Nanook, o esquimó: um pioneiro do filme documental

Em 1920, um esquimó do Ártico do Canadá torna-se no protagonista do primeiro documentário cinematográfico. Realizado pelo norte-americano Robert J. Flaherty, "Nanook" representa não só uma nova forma de explorar a autenticidade da realidade, como também promove a aproximação com o espectador através de um singular entretetenimento narrativo.



canada, documentario, esquimo, filme, flaherty, j., nanook, robert © "Nanook, o esquimó" de Robert Flaherty (Wikicommons).

No início do século XX, os espectadores já estavam rendidos ao cinema. No entanto, um dos seus géneros mais importantes, o documentário, parecia não atrair o público. Em voga estava o cinema de ficção que começara a utilizar e desenvolver técnicas de montagem especiais recriando facilmente cenários que manipulavam a realidade e traziam expressividade dramática ao filme. O documentário como hoje o conhecemos ainda não existia. Deve-se ao cineasta Robert J. Flaherty (1884-1951) a primeira longa-metragem do género, que foi uma viragem na história da sua produção.

Flaherty introduziu nas suas produções aquilo que faltava ao sucesso dos documentários: um conteúdo descritivo sobre o tema em questão; uma perspectiva individual e criativa trazendo ao ecrã um olhar diferente sobre os factos; e, para além disso, trouxe a fórmula certa de entretenimento. Até 1916, o realizador fizera várias filmagens ao longo do Canadá Ártico. Porém, quando um incêndio destruiu todos os negativos, voltou ao local para novas imagens. O seu objectivo era captar os esquimós e o seu modo de vida e montar um documentário com esse material. Em 1920, consegue o tão desejado apoio financeiro para o projecto e passa dezasseis meses na baía de Hudson a rodar "Nanook, o esquimó".

Para Flaherty, um documentário devia "representar a vida no próprio meio em que se vive". Consequentemente, as filmagens só podiam ser feitas nesse local, com os seus habitantes e uma criteriosa selecção de imagens de acontecimentos reais. Em Nanook, escolheu um caçador da tribo Itivimut para protagonista. Todos estavam muito entusiasmados, de modo que os problemas técnicos com que se depararam pouco os afectaram. Acontecia, às vezes, o frio estragar os negativos do filme ou atrasar a rodagem prevista. Houve também que soluccionar a questão do tamanho do iglu: primeiro, não cabiam esquimós e técnicos todos juntos lá dentro; segundo, faltava luz.

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Acabou então por se construir um iglu maior. Foi cortado ao meio e a câmara filmava de fora. Todas as cenas de Nanook e a família a levantarem-se, por exemplo, mostram sorrisos apesar do frio polar a entrar em casa. Flaherty utilizou no documentário recursos expressivos que, até aí, eram exclusivos do cinema de ficção: grandes planos e montagens de sequência para transmitir a naturalidade dos acontecimentos. Combinou ainda uma elegância de ritmo e beleza do quotidiano esquimó, despertando a sensibilidade do espectador como se este também se sentisse um explorador da vida selvagem.

Em 1922, "Nanook, o esquimó" estava pronto a exibir. A Paramount, assim como outras distribuidoras, rejeitaram-no. Somente a Pathé o estreou em Nova Iorque, e o seu êxito foi imediato. A luta pela sobrevivência entre homem e natureza inspirou canções na Broadway e até produtos comerciais em Berlim. Os documentários adquiriram a partir de então uma nova linguagem cinematográfica. "Não pretendo realizar filmes sobre o que o homem branco fez dos povos primitivos. (...) O meu desejo é mostrar o carácter destas pessoas enquanto é possível, antes de que o homem branco destrua não só a sua forma de vida, como também o seu próprio habitat. Nanook revela a minha admiração por esta gente" afirmou Flaherty.

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Ainda assim, o realizador não escapou às criticas por forjar a autenticidade de alguns elementos. Soube-se que o protagonista afinal não se chamava Nanook, mas sim Allakariallak, enquanto a sua mulher no filme era uma, e na realidade era outra - para embelezar a imagem da família, Flaherty "trocou-as", pois a substituta era mais bonita. Segundo Charles Nayoumealuk, autor de Nanook Revisited (1988), o esquimó foi também orientado para mostrar as técnicas de caça originais do povo, antes da influência de vida europeia.

Em 1989, este clássico do cinema foi um dos 25 filmes seleccionados para preservação pela National Film Registry da Biblioteca do Congresso, Estados Unidos, por ser "culturalmente, historicamente e esteticamente um marco".

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Este artigo foi escrito com a ajuda da obra "El cine informativo 1895-1945 Creando la realidad" - Maria Antonia Paz y Julio Montero.

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diana ribeiro

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