Livros, átomos e bits

O Caetano sabe do que fala quando diz que os livros são objectos transcendentes que podemos amar de um amor táctil. Quase tudo já foi dito sobre o amor táctil aos livros, a textura do papel, o cheiro da tinta, o relevo da capa, a solidez nas nossas mãos, a “coisez” dos livros. Por isso esse texto é mais sobre o lado transcendente.



digital, ebook, eletronico, kindle, livro, luis, romance, soares © Luís Soares.

Um artigo de Winston Manrique Sabogal no El País de 15 de Março falava em "tempestade perfeita" e "mudança de paradigma” e é mesmo disso que se trata. Por muito que nos irrite, incomode, sacuda nas nossas paixões e modos de vida, vale a pena olhar para o assunto de frente.

O meu livro mais recente, "Virá a morte e terá os teus olhos" (cujo título é um verso de Cesare Pavese) não teve edição em papel, mas apenas em e-book, para Kindle e em formato ePub (Apple iPad/iBooks, Nook, Sony Reader, Kobo, e a maior parte das apps de e-leitura, incluindo Stanza, Aldiko, Adobe Digital Editions).

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Como se edita um e-book? Como se compra um e-book? Como se lê um e-book? Como se sobrevive às saudades da textura e cheiro do papel?

Comecemos pelo fim: não se sobrevive. Mas também não se sobrevive a ver um filme numa sala de cinema escura, a ouvir música ao vivo ou em vinil, a ler notícias no papel de jornal. O que nunca me impediu de ver filmes na televisão, ouvir música em CD ou MP3, ler notícias na Internet. Escolher um novo meio não implica esquecer os antigos. A mesma coisa serve para os livros. Tenho um Kindle, mas já li muito em outros ecrãs, no computador, no telemóvel. O que não me impede de ser ainda um fetichista do livro em papel.

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Uma das minhas paixões é o livro, o objeto livro, impresso com tinta em papel, encadernado, colado, cosido. Não vai deixar de ser. Acho que em todos os livros que escrevi, num momento ou noutro aparece essa paixão. Outra das minhas paixões são as histórias, de uma, vinte, duzentas, mil páginas. Ando a ler o "Parallel Stories" do escritor húngaro Péter Nádas que, na edição americana em capa dura tem 1152 páginas. E é aí que entra o lado transcendente.

Não é melhor ou pior do que se a lesse em papel, a história não muda, são as mesmas as letras, as palavras, as personagens, a história. É mais prático, sim, menos interessante fisicamente de vários pontos de vista do que lê-lo em papel, mas definitivamente mais leve. Escolhi o Kindle que me serve apenas para ler em vez de, por exemplo, o iPad, que serve para quase tudo, porque ler exige concentração e não distração. E para distrações já tenho motivos e dispositivos a mais. Além de ser muito mais barato, claro.

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Além dos dispositivos, há aplicações para ler livros em todos eles. O ecossistema da Amazon sempre me pareceu mais amigável, fácil de usar, sincronizável nas várias plataformas e tem, para já, a minha fidelidade. Além do mais, é mais amigo dos autores.

Editar um e-book é complicado. O mercado ainda é uma selva e os grandes operadores como a Amazon ou Apple tendem a privilegiar editoras já existentes e agregadores em vez de autores. A Amazon criou um processo mais fácil. Editar diretamente na iBookstore da Apple é kafkiano, é preferível escolher um agregador. Usei o Smashwords, que é bastante explícito e fácil de usar. Na Amazon, o Kindle Direct Publishing é melhor do que qualquer agregador e o processo é relativamente rápido. Em 48 horas, o livro estava publicado.

Faz falta o trabalho da editora, não se pense que não. Já atualizei os meus livros nas respetivas lojas online mais do que uma vez. Nada de fundo, apenas para corrigir gralhas e desacertos com o acordo ortográfico. Em papel isso teria sido impossível a não ser com nova edição. A capa foi eu que fiz a partir de uma fotografia minha.

Cenas dos próximos capítulos? É esperar para ver.

Ana Gomes

é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz.
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