Vincent Price e as mil faces do medo

Vincent Price foi um homem que revolucionou o horror na sétima arte, devido a suas interpretações esplêndidas, personagens lendários e filmes inesquecíveis. Com uma inclinação natural para as artes, um nível de conhecimento cultural proeminente e grande talento dramatúrgico, este brilhante ator se tornou um dos maiores arquitetos do cinema fantástico da história.



artes, ator, cinema, fantástico, medo, Price, terror, Vincent Vincent Price (foto de Alan Light).

De todos os papéis que a arte tem tido na sociedade ao longo da história, sua capacidade de permitir ao ser humano expressar o que está além de sua compreensão e se relacionar com sentimentos profundos e complexos é incontestável. Por esta lógica, não é difícil entender porque o terror é uma temática constante e pulsante na maioria das manifestações artísticas, visuais ou imagéticas. E este terror prospera graças a indivíduos imortalizados na história por explorar suas mais diversas esferas, seja na literatura, no teatro ou no cinema. E neste último caso não há como falar em medo sem citar o nome do ícone Vincent Price.

Nascido em uma família abastada de Saint Louis (Missouri) em 1911, esta lenda do cinema fantástico cresceu num meio intelectual privilegiado e cercado das tradições europeias de seus antepassados. Antes de se consolidar como ator, Price estudou artes na universidade de Yale, se apaixonando pelo teatro durante os anos 30 e se iniciando profissionalmente no cinema em 1935. Durante sua carreira, construiria uma das mais memoráveis e bem sucedidas histórias da sétima arte, ajudando a promover e eternizar o horror como um gênero de filme.

A primeira incursão do ator conhecido como Mestre do Macabro no mundo do terror foi em Towers of London (1939, uma aparente releitura fúnebre da obra Ricardo III, de Willian Shakespeare. Nesta produção, Vincent Price contracenou com Boris Karloff, outro mito que também foi responsável pelos primórdios da cartilha do cinema fantástico, assinada por nomes como Bela Lugosi e o diretor Ed Wood. A partir de então, o ator de fala grave, grande estatura e aspecto assustador atuou em diversas obras primas. Morreu em 1993.

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Um dos fatores mais admiráveis do talento deste artista foi a sua versatilidade dramática. Após um grande desempenho no teatro, na Broadway e em filmes de vários tipos, sua capacidade dramatúrgica se concentrou no fantástico, em estado constante de inovação. Enquanto descarrega uma tórrida angústia por uma maldição herdada de sua família em House of Usher (1960), encarna alguns dos personagens mais icônicos do cinema, como o persistente Dr. Robert Morgan de The Last Man on Earth (1964) e o atormentado vilão Anton Phibes de The Abominable Dr. Phibes (1970). Mesmo não sendo o principal motivo de pavor nas obras em que aparece, sua atuação, sempre carregada de ar tétrico, prende o espectador.

A intimidade com o teatro e o elevado nível cultural que forjaram a personalidade artística de Vincent Price também foram responsáveis pelo brilhantismo e criatividade de seu desempenho. Graças a um eficaz humor negro e tiradas cômicas, o ator mostra a mesma eficiência a assustar e a divertir, como em Theater of Blood (1973), na pele do irônico assassino Edward Lionheart, e Madhouse (1974), encarnando o cômico astro de filmes de terror Paul Toombes. Neste filme, é curioso notar uma cena sobre a qual Price afirma, em uma entrevista, que as pessoas gostam tanto de produções de terror pelo fato de ser algo que não trata do mundo em que se vive, mas sim de um mundo de violência e brutalidade contido dentro de cada um.

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Dono de uma das vozes mais marcantes da sétima arte, este artista das telas a usou como outra ferramenta valiosa até o fim de sua vida. A capacidade dramática e tom lúgubre de seu vocal foi evidenciada em vários momentos, como na interpretação de um homem invisível em Abbot and Costello Meet Frankeinstein (1948) e na verbalização de contos e histórias, como O Corvo e O Coração Delator, de Edgar Allan Poe. Seu corpo e alma se dedicaram inteiramente ao amor pela interpretação e a devoção por tudo o que é cômico e sinistro.

Price foi mais do que um distinto e talentoso cavalheiro e uma das maiores figuras artísticas da história do cinema: ele introduziu o horror moderno na sétima arte. Como um alfaiate demoníaco, ele costurou com perfeição medo e humor em sua obra, de maneira nunca vista anteriormente. Seu trabalho e ardor pelo que fez servem de inspiração e, mesmo que não tenha sido o inventor do mundo sobrenatural, foi sem dúvida um de seus mais intrépidos desbravadores.

jeferson scholz

é fascinado pela cultura pop em todas as suas esferas de manifestação, por música, cinema e nerdices em geral.
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