Os Irmãos Campana e a reinvenção do design

Um arquiteto e um advogado do interior do Brasil se tornaram os designers brasileiros mais aclamados da atualidade e elevaram mobiliários ao status de obra de arte. Fernando e Humberto são os Irmãos Campana.



01_irmaos_campana_cadeira_gangorra_01.jpg © Irmãos Capana, Cadeira Gangorra.

Quando pouco se falava em sustentabilidade, Fernando e Humberto, então arquiteto e advogado respectivamente, a conjugaram com um espírito inovador e inconformista e se lançaram no mundo do design criando em 1989 o Estúdio Campana, cuja especialidade era mobiliário. Hoje são os designers brasileiros de maior destaque na atualidade. Seu trabalho não se restringe mais a móveis (a variedade inclui o desenho de sandálias para uma famosa marca) e, desde sua união, os Irmãos Campana mantêm-se como vanguarda do design no Brasil e no mundo.

O que começou como um trabalho de confecção de pequenos objetos de fibras naturais na década de 1980 evoluiu para um processo que envolve criação artística e desenho industrial. As obras dos Irmãos recorrem à reutilização de materiais como plástico bolha, cordas, bonecos de pelúcia, preenchidos de significados ligados à cultura brasileira (como cor e referências folclóricas). Daqui resulta um trabalho de re-significação de objetos utilitários. Cadeiras se tornam peças exclusivas e dignas de exposição artística.

De fato, sua primeira exposição, “Desconfortáveis”, aconteceu em 1989 em São Paulo e apresentou sofás e cadeiras feitos de chapas de ferro, gerando em um primeiro olhar a impressão de serem realmente desconfortáveis. Estava dado o passo para que o trabalho dos Irmãos Campana fosse reconhecido como intrigante e era apenas a primeira mostra de que nas obras do Estúdio a relação observador-objeto seria realmente não convencional. Apesar de inovadora, a exposição não fez o esperado sucesso, que só foi obtido nove anos mais tarde com uma exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa), que os alçou ao sucesso internacional.

05_irmaos_campana_exposicao_desconfortaveis_06.jpg © Irmãos Capana, Desconfortáveis.

Esteve presente nesta exposição a icônica Poltrona Vermelha (1993-1998), feita a partir de um rolo de corda (comprado em uma feira, como relatam os irmãos) enrolado a uma estrutura metálica. Esta peça encantou Massimo Morozzi, designer e dono da marca italiana Edra, que passou a fabricá-la a partir de então. O trabalho de confecção da cadeira é tão singular que os Campana filmaram a maneira como a corda deveria ser enrolada à estrutura e enviaram a filmagem para a confecção na Itália. A Poltrona, juntamente com a Cadeira Cone (1997) e a Mesa Inflável (1995), se tornaram parte do acervo permanente do MoMa.

02_irmaos_campana_02.jpg © Irmãos Capana, Cadeira Jenette e Poltrona Vermelha.

03_irmaos_campana_03.jpg © Irmãos Capana, Poltrona Banquete.

Na década de 1990, o design parecia caminhar para a super-industrialização. Quanto mais high-tech melhor - porém, com os avanços tecnológicos se dando cada vez mais rápido, o que era high em um mês, era low no seguinte, Para obter sucesso era preciso diferenciar-se e é a partir disso que a derrocada e posteriormente perenidade do sucesso de Fernando e Humberto se tornam compreensíveis. Os Irmãos Campana se arriscaram e conseguiram estabelecer uma sólida ligação entre tecnologia e produção artesanal. Suas peças agregam técnica e arte em um trabalho extremamente experimental.

04_irmaos_campana_04.jpg © Irmãos Capana, Poltrona Inflável.

Os Irmãos retiram elementos de seu contexto natural instigando o observador, estimulam a relação que as pessoas têm com os objetos, tiram-nas da sua zona de conforto e as convidam a experimentá-los. A cadeira Corallo (2003), de aço inoxidável moldado manualmente, parece desafiar a gravidade e convida quem observa imediatamente a uma reflexão: será que ela aguenta? E aguenta. Os designers definem este trabalho como um “rabisco em 3D” e acrescentam, “Nosso trabalho é testar os limites dos materiais para ver o que proporcionam à estética e ao conforto”. O juízo de bonito ou feio é apenas um detalhe, a verdade é que não se fica indiferente frente à obra dos irmãos.

Ao mesmo tempo que apresentam trabalhos de intensa experimentação e tecnologia, seu trabalho se afasta da produção em série que caracteriza trabalhos de ponta, ao uni-lo à produção artesanal. Cada peça adquire caráter único e por isso muitas vezes ganha status de obra de arte. Os Campana rompem a fronteira existente entre arte e design.

A presença da cor local é outra constante de seu trabalho. Elementos da identidade brasileira sempre permeiam o trabalho dos irmãos, como na cadeira Favela (1991), inspiradas nas favelas de São Paulo, construída através da reutilização de sarrafos de madeiras, ou na cadeira Multidão (2002), confeccionada com bonecas de pano nordestinas que retratam a migração do Nordeste para o Sudeste do Brasil. Seja na escolha da matéria prima, no uso de cores vibrantes ou na reutilização de objetos tradicionais (como as bonecas nordestinas), o trabalho de Humberto e Fernando transpira brasilidade, alçando elementos do cotidiano nacional à categoria de objetos de design.

Convencionou-se dizer que o trabalho que realizam é uma reinvenção da matéria e é o que parece ser: os Irmãos dão novo valor a objetos cotidianos, corda vira cadeira, bambu vira luminária. Elementos quase antagônicos coexistem em sua obra, dando-lhe um caráter único e controverso, conjugando arte e tecnologia, utilitários e objetos de design, local e global, o chic e o kitsch. “Design não é glamour, design é chão de fábrica” sintetiza Humberto. Os Irmãos Campana são vanguarda e se perpetuam assim porque fazem design transformando o ordinário em extraordinário.

05_irmaos_campana_05.jpg © Irmãos Capana, Cadeira Papelão.

bianca vale

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