As horas: a ausência da vida no cotidiano trivial

O que não é frio, nem quente, o que tanto faz como tanto fez, não sabe ser nem estar, nem convence, nem inspira. Esvazia-se na própria apatia. Infelizmente, tudo o que é habitual tende a ser jogado para o limbo da insignificância. E por lá jaz, anestésico e ausente. É como se tudo fosse programado: os momentos, as tarefas, os encontros, os sentimentos, as palavras. Com o tempo, deixamos que percam o valor. Com o tempo, tudo o que nos resta são as horas.



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Qual o sentido da vida? Todos nós já perguntamos isso. Definir o que é vida e qual seu sentido pode ser muito relativo, visto que tal resposta depende de vários fatores. Mas três personagens (as quais fazem parte do grupo de personagens mais interessantes do cinema, em minha opinião) possuem um mesmo ponto de vista em relação ao o que é, ou deveria ser, a vida. Deveria ser tudo o que não é pressuposto, tudo o que não encerra o instinto, tudo o que não é fixo nem duradouro. Deveria ser a pluralidade, um universo caótico de possibilidades, a vida.

O filme “As Horas” ("The Hours", 2002), de Stephen Daldry – baseado no livro homônimo de Michael Cunningham, de 1998, com o qual o autor levou o prêmio Pulitzer para ficção – apresenta três histórias interligadas por um conflito em comum. O drama literário foi construído a partir dos diários da escritora britânica Virginia Woolf, entre os anos de 1920 e 1940, e acrescenta à particular história da escritora mais outras duas, com essas mesmas questões existenciais, porém, cada qual em tempos diferentes.

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Observamos uma Virginia que tenta resgatar as horas do seu dia, acrescentando significado a elas. O mesmo se passa com as outras duas protagonistas: Laura Brown e Clarissa Vaughan. Todas vivem sob um paradoxo: reacender o significado das coisas cotidianas, das próprias horas. Elas estão à procura de uma saída, uma rota para escapar do apego com o qual coexistem em relação a um cotidiano que não mais lhe apetece. Estão em fuga da dependência do outro. Estão em fuga do amor do outro. Procuram a liberdade.

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Nos anos 20, Virginia, dona de uma mente já debilitada, enxergava a si mesma como prisioneira de uma realidade que em nada lhe arrancava suspiros. Aquele cotidiano de calmaria, em meio à natureza – o que aparentemente seria uma opção saudável para sua condição – foi o precursor de uma crise que a levou ao suicídio. Obviamente, o silêncio estava em sua alma e não em suas horas. Uma atitude extrema de uma mente perturbada, mas que resume o seu conceito existencial. Para ela, a vida só valia a pena se pudesse ser vivida na totalidade de seu caráter variável e flexível, por entre os caminhos do novo, do improvável, do surpreendente e até mesmo do imprevisível, mesmo que rebentando em solavancos.

Para Laura Brown, que vive já nos anos 50, a vida se limita a servir o outro, seu marido e seu filho. Toda a ação, sentimento ou sonho é contaminado pelo fato de não ser livre para existir por si só. Laura se vê obrigada a acompanhar o tortuoso fluxo das horas, da vida que escorrega pelos seus dedos. Ela se sente presa no tempo e espaço, incapaz de transcender. E por isso percebe as consequências de um cotidiano que rasteja agonizante na sua imutabilidade. Este sentimento a faz questionar o amor que sente por quem chama de família.

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Já a terceira protagonista, Clarissa Vaughan, vive nos tempos atuais e deposita todas as suas expectativas numa relação completamente desgastada e sem futuro. Ela insiste, no entanto, em manter a relação para fugir das próprias horas. Sua rota de fuga é exatamente se ocupar da vida de alguém. Sua existência é, então, cedida para outra pessoa. O que é também característica das outras duas personagens.

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Essas três mulheres vivem em prol de terceiros, de outras causas, de outras horas que não as suas. Seja por medo de enfrentar a própria realidade, seja por incapacidade de viver independente da atenção de outros. Basicamente, podemos enxergá-las como a autora (Virginia), a leitora (Laura) e a personagem (Clarissa), que lutam contra as trivialidades cotidianas, como simples hábitos – os quais, na visão particular de cada uma, têm o poder de esvaziar a vida em todos os seus sentidos. Ora, as três personagens amam a vida, e por isso a vontade de transcender, de serem mais do que eram, de alcançar todas as possibilidades que o espírito suporte. Mas acreditam, sobretudo, na morte. Pois sabem que a vida é apenas valorizada somente e por causa da morte. Sabem que tudo ganha valor quando há o que se perder. “Por que alguém tem que morrer?” – pergunta Leonard, marido de Virginia. “Para o outro valorizar a vida” – responde. Elas querem absorver do dia que corre cada pequena percepção para rebentar na extraordinária sensação de sentir a vida pulsando dentro do peito. Sentir toda a gravidade das coisas dentro de si. Obviamente, são mulheres solitárias por causa da intensidade com a qual encaram a vida, mas também são mulheres frustradas, por terem perdido suas convicções em detrimento das regras da sociedade ou do zelo ao próximo. São mulheres egoístas, e somente atentam ao próximo para fugir delas mesmas, fazendo do outro o seu cristo particular.

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A história de “As Horas” revela-nos que a vida nada mais é do que a ausência das horas, dessas mesmas horas que contamos todos os dias, já anestesiados, assim como as personagens. E revela-nos mais: temos e somos um pouco de cada uma das personagens, nosso desejo de transcender foi ofuscado pela sufocante e temperada zona de conforto, as trivialidades do cotidiano.

Para além de a história ser intrigante e mexer com nossas percepções sobre quem somos e o que queremos, o longa adquire características intensas por causa do competente trabalho de direção de Stephen Daldry. O diretor consegue ser sempre intenso e, ao mesmo tempo, sensível na maneira como arranja toda a estória nos movimentos de câmara. Gosto dele. Como um bom artista do teatro, Daldry atribui toda a teatralidade à estória, causando grande impacto existencial no espectador. Alude, acena, aponta, suspira, inspira. Cria enquanto o peito enche com o fôlego que toma para avançar nas lembranças de todas as suas influências.

Com uma enorme carreira por trás dos palcos do teatro, o diretor é por si só um espetáculo. Por isso, qualquer obra que você vir com o nome dele assinado, não tenha dúvida: há uma grande chance de se surpreender de maneira muito positiva. No cinema sua carreira ainda é curta, porém, nada modesta. Seus principais trabalhos figuram entre os melhores filmes da última década. Dirigiu o drama Billy Elliot, em 2000, arrecadando três indicações ao Oscar. Em 2002 tomou frente de The Hours, indicado em oito categorias e ganhando um Oscar, com um elenco sustentado por Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore e Ed Harris. Já em 2008, fez sucesso com o fabuloso O Leitor (The Reader), com Kate Winslet e Ralph Fiennes, levando um Oscar dentre cinco indicações. Destaque para as trilhas sonoras de seus longas, que incluem nomes como Philip Glass e Nico Muhly.

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rejane borges

gosta das cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros.
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