Emily Brontë e seu único romance

Clássico da literatura mundial, "O Morro dos Ventos Uivantes" (br) / "O Monte dos Vendavais" (pt) foi publicado em 1847 e se perpetua no tempo, filho único e prodígio da autora que contribuiu para o desabrochar de uma nova abordagem literária.


bronte, dos, emily, heathcliff, literatura, monte, romance, vendavas © Anne, Emily, Charllotte Brontë, retrato pintado pelo seu irmão Patrick Branwell.

A inglesa Emily Brontë nasceu em 1818, sendo a quinta de uma família de seis filhos. Sua infância foi difícil e sofrida: primeiro a morte da mãe, depois a partida para um colégio interno em Cowan Bridge, onde dois de seus cinco irmãos vieram a falecer devido a maus tratos, alimentação inadequada e noites mortificantes sem dormir por causa do frio.

Depois dos trágicos acontecimentos, seu pai resolveu trazer os filhos sobreviventes de volta para casa. O ambiente de seu lar, segundo a irmã Charlotte escreveu mais tarde ao recordar a infância, tinha poucos atrativos para as crianças: "Dependíamos totalmente de nós mesmos e uns dos outros, dos livros e do estudo para encontrar diversões e ocupações na vida. O estímulo mais elevado, bem como o prazer mais vivo, que conhecemos da infância em diante residia em nossos primeiros esforços na composição literária."

Desta forma, principalmente ela e suas duas irmãs, Charlotte e Anne, se dedicaram ao mundo inventivo da escrita.

Emily não conseguiu o mesmo aparente progresso de suas irmãs, muito devido à sua sufocante timidez. Charlotte fora convidada a lecionar; induziu sua irmã Emily ao mesmo caminho, mas esta, apesar de grande esforço, não conseguiu tornar-se professora, devido a sua timidez e impossibilidade de falar em público.

bronte, dos, emily, heathcliff, literatura, monte, romance, vendavas © Emily Brontë, retrato pintado pelo seu irmão Patrick Branwell.

Levando uma vida doméstica e solitária e encontrando tempo suficiente para esvaecer seus pensamentos na escrita que tanto lhe agradava, Emily conclui seu primeiro e único romance: “Wuthering Heights”, comumente conhecido no Brasil como O Morro dos Ventos Uivantes e em Portugal como O Monte dos Vendavais.

Foi publicado em 1847, mas Emily não teve tempo para ver seu filho único ganhar o mundo, nem mesmo os críticos locais: faleceu um ano após sua publicação, tuberculosa.

bronte, dos, emily, heathcliff, literatura, monte, romance, vendavas © Fotograma do filme de 1939, com as personagens de Catherine e Heathcliff em crianças.

bronte, dos, emily, heathcliff, literatura, monte, romance, vendavas © Fotograma do filme de 1939, com as personagens de Catherine e Heathcliff em adultos.

Desde então, além das renovações editorias, o romance teve também diversas adaptações cinematográficas, teatrais, musicais, etc.. No cinema podemos citar entre tantos um clássico de 1939 dirigido por William Wiler. No mundo da música, em 1978 Kate Bush ficou no topo das paradas do Reino Unido e Austrália com a música Wuthering Heights que, segundo ela mesma, foi inspirada nos 10 minutos finais da versão cinematográfica de 1970 do britânico Robert Fuest. A banda brasileira Angra também prestou sua homenagem regravando a música de Kate Bush. Estas, entre inúmeras outras manifestações artísticas, contribuíram para a imortalização da vigorosa história de amor.

Retornando ao livro, é preciso estar ciente do período em que este foi escrito antes de entrarmos na história. Nessa época, a literatura pretendia a formação e edificação moral de seus leitores; desta forma, o vilão haveria de ser punido enquanto o justo recompensado. Uma visão de moral literária que, juntamente com a submissão social do sexo feminino, levou a autora a publicar sob o pseudônimo masculino Ellis Bell.

Mas, infelizmente, vivemos em um mundo com poucas balanças para medir nossos atos. Emily, solitária em sua casa e percebendo que a tia querida era consumida pelo alcoolismo, a mesma tia homenageada em seu romance, conclui que os contos de fadas se aplicam muito mais às fadas que aos seres humanos.

Portanto a história trilha um caminho pouco explorado em sua época, descompromissado com esses valores morais formativos. É desde logo óbvio o lado virtuoso e sombrio de seus personagens, especialmente Heathcliff e Catherine Earnshaw, em torno dos quais gira a trama.

Rico em detalhes - outra característica do tempo e que para os mais apressados pode vir a ser maçante - o romance trata dos mais básicos conflitos humanos, desde a busca do amor até à criação do puro e incontrolável ódio.

Não há nesta história acontecimentos extraordinários nem um final inimaginável. Mas isto é porque, como Saramago mesmo refere, em nossa sociedade contaminada de informações somente algo incrível nos anima, nem digo surpreende.

A força deste livro está na descrição dos personagens, na carga emocional das tramas, na tensão permanente, sobretudo na relação entre Catherine e Heathcliff, que a todos os momentos parece poder tornar-se um amor luminoso e absoluto, para logo cair na escuridão e na violência. A história desenrola-se numa atmosfera insuportável e densa, onde se espera por uma catástrofe a qualquer página virada.

Munidos destas poucas mas necessárias informações, se a curiosidade se mantém ao seu lado, Emily Brontë e seu filho único o esperam. Boas leituras.


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