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Edvard Munch: um grito infindável

publicado em artes e ideias por | 7 comentários

A obra-prima de Edvard Munch, O Grito, acaba de ser vendida pelo preço recorde, em leilão, de 120 milhões de dólares na casa Sotheby´s, tornando-se na obra-de-arte mais cara de sempre a ser leiloada. O que torna este quadro tão marcante na história da arte?

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© Edvard Munch, "O Grito".

O quadro " O Grito " tornou-se uma das obras-de-arte mais reconhecidas em todo o mundo só suplantada pela “ Mona Lisa " de Leonardo Da Vinci. Este último leilão veio comprovar esse facto. Mas o que tornará esta obra de arte tão famosa e apelativa? Será a misteriosa figura central do seu quadro? Será a dor intensa que este personifica ? Serão as cores tortuosas que nos tocam a alma? Será uma identificação que inconscientemente fazemos quando somos confrontados com a sua angústia ?

Ou adoramos "O Grito" por simplesmente ser um quadro humano. Terrivelmente humano. Humano no sentido em que nos toca, pois em algum momento das nossas vidas nos sentimos como a personagem. Como o artista. É-nos familiar.
Ao contrário de outras obras de arte que irradiam beleza mas igualmente uma certa plasticidade, um certo mundo de fantasia inatingível aos olhos do público, "O Grito" é profundamente emotivo. É, numa palavra, expressionista. É o auge do Expressionismo.

Edvard Munch é claramente um dos representantes máximos do movimento expressionista. Nasceu em Løten, na Noruega a 12 de Dezembro de 1863. Desistiu de estudar engenharia e decidiu ser pintor aos dezassete anos. Inscreveu-se na Academia de Desenho de Oslo em 1881, tendo logo nesse ano vendido dois quadros e pintado o seu primeiro auto-retrato. A morte, a efemeridade da vida e a melancolia atormentaram Edvard desde cedo. A sua mãe morrera quando tinha 5 anos e a irmã mais nova morrera com 15 anos. Foram traumas que sempre o acompanharam artística e pessoalmente. “ Pintei as impressões da minha infância, as cores esbatidas de um dia esquecido “, disse Edvard Munch.

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© Edvard Munch, "Primeiro Auto-Retrato".

Em 1893 pinta “O Grito”, incluído na série “ O Friso da Vida”. É uma obra efectuada em óleo, têmpera e pastel em cartão de pequenas dimensões: 91 x 73.5 cm. Há uma série de factores que influenciaram Munch para a realização deste quadro. Desde já, um período em que esteve doente em Nice, em 1892. Edvard escreveu em seu diário o momento que por certo o inspirou a pintar a sua obra: “ Estava a passear cá fora com dois amigos, e o Sol começava a pôr-se - de repente o céu ficou vermelho, cor de sangue - Parei, sentia-me exausto e apoiei-me a uma cerca – havia sangue e língua de fogo por cima do fiorde azul-escuro e da cidade – os meus amigos continuaram a andar e eu ali fiquei, de pé, a tremer de medo – e senti um grito infindável a atravessar a Natureza “.

Outras fontes literárias serviram de inspiração a Edvard nomeadamente a obra de Fiodor Dostoievski, um dos preferidos do pintor, e do filósofo Soren Kierkegaard. Deste último, a citação que a seguir transcrevo encaixa perfeitamente na visão pictórica que o quadro nos dá: “ A minha alma está tão pesada que nenhum pensamento nunca mais a poderá elevar, nem nenhuma batida de asas a conduz ao alto para o espaço celeste. Se alguma coisa a mover de alguma forma, ela apenas raspará o chão, como um pássaro a voar baixo após a tempestade. A opressão e a ansiedade estão a meditar rancorosamente no meu interior, pressentindo um tremor de terra “. Por conseguinte o quadro transmite-nos uma angústia intensa, quase um ataque de pânico visual perante um céu sangrento que poderia simbolizar o coração desfeito, a esperança perdida e o desespero que Munch sentia e o seu expressionismo com mestria nos revela.

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© Edvard Munch, "Madona".

É curioso que existam várias versões diferentes deste quadro para além da obra de 1893. Em todas o carimbo emocional de Munch está presente para nos recordar que o lado negro da vida pode ser belo. Para além de "O Grito", outra obra-prima do pintor é o quadro “ A Madona” de 1894/95, fabuloso retrato enigmático de uma mulher. Uma imagem extremamente sensual e ambígua. Edvard Munch escrevera sobre o quadro: “ Aquele intervalo em que o mundo pára no seu curso – Toda a beleza do globo está na tua face- Os teus lábios enrubescem tal como o fruto que está para nascer rebenta como se estivesse em sofrimento - O sorriso de um cadáver - Agora a vida dá as mãos à Morte - A corrente está ligada, unindo milhares de gerações dos mortos às milhares de gerações dos que ainda estão para vir “.

Voltando ao nosso tema inicial. “O Grito”, como curiosidade, foi roubado em 1994 em plena luz do dia na Noruega, tendo a policia conseguido recuperá-lo após um primeiro resgate de 1 milhão de dólares. Voltou novamente a sê-lo em 2004 juntamente com o quadro "A Madona" . Apenas passados dois anos os quadros foram recuperados, mas com danos físicos consideráveis.

A versão vendida no leilão de Maio era no entanto de Petter Olsen, cujo pai foi amigo e vizinho de Munch. Segundo testemunhas no leilão «Sete candidatos lutaram por mais de 12 minutos antes de o martelo descer e estabelecer o novo recorde mundial».

Em 1944 Edvard Munch morre e doa a sua propriedade à cidade de Oslo, onde está instalado o “ Munch-Museum” criado para celebrar o centenário do seu nascimento. Passados 68, anos a consagração mundial indiscutível de Edvard Munch tem lugar em Nova Iorque, assim como a sua oficial imortalidade. A possível resposta ao facto de esta pintura ser tão especial é dada sob o som de um martelar seco, preciso, e sentenciada com uma palavra ecoando sobre a sala apinhada “ Vendido! ”.

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© Edvard Munch.

«Na realidade a minha arte é uma confissão feita da minha própria e livre vontade, uma tentativa de tornar clara a minha própria noção da Vida…no fundo é uma espécie de egoísmo, mas não desistirei de ter esperança de que, com a sua intervenção, eu possa ser capaz de ajudar outros a atingir a sua própria clareza .» Edvard Munch

 

Ana Filipa Carvalho Estudante de Belas-Artes apaixonada por todas as formas de arte mas com um fraquinho especial por música. Saiba como fazer parte da obvious.

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joão santos

Tecer algum comentário psico-filosófico sobre essa obra é totalmente desnecessário, pois tudo, absolutamente tudo já foi dito e redito,basta aos interessados lerem.
Quanto à parte artística propriamente dita podemos dizer com absoluta segurança que é uma obra esteticamente feia, nos causa um grande desconforto emocional observa-la, e a técnica pictórica usada pelo autor é primária, ensinada a alunos do primeiro ano em Belas Artes.
Quanto ao valor econômico cumpre dizer que encontramos dentre os bilionários deste mundo alguns estúpidos que gastam fortunas em coisas medíocres, enquanto há maravilhas artísticas desvalorizadas, quando não inteiramente desconhecidas.

joão santos

O curioso a respeito dessa obra é que ela foi produzida há 119 anos.
Por que só agora ela é elevada a esse patamar de preciosidade artística única a ponto de ser a mais cara obra negociada na história?
Seria porque a humanidade estava muito aquém do que o Munch produziu e ninguém conseguia ver algo tão estonteantemente maravilhoso? Foram necessários mais de cem anos de evolução no conhecimento da arte?
Ou seria porque a humanidade artisticamente falando está regredindo e agora chegou a 1893?
Mais um pouco e chegaremos às pinturas das cavernas de Lascaux?
Aliás e por falar nelas, comparando os desenhos nela encontrados com os desenhos das outras cavernas existentes no mundo, há uma distância enorme na qualidade dos desenhos que chega a causar suspeita da veracidade deles, ou não ?

joão santos

A razão de ser de uma obra de arte é exaltar a beleza.
Como o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus e como as obras DEle são todas maravilhosas, o ser humano como um pequeno deus se espelha no Seu Criador e procura imita-LO produzindo coisas belas e outras belíssimas, há fartos exemplos disso na cultura mundial em todos os países do mundo.
Assim como observar um beija-flôr flutuando no ar e suas cores metálicas refulgindo no ar nos dá um imenso prazer estético ( obra divina ), o homem imita Deus e a exemplo de Paul Bocuse cria maravilhas culinárias, tanto na aparência quanto no sabor, nos dando um enorme prazer.
É revoltante a exaltação feita ao Grito do Munch.
Qual o prazer que dá ficar sentado numa poltrona, tomando um vinho, fumando um cachimbo, e observando o Grito?
Aí então alguém vai se revoltar e dizer: Essa obra é um protesto!
Aí respondo: obra de arte não existe para protestar, quem pensa assim é um idiota, imbecil, um quadrúpede ignorante que não entende porcaria nenhuma de arte.
Se quer protestar saia pelado de bicicleta pelas ruas de Paris que é mais eficaz. Aliás, está na moda.

Íris Santos

João Santos, parei de ler a partir do momento em que disseste "a razão de ser de uma obra de arte é exaltar a beleza."
Até tinhas os teus motivos, mas a partir do momento que disseste isso, perdeste a razão toda. Precisas de estudar um bocadinho a estética da arte.

Paul Vonnegut

O mais interessante no protesto de João - aparentemente um expert em Belas Artes, desde que realizadas para agradá-lo - é que ele optou por desnudá-lo aqui, em detrimento das pedaladas nas ruas de Paris.

Antonio

[Acho] complicado quando, seja quem for, a qualquer tempo, afirmam que toda a verdade sobre algo já foi dita, encontrada, esteja esta coisa inserida em qualquer uma das ciências - principalmente nas artes, quaisquer que sejam, pois por mais que já tenha sido estudada e revirada, sempre terá lá seus mistérios ou alguém poderá afirmar com total certeza o que passara na mente do artista quando da criação da obra?

Magali Siriani

A OBRA É LINDA, TRADUZ, UM SOFRIMENTO INTENSO QUE MUITOS SENTEM, MAS, POUCOS SÃO CAPAZES DE EXPRIMIR....

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