Nicolas Roeg e o Inverno de Sangue em Veneza

O modo como um cineasta se relaciona com o conteúdo visual de seu filme é de extrema importância. O diretor britânico Nicolas Roeg consegue transcender os limites imagéticos de seus filmes, por ser também diretor de fotografia. Com tal talento e capacidade, ele é responsável por um dos filmes mais interessantes da história: "Inverno de Sangue em Veneza".



filme, Nicolas, Roeg, suspense, terror, thriller © Nicolas Roeg, (Wikicommons, Petr Novák).

A relação indissociável entre o cinema e a fotografia é incontestável. Tanto um quanto o outro se apropriam das técnicas, estéticas e linguagens que apresentam, usam os mesmos enquadramentos, planos e regras de composição de imagem. E mesmo que o métier de fotógrafo seja diferente do de cineasta, é de admirar que tão poucos diretores consigam também coordenar os rumos dos textos visuais de seus filmes. Sendo assim, os méritos profissionais de Nicolas Roeg merecem atenção.

O cineasta britânico nascido em 1928 iniciou sua carreira pela fotografia de filmes de nomes como François Truffaut, Roger Corman ou o ator Vincent Price. Sua paixão pela sétima arte sempre foi tal que, após uma carreira bem sucedida auxiliando nos filmes dos outros, lança em 1971 seu próprio trabalho, Walkabout. A obra, de grande teor simbólico, conta a história de dois irmãos que têm de sobreviver no deserto após o enlouquecimento de seu pai, que se mata. Foi a estréia de Roeg na direção. O longa tem um intenso teor visual, enigmático, está cheio de eventos que se costuram nos minutos finais, e antecedeu a maior obra-prima do diretor e uma das maiores do cinema: Inverno de Sangue em Veneza.

Conhecido internacionalmente como Don’t Look Now, o thriller dramático de 1973 gira em torno de um casal cuja filha morre logo no início da trama. Para superar a perda, deixam seu outro filho em um colégio interno e partem para Veneza, onde o marido aceita o trabalho de restaurar uma igreja. Lá chegando, encontram duas estranhas irmãs, e uma delas afirma se comunicar com os mortos e conversar com a filha deles. A partir de então, uma série de incidentes e mortes fazem o homem correr perigos reais, tanto físicos quanto psicológicos. Uma presença está envolvida nos crimes, usando a mesma capa de chuva vermelha que a menina quando morreu. O vermelho semiótico em Inverno de Sangue em Veneza, por sinal, é capaz de personificar o invisível. É como se a criança estivesse lá, tentando salvar seus pais do perigo.

filme, Nicolas, Roeg, suspense, terror, thriller © Nicolas Roeg, (Wikicommons, Crunch Art and Music Festival).

Calcular a contribuição desta obra para o cinema não é uma tarefa fácil, considerando toda a sua dimensão. A direção impecável de Roeg, a engenhosa construção de fatos até o surpreendente final do filme e a magnitude imagética da obra deram origem a alguns dos clichês mais icônicos do cinema, como a sequência final que traz o famoso susto de alguém que está de costas e vira abruptamente para atacar. Além disso, seu trabalho traz a inserção de um suspense visceral e preciso que põe o espectador em total sintonia com a história, o que revitalizou e revolucionou o gênero. Provavelmente, o legado mais famoso deste longa-metragem está em Alice, Sweet Alice (1976), um slasher de uma assassina que aterroriza uma pequena comunidade americana usando uma capa de chuva amarela e uma máscara.

Os filmes seguintes do diretor também trouxeram seu inconfundível estilo, embora não tenham causado a mesma revolução que o seu segundo trabalho. As narrativas visuais não lineares, pinceladas por meio de um roteiro arquitetado ao extremo, que exige total atenção e comprometimento de quem assiste, não agradam ao consumidor do cinema comercial. Mesmo assim, mostram a genialidade do cineasta, que usa este meio em uma rara combinação de arte e transmissão de mensagem. O resultado final de sua obra sempre traz à tona o imprevisível inserido num contexto fantástico, dotado de reflexões filosóficas e psicológicas.

Hoje, Don’t Look Now não é um filme conhecido do grande público, mas certamente inspirou muitos que são. O longa ocupa o 22º lugar na lista dos momentos mais assustadores do cinema, feita pela "Bravo", foi indicado a diversos prêmios ao longo dos anos em prestigiados festivais e é uma referência obrigatória para cinéfilos e fazedores de cinema. Nicolas Roeg, seu idealizador, mostra com essa obra porque, além de um cineasta, também é um artista, sendo um dos poucos bem sucedidos tanto na direção quanto na fotografia de seus filmes.

jeferson scholz

é fascinado pela cultura pop em todas as suas esferas de manifestação, por música, cinema e nerdices em geral.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
x3
 
Site Meter