Contos de Feras de Kathy Ruttenberg

Assim como nos contos de fadas, dentro de cada um de nós o bem e o mal convivem. Não há harmonia, mas sim um silencioso equilíbrio. As esculturas de Kathy Rottenberg são baseadas nesse silêncio que nos habita e que às vezes esconde sentimentos não tão louváveis.

contos, de, escultura, fadas, Kathy, Ruttenberg © Kathy Ruttenberg, "Moment After" (detalhe).

Quando me deparei pela primeira vez com as esculturas de Kathy, não consegui pensar em outra coisa que não fossem as teorias do psicólogo austríaco Bruno Bettelheim sobre a psicanálise dos contos de fadas. Na sua origem, da tradição oral até às narrativas de Charles Perrault, o conto de fadas era um tanto mais assustador, a intenção de moralizar era mais explícita e o final feliz simplesmente não existia - ou seja, Chapéuzinho Vermelho foi devorada por um “lobo” mau, por exemplo. Bettelhein, por sua vez, torna ainda mais explícito o lado negro das histórias infantis: Chapéuzinho Vermelho queria ser devorada pelo “lobo”.

É mais ou menos nessa linha que Kathy Rottenberg atua. Segundo a artista, seu trabalho é mais um trabalho de escavação: encontrar traços de humanidade no absurdo que está escondido dentro de cada um.

À primeira vista suas obras lembram as ilustrações de livros infantis, mas se pararmos para observá-lo por mais tempo, veremos que a história de cada um dos seus personagens não é nada infantil. Seu trabalho é simbólico desde a matéria prima: argila e aquarela, que podem ser associadas às profundezas, à origem das coisas (argila) e à infância (aquarela).

contos, de, escultura, fadas, Kathy, Ruttenberg © Kathy Ruttenberg, "Moment After".

Os personagens criados pela artista convivem com o absurdo, mas isso sem perder a perspectiva humana, ou seja, é o absurdo das situações vividas por pessoas como todos nós. Em alguns deles, mais uma vez como em muitos de nós, as imagens do passado estão estampadas no corpo, em forma de tatuagens ou vestimentas, como se não fosse possível esconder aquilo que os guiou até onde chegaram.

Mas este lugar onde se encontram agora é apenas a transição entre a consequência do que já passou e o desejo por um futuro que não se pode adivinhar, mas que ainda assim está subentendido. O universo que Kathy cria é onírico: não há uma divisão muito clara de espaço entre as pessoas e os animais, eles podem habitar a vizinhança ou o mesmo corpo. Assim como flores e árvores podem ter rostos humanos. Adentrar ao universo criado pela escultora é mais que uma viagem por um universo inventado, é percorrer caminhos que sempre estiveram ali, mesmo que você os esconda no mais profundo dos silêncios.

contos, de, escultura, fadas, Kathy, Ruttenberg © Kathy Ruttenberg, "Moment After".

contos, de, escultura, fadas, Kathy, Ruttenberg © Kathy Ruttenberg, "Back to The Bird".

contos, de, escultura, fadas, Kathy, Ruttenberg © Kathy Ruttenberg, "Lemur Lady".

contos, de, escultura, fadas, Kathy, Ruttenberg © Kathy Ruttenberg, "Nightshade".

contos, de, escultura, fadas, Kathy, Ruttenberg © Kathy Ruttenberg, "Submission Page".

contos, de, escultura, fadas, Kathy, Ruttenberg © Kathy Ruttenberg, "It Has To Be Said".

contos, de, escultura, fadas, Kathy, Ruttenberg © Kathy Ruttenberg, "Half A Man".

contos, de, escultura, fadas, Kathy, Ruttenberg © Kathy Ruttenberg, "Don't Get To Close".

contos, de, escultura, fadas, Kathy, Ruttenberg © Kathy Ruttenberg, "Surrender".


jéssica parizotto

é uma proparoxítona, interessa-se por haicais, músicas pouco conhecidas e jogo de palavras. Queria voar de balão, mas tem medo de altura.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
x5
Site Meter