Nadir Afonso - Uma vida após o círculo vermelho

Nadir Afonso pintou pela primeira vez aos 4 anos: fez um círculo vermelho na parede da sua sala, tão perfeito que ninguém ousou repreende-lo.


abstrata, afonso, arquitetura, geometria, harmonia, matematica, nadir, pintura © Nadir Afonso, "Immeubles de Patin".

Pintor por certeza e arquiteto por engano, Nadir Afonso (1920 - 2013, Portugal) foi dono de um estilo artístico que at~e hoje evolui - todavia, a abstração foi o gênero que melhor acolheu sua expressividade. Nela, aplicou toda a subjetividade que os padrões arquitetônicos não puderam lhe oferecer.

Nadir pareceu sempre ter certeza da sua sina: pintar. Talvez, aquele perfeito círculo vermelho na parede fosse apenas um prelúdio, um marco inaugural, porém a obra e vida o colocariam em pleno encontro com aquele mesmo desenho de sua infância.

Porém, antes deste reencontro, Nadir explorou o mundo ao seu redor e a si próprio. Aos 14 anos, adorava retratar as paisagens que avistava em Portugal, rios, campos, uma pintura completamente naturalista em principiada maturação.

abstrata, afonso, arquitetura, geometria, harmonia, matematica, nadir, pintura © Nadir Afonso, "Rio Cávado".

abstrata, afonso, arquitetura, geometria, harmonia, matematica, nadir, pintura © Nadir Afonso, "Gaia".

Mais tarde, buscou a Escola Superior de Belas-Artes do Porto com o intuito de tornar-se pintor, mas um evento vulgar direcionou-o a outro caminho correlativo e, como mais tarde descobriria, tragicamente diferente. No momento em que Nadir Afonso se matriculava, o funcionário que o atendeu viu qual o curso pretendido e, bem-intencionado, sugeriu que aproveitasse o seu gosto pelos desenhos através da arquitetura, área que julgava ter mais futuro profissional. Assim, Nadir Afonsou diplomou-se como arquiteto sem nunca abandonar a pintura.

Após trabalhar no Porto como arquiteto, viajou até Paris, em 1946, e estudou pintura na École des Beaux-Arts. Por intermédio do pintor brasileiro Candido Portinari, obteve uma bolsa de estudos do governo francês. Ao mesmo tempo, trabalhava como arquiteto no ateliê de Le Corbusier. Exercendo a profissão de que ainda não se cansara, de 1952 a 1954, trabalhou no Brasil juntamente com Oscar Niemeyer.

abstrata, afonso, arquitetura, geometria, harmonia, matematica, nadir, pintura © Nadir Afonso, "Demogordon".

abstrata, afonso, arquitetura, geometria, harmonia, matematica, nadir, pintura © Nadir Afonso, "Composição Irisada".

Finalmente, em 1965, Nadir Afonso abandonou definitivamente a arquitetura; consciente da sua inadaptação, isolou-se e fixou o rumo da vida à criação da sua obra artística. Esta obra, na percepção de Nadir Afonso, consistia em reproduzir a lógica arquitetônica visual com o mínimo de meios possíveis, enfatizando brutalmente a sua essência, uma captação cognitiva por meios lineares e formas abstratas.

O pintor defendia que o artista plástico apenas justapõe sua lei em um segundo plano. Era isso que ele fazia. Através de uma pintura tridimensional, explorava a profundidade, os relevos sobressalientes e principalmente os elementos matemáticos que poderiam invocar as sensações harmônicas que a paisagem real sugeria.

abstrata, afonso, arquitetura, geometria, harmonia, matematica, nadir, pintura © Nadir Afonso, "Sem título".

abstrata, afonso, arquitetura, geometria, harmonia, matematica, nadir, pintura © Nadir Afonso, "Composição Geométrica".

Para tanto, povoou sua arte com figuras geométricas, tais como retângulos, triângulos e principalmente o círculo, justamente pela sua exatidão, pelo fato de a linha perfeita encontrar-se em curva infinita, impossibilitando a percepção do início ou fim. Nadir acredita que estas figuras manifestam em nosso espírito um prodigioso sentimento de exatidão e harmonia. Foi neste ponto que ele se reencontrou com sua obra, bem como com a criança que pintou um círculo vermelho na parede.

Meticuloso e detalhista, Nadir Afonso gostava de esboçar suas ideias em pequenos pedaços de papel. Depois, as que mais lhe agradam ganham amplitude em uma folha maior, sofrendo as alterações que ele julga apropriadas pela mudança de área e, finalmente, em último processo de triagem criativa, as remanescentes vão para as grandes telas, onde sofrerão outras mudanças, já que sua área novamente foi expandida.

abstrata, afonso, arquitetura, geometria, harmonia, matematica, nadir, pintura © Nadir Afonso, "Le Grand Canal".

abstrata, afonso, arquitetura, geometria, harmonia, matematica, nadir, pintura © Nadir Afonso, "Chicago".

As cores também representam muito para este processo artístico de Nadir, que tanto se parece com uma composição matemática. Ele explana que existe uma tênue harmonia visual que facilmente pode ser quebrada com o uso da cor errada, portanto, antes de cada pincelada, reflete sobre a impressão que será causada por determinada cor.

Esta vontade de representação matemática e sensorial por imagens lineares e abstratas, este processo de desconstrução visual pela busca da essência plástica da arte é o mais fascinante de Nadir Afonso, um pintor que foi capaz de mesclar a realidade visual com elementos oníricos, tudo dentro da rigidez matemática que um arquiteto, mesmo que por engano, há de procurar.

"A obra de arte não é um jogo de significações no objeto, é um jogo de leis nos espaços" - diz-nos Nadir Afonso.

abstrata, afonso, arquitetura, geometria, harmonia, matematica, nadir, pintura © Nadir Afonso, "A Cidade Longinqua".

abstrata, afonso, arquitetura, geometria, harmonia, matematica, nadir, pintura © Nadir Afonso, "Apolo".


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