustadíssimo. -“Eu acho que ele tem que pagar a conta no primeiro encontro” – disse a outra. Um lado do embate concluiu que tal atitude era romântica. Outro lado revidou em revolta, pois o homem que paga a conta de uma mulher reafirma a imagem da mulher estereotipada. Foi neste exato momento que fiquei muito interessada em participar da conversa, muito embora soubesse que estaria entrando num terreno minado, visto que eu nunca fui, nem nunca tive a pretensão de ser, feminista. Não uma radical – não chamaria o homem que me paga a conta de porco chauvinista. Mas, achei interessante a questão que se abriu sobre o fato de que o seriado “Sex and the City” é visto como um entrave ao feminismo. No entanto, é absolutamente ao contrário, penso. Mas a questão é tão delicada que passa despercebida. E feministas de plantão alteram-se quando ouvem as quatro nova-iorquinas discutindo cabelo e maquiagem. Claro, pois não há nada mais brega do que discursos intelectuais proferidos em frente a uma vitrine da Prada, a mesma vitrine que ofusca o suposto “tapa” com o qual a série “Sex and the City” violentou a delicada face do machismo, embutida no cotidiano e atitudes pormenores.

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“Sex and the City” modificou o conceito universal e quase inconsciente de que a mulher “possui funções“, em lugar de “possuir personalidade”. Ao dar personalidade à mulher – empatando seus anseios, ambições, liberdade e desejos com os dos homens – a série acenou ao pós-feminismo, igualando os gêneros. Juntou o que há de pior do universo masculino e o celebrou numa versão feminina – fomentando retaliações sobre os estereótipos da mulher na sociedade, e brincando com eles. A série, contudo, não conseguiu elevar a mulher – e nem era este o propósito – mas, sim, diminuiu o homem, despencando-o, ele e seu ego, daquele universo que supostamente ficava alguns palmos acima do universo feminino. Nivelou por baixo, ao mostrar que podemos ser homens de saia se quisermos. Temos a conservadora e moralista, a viciada em trabalho egoísta, a promíscua e liberal que vê o casamento como instituição falida, a moderna hedonista e politicamente incorreta. Tudo isto numa versão, obviamente, sádica e cínica – crítica invisível para quem apenas enxerga todas aquelas futilidades necessárias.

Claro que foi violentamente de encontro aos mais conservadores, mas atingiu a massa – por meio da indústria do entretenimento e da comunicação, a mesma indústria que sempre promoveu os estereótipos da mulher e que delegou a ela posições supostamente adequadas. E foi por este caminho que a série abocanhou muito mais do que uma parca mocidade intelectual que prezava pela leitura de teorias sócio-revolucionárias setentistas ao estilo Patti Smith.

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A batalha travada na mesa fez com que a pizza esfriasse e o vinho desse conta de todas nós em apenas alguns minutos. Porém, a nossa amiga feminista continuou firme na posição de vítima. Pois há um vitimismo radical no feminismo radical. Tudo vira estereótipo, tudo vira preconceito. Um simples elogio é capaz de acionar os ímpetos da revolução naquela pobre alma. Uma perda de tempo.

“Sex and the City” contém um feminismo embutido e não escancarado. É satírico e basta. E nos diz por entrelinhas que podemos ser tão poderosas com um sapato Manolo Blahnik nos pés, quanto com um livro de Beauvoir nas mãos. E podemos apelar ao cavalheirismo do homem para trocar a lâmpada queimada, sim, por favor.

O problema das feministas radicais é que não sabem usar o salto, querem as botas. Queixam-se do sutil galanteio, do flerte, da predisposição masculina de tomar frente do casal ou empunhar a mulher ao passeio, se queixam das flores. Ora, se queixam até das flores que recebem! Por minha vez, finalizei meu discurso torto com o argumento – muito plausível, aliás, penso eu – de que não me atrevo a socar o estômago do rapaz que tiver a terrível ousadia em abrir a porta do carro para mim. Por que marchar se podemos desfilar?

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rejane borges

Gosta das cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros.
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