Get Set Go: O pessimismo nunca foi tão divertido

Em um mundo permeado pela tristeza, negativismo e mesmice musical, às vezes surgem pequenas pérolas, como a banda Get Set Go. E mesmo com a certeza de que o grupo detesta comparações, a melhor maneira de defini-lo é pensar em uma mistura do Inferno e da Divina Comédia de Dante com melodias cativantes e memoráveis.



humor, indie, ironia, pessimismo, tragicomedia © Get Set Go (fotografia de Darren Kim).

O despertador traz o odioso lembrete de que é preciso acordar, isso muito cedo. Você ignora, vira para o lado e volta a dormir. Quando acorda novamente, percebe que está atrasado. Enfrenta um engarrafamento gigantesco que te atrasa mais ainda, mas chega a tempo em seu trabalho para saber que está demitido. Mais tarde, recebe um SMS de sua namorada dizendo que quer terminar com você e te trocar pelo seu melhor amigo. O perfeito pior dia de todos? Mais do que isso: uma força vital de criatividade. Bem-vindos à essência sonora de Get Set Go.

A banda formada em 2003 em Los Angeles não se diferenciaria de qualquer outra do circuito independente surgida nos últimos anos, exceto por um detalhe: suas melodias são cativantes e alegres, praticamente de natureza pop. Em contrapartida, a banda traz em suas letras o que há de mais pessimista, sarcástico e tragicômico nesta grande bola azul chamada Terra: desilusões de amor, depressão suicida, a irritante estupidez e ignorância das pessoas, tudo isso num ciclo interminável de desespero e sofrimento. Como resultado, mais do que chocar ou indignar, seu som traz uma prova cabal de que ser pessimista nunca antes tinha sido tão divertido.

Os méritos do grupo, porém, não param aí. Liderado pelo guitarrista e vocalista Mike TV, o quarteto pode se orgulhar de uma grande virtuosidade sonora. Tudo graças à bateria dinâmica de Dave Palamaro, as linhas de baixo agradáveis de Colin Schlitt e a notável beleza técnica do violino de Eric Summer, cuja presença resulta na fantástica química do grupo. Mas se você compará-los com qualquer banda com instrumentos não convencionais, eles provavelmente vão dedicar para você músicas como I Hate Everyone ou You’ll Look Beautiful As You Burn.

Aliás, não se pode falar sobre Get Set Go sem citar a habilidade musical de seus álbuns. So You’ve Ruined Your Life, de 2003, mostra um som pesado com pequenos traços técnicos, mas já traz as marcas do grupo, como a pérola Lonely World. Já Ordinary World, de 2006, oferece um som irresistível em seu espírito derrotista, percebido em canções como Suicide. Selling Out & Going Home, de 2007, deixa de lado o negativismo divertido e o troca por reflexões incisivas como em 5th & Spring. O álbum Sunshine, Joy e Happiness, de 2008, renova a alegria depressiva da banda, como na cômica Please Destroy Me. Por fim, Fury of a Lonely Heart, de 2011, um trabalho mais maduro e visceral, presenteia o mundo com grandes canções, como Love Poem.

Mas, afinal, porque tecer tantos elogios para uma banda tão cinza e rabugenta, que parece não se importar com nada nem com ninguém? Por todos os motivos citados acima e ainda mais dois. Existem, ainda que quase imperceptíveis, outros sentimentos no quarteto além dos ruins. Caso contrário não produziriam algumas músicas emotivas e verdadeiras, como a bela Won’t Let Her Go e a comovente Stone of Suffering. Além disso, o grupo talvez seja o único capaz de transformar letras angustiadas e deprimentes em sublimes baladas acústicas. O exemplo disto está em Little Bird Lost e This Song is Not About You. E se isso não for suficiente para você gostar do grupo, tudo bem. Esse pessimismo tragicômico já levou a banda a um pequeno lugar ao sol, mesmo, sendo várias de suas músicas parte da trilha sonora do seriado Grey’s Anatomy.

Se você sofre interminavelmente, tem desilusões de todo o tipo e encontra todos os dias pelo menos um motivo para querer morrer, não se preocupe, Get Set Go te entende. Se esse não é seu caso, ótimo. Mas lembre-se, nunca subestime o organismo criativo dessa banda por dois motivos: você nunca sabe quando terá o pior dia de todos e só a música desse grupo poderá salvá-lo. Além disso, nunca foi aconselhável ser indiferente a uma bomba-relógio que pode explodir a qualquer momento e tem um belo violino como fundo musical, certo?

jeferson scholz

é fascinado pela cultura pop em todas as suas esferas de manifestação, por música, cinema e nerdices em geral.
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