Seattle está em chamas e a música veste xadrez

A história do grunge é uma teia que cerca os artistas e bandas numa verdadeira irmandade. Uma irmandade de garotos que gostavam de camisas de flanelas xadrez. Garotos largados, modestos, inquietos, talentosos, cabeludos. Garotos competentes o suficiente para acompanhar qualquer senhor do rock em uma coisa que eles adoravam fazer juntos nas tardes chuvosas de Seattle: uma boa jam session.


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Neto do punk, o grunge nasceu no final dos anos 80 e, como subgênero do rock, também fez muito barulho por aí. Nasceu entre uma chuva e outra de Seatlle. Saiu meio tímido, meio sem jeito – típico do estilo – dos bares subterrâneos e das garagens da cidade. O grunge tem uma história rápida e, em comparação a outros movimentos do rock, discreta. Alcançou seu auge com a mesma rapidez com que voltou para o sóbrio reduto de quem um dia conheceu a embriaguez da fama. E por lá fica até hoje. Uma das principais características do grunge é exatamente romper com todo o deslumbre e excesso provocados pelo palco. Isso porque tem a veia do pós-punk que, no geral, distanciava-se cada vez mais da atitude visceral com a qual o punk se exibia.

Como uma grande entusiasta do Seattle Sound, fico um pouco desconfiada quando alguém brada o nome “Nirvava” ao conversar sobre o grunge. Deixe-me explicar: eu gosto de Nirvana, mas citá-lo como referência ao estilo é deixar nas botas os estandartes de um dos mais importantes movimentos do rock, que marcou o fim da geração X.

A música grunge atribuía aos temas sócio-políticos, pessoais e revolucionários um caráter melancólico e sarcástico – como quem culpa a sociedade pelos próprios problemas. A atitude era de verdadeiros meninos cansados com a própria geração. Mas cansados ou não, eles tinham talento e decidiram que mereciam ser ouvidos. Infelizmente, quando se fala no “Seattle Sound” muitos tomam como referência o Nirvana, banda de Kurt Cobain, mais um que foi vítima da própria ignorância. No entanto, Nirvana é uma das últimas coisas que se deve citar ao falar do grunge. A banda foi quem popularizou o grunge, é certo, e obviamente foi a primeira a chamar a atenção da indústria fonográfica, já que a beleza de Cobain atraía os holofotes muito mais do que qualquer coisa extraordinária daquela cidade.

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Não entenda errado, não há problema algum com o "Smells Like Teen Spirit", mas não se faz justiça ao grunge tendo o Nirvana como flâmula do estilo. Nem de longe o é. Façamos justiça, portanto, ao verdadeiros representantes do grunge. Façamos justiça a cinco rapazes inquietos de Seattle que deram berço ao som. Eram eles: Mark Arm, Steve Turner (esses dois mais tarde formariam o Mudhoney), Alex Vincent, Jeff Ament e Stone Gossard (esses dois últimos formariam o Pearl Jam). Era 1983 e nascia Green River, a primeira banda grunge. Todos os integrantes já haviam tocado em bandas menores de hardcore punk e por isso Green River tinha a veia irreverente do estilo. No final de 1984, o grupo já tinha algum nome em Seattle e depois de quatro álbuns e uma troca de baterista (Bruce Fairweather por Steve Turner) se desfez.

green, grunge, jam, musica, nirvana, pearl, river, seattle, soundgarden Green River.

Metade da banda formou um dos principais nomes do grunge, Mudhoney - e que, ao contrário das outras bandas que fariam parte do estilo, fugiu incessantement dos holofotes, mantendo a ideia original do movimento de romper com as tendências e com o que era comercial. A outra metade formou outra banda que é uma verdadeira matriarca da família: Mother Love Bone. Não podemos falar de grunge sem falar de Mother Love Bone. Foi a primeira a se destacar comercialmente, em 1989, quando lançou o EP “Shine” – um EP que contém os hinos do movimento grunge ao dar seus primeiros passos. Depois de conquistar a cena de Seattle veio o primeiro e único álbum de estúdio, “Apple”. No entanto, antes de seu lançamento oficial, em 1990, a febre de Mother Love Bone foi interrompida pela overdose fatal do vocalista Andrew Wood, levando a banda ao fim, depois de alguns outros singles lançados. Foi uma drástica perda para o grunge.

green, grunge, jam, musica, nirvana, pearl, river, seattle, soundgarden Mudhoney.

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Depois deste episódio, dois de seus integrantes (Stone Gossard e Jeff Ament) resolveram chamar alguns amigos músicos para formar outra banda em homenagem a Wood, a épica “Temple of the Dog”. Foi então que se reuniram os nomes mais fortes da cena musical de Seattle na época: o vocalista Chris Cornell, da banda em ascensão paralela, Soundgarden; o guitarrista Mike McCready; o baterista Matt Cameron e um desconhecido rapaz tímido chamado Eddie Vedder. A banda lançou um único álbum em 1991, de mesmo nome. O intemporal single “Hunger Strike” – dueto histórico feito por Cornell e Vedder – atingiu o topo das principais paradas de sucesso, recendo boas críticas na cena alternativa. Mas a fama durou pouco - o grunge ainda estava para experimentar seu auge. E este auge tem duas importantes vertentes: uma se chama Nirvana; a outra, Pearl Jam.

green, grunge, jam, musica, nirvana, pearl, river, seattle, soundgarden Temple of The Dog.

Isso inflamou um suposto desentendimento entre as duas bandas, alimentado pela mídia. Em 1993 Nirvana lança seu terceiro e último álbum, “In Utero”, o qual a mídia ignorou por completo. Um mês depois, Pearl Jam lança seu segundo álbum de estúdio, o sensacional “Vs”. Também glorificado pela mídia e fãs. O que contribuiu para que alguns críticos esvaziassem Nirvana como uma banda de um álbum só.

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Depois do luto pela morte de Kurt Cobain, em 1994, a cena grunge recupera o fôlego para acompanhar o vocal abafado e dissonante de Eddie Vedder. Pearl Jam explode nas paradas de sucesso de todo o mundo, invade as capas de revistas especializadas, rádios e MTV – que na época era realmente um canal de música. Pearl Jam permanece lançando álbuns cada vez mais excepcionais, desvencilhando o grunge da original conotação pejorativa do termo, tornando-se um som mais sofisticado, com performances de altíssima competência técnica e sonora. Junto aos álbuns, lança quase 30 singles e bootlegs oficiais de milhares de shows. Mas como todo bom grunge, a banda decide romper com toda a histeria que viu crescer à sua volta. Rompe, primeiramente, com a mídia não concedendo mais entrevistas para nenhum veículo de comunicação. Em seguida toma uma atitude arriscadíssima para a própria carreira, rompendo com a colossal indústria Ticketmaster para protestar contra seu monopólio e preços exorbitantes. O PJ, então, começa a se caracterizar como uma banda que não somente canta sobre a sociedade, mas que, de fato, usa a influência que exerce para defender muitas causas sociais nas quais acredita. Saúde, meio-ambiente, liberdade da mulher, direitos dos animais e política são apenas alguns dos temas aos quais PJ, ao longo dos anos, tem dedicado sua trajetória.

Ao lado de PJ destacam-se bandas como Soundgarden, Stone Temple Pilots e Alice in Chains. Mesmo que os estilos tenham, com o tempo, se distanciado entre eles, essas bandas são a herança do grunge. E já no meio da década de 90, o movimento perde força total, deixando uma história modesta, mas intensa. Tal qual seus garotos. Os garotos que vieram do Green River, com um sentido de moda questionável, mas que queriam também expressar alguns pensamentos sem a pretensão de mudar a rota do mundo. Podem não ter mudado nenhum rumo, mas estremeceram os bares, as rádios e os palcos mundo afora. No final das contas, o grunge é o caçula do rock, um moleque. Meio largado, meio jogado, aparentemente mais pra lá do que pra cá, sendo alvo de preconceito de muita gente. Mas que hoje segue tranquilo, como quem tem orgulho do legado que deixa. E segue de camisa xadrez, com um sorriso no rosto.

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rejane borges

Gosta das cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros.
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