A magia virtuosa de Return to Forever

Dentro do complexo e notável universo jazzístico, não é difícil entender porque o Return to Forever é tão importante. Com um line up de lendários e excelentes músicos, a banda consegue elevar o virtuosismo e a beleza instrumental para um novo nível, agradando a seus ouvintes sem correr o risco de entediar ou resvalar para a vaidade.



chick, corea, fusao, fusion, jazz © Return to Forever Photo (Tom Marcello, Wikicommons).

Desde seu nascimento na cultura popular dos negros dos EUA, no início do século XX, o jazz sempre teve como diferencial um som complexo baseado não em mimetismos ou adequações musicais, mas na improvisação. Assim, os músicos que se aventuram a tocar este estilo necessitam inevitavelmente equilibrar em doses iguais técnica, virtuosismo e sentimento. Muitas bandas inseridas no universo jazzístico conseguem tal feito, mas uma se destaca pela primazia e elegância de suas composições instrumentais: Return to Forever.

Formada por músicos que estão entre os melhores do mundo do jazz em suas carreiras solo, o grupo surgiu em 1972 em Nova York. Liderada por Chick Corea, a lenda que com seu teclado revolucionário ajudou a formar o estilo fusion, a banda reúne a experiência e o incomparável talento de outros mitos. O comando do contrabaixo conta com Stanley Clarke, precursor de técnicas, naturalmente talentoso e inovador. Lenny White está a cargo da bateria, pulsante, rápida e de uma precisão enérgica quase sobre-humana. E o guitarrista Frank Gambale, substituto de Al Di Meola, coroa esta união musical privilegiada, sendo capaz de equilibrar em doses iguais habilidade, sensibilidade e uma mágica beleza sonora.

Ao ver o quarteto tocar ao vivo, ocasionalmente acompanhado do violinista Jean-Luc Ponty, é possível perceber a dimensão de seu legado instrumental. Por meio de improvisações e solos de todos os instrumentos do palco, nota-se que, mesmo inconscientemente, várias bandas incorporam suas influências. Dos jam improvisados no rock da banda Phish, passando pelas experimentações no estilo dos Dixie Dregs e inspirando também o despojamento progressivo do Dream Theater, de uma maneira ou de outra, o Return to Forever se faz presente. Entre todas as lições que o grupo ensina, mostra principalmente como unir a mais aguçada inteligência musical e o mais puro sentimento pela música em suas composições.

chick, corea, fusao, fusion, jazz © Return to Forever Photo (Grant Gouldon, Wikicommons).

O mérito de a bagagem da banda ser capaz de inspirar diversos estilos musicais se deve principalmente a seu amadurecimento. Iniciando com um jazz voltado para o ritmo latino, o quarteto conseguiu encontrar seu estilo e refinar sua formação ao longo de seus primeiros anos. Após o lançamento do segundo álbum, Hymn of the Seventh Galaxy (1973), o grupo adotou o rock jazzístico virtuoso que o caracteriza hoje, que consegue transportar seus ouvintes para uma viagem futurística e prestar sinceras homenagens a sonoridades mais antigas e até mesmo à música medieval. Além disto, após o álbum Musicmagic (1977), os músicos fizeram um longo hiato, aprimoraram suas capacidades, e voltaram com força total em 2008.

Mesmo com o intervalo da banda, sua base criativa - Stanley Clarke e Chic Corea - continuou trabalhando junta, fato que contribui para que o som do grupo continue tão atual hoje quanto antigamente. O tecladista que junto com Lenny White já havia tocado com a lenda Miles Davis extrai de seu instrumento o ritmo ideal, tanto para as improvisações do baixista quanto para seus próprios solos. Este por sua vez, consegue aliar como poucos as técnicas de base, grooves e solos. Estes diferenciais casam perfeitamente e resultam em uma sonoridade única.

Sobriedade em cada nota, consciência em cada escala, fascínio em cada tom. Esta é a fórmula mágica de Return to Forever. Fiel ao estilo fusion pioneiro que criou dentro do jazz, o quarteto não poupa esforços para fazer o melhor em termos musicais para depois superá-lo. Mesmo que seus planos não estejam definidos para o futuro, a banda pode se orgulhar de um grande feito: ser uma das únicas a conseguirem fazer um som universal, capaz de maravilhar tanto o mais exigente como o mais simples apreciador de boa música.

chick, corea, fusao, fusion, jazz © Chick Corea (Lee Wright, Wikicommons).© Stanley Clarke (Benght Nyman, Wikicommons).



jeferson scholz

é fascinado pela cultura pop em todas as suas esferas de manifestação, por música, cinema e nerdices em geral.
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