South Park: Insensato, ofensivo e inacreditavelmente real

Insultos, provocações e análises ácidas e aparentemente sem sentido sobre o planeta, esta é a fórmula básica do seriado South Park. Mas mesmo que tudo isso soe ridículo, a animação é muito mais relevante do que pode parecer. Seu conteúdo está, de um jeito ou de outro, ligado a importantes aspectos da sociedade - desde seu comportamento à forma como pensa.



animação, incorrecto, park, politicamente, sarcasmo, série, seriado, south © South Park (Wikicommons, Joel Ormsby).

Quase todas as pessoas já assistiram ou ouviram falar de desenhos adultos, não? Mas por via das dúvidas (e para não perder em conteúdo e credibilidade para o Google) esses são aqueles desenhos que adoram criticar o mundo e a vida moderna. Por exemplo, Os Simpsons, de Matt Groening, e seus famosos subgêneros que incluem Uma Família da Pesada e American Dad (plágios, segundo os mais conservadores). Ah, e como esquecer aquelas outras séries mais alternativas feitas para agradar o público Cult, como Ugly Americans e Frango Robô? Mas considerando esse mar de entretenimento não convencional, vale destacar uma animação cuja gama de elementos, ultrapassando os limites do bom senso, torna-se única: South Park.

Mas para falar do sitcom criado por Trey Parker e Matt Stone, é preciso deixar de lado a moral, os bons costumes e a noção de realidade. Caso contrário, como assimilar a convivência quase harmônica entre um garoto sensível e amigo, outro judeu e moralista, outro obeso, racista e manipulador e outro que é um higlhlander pobre? Assim são os protagonistas Stan Marsh, Kyle Broflovski, Eric Cartman e Kenny McCormik, que junto com uma série de personagens politicamente incorretos vivem todo o tipo de situação que se opõe contra a sensatez. Eis a lógica da pequena cidade americana título do seriado, localizada no estado do Colorado.

Surrealismo e metáforas aqui são muito pouco. Os quatro meninos se envolvem, das maneiras mais surreais e absurdas, com os maiores tabus do mundo: racismo, religião, sexo, violência, política, desvirtuamento de valores e tudo o que estiver relacionado. Eles convivem com pais ignorantes, Jesus, Satã, um professor homossexual, um chefe de cozinha negro e ninfomaníaco que é quem lhes explica sobre certo e errado e tudo isso em circunstâncias normais. Em algum episódio menos convencional, não se surpreenda em ver celebridades ridicularizadas ao extremo ou até a autoridade do papa e da igreja católica transformada em uma grande piada.

animação, incorrecto, park, politicamente, sarcasmo, série, seriado, south © South Park (Wikicommons, Anders Steen NIlsen).

Mas não é só por isso que South Park oferece o melhor do pior. Sua abertura, cuja música foi composta pelo baixista Les Claypool, avisa que os personagens são fictícios, as imitações que aparecem são mal feitas e devido ao seu conteúdo o seriado não deve ser assistido por ninguém. Quer algo mais acidamente crítico que isso? A animação da série é feita com cartolina, os palavrões e a escatologia são abundantes, Saddam Hussein mantém um tórrido relacionamento amoroso com o demônio. Homens negros e ricos são presos e discriminados, as nacionalidades que aparecem carregam os estereótipos de seus países, as pessoas parecem negligentes e burras...

E com tudo isso, a série consegue um de seus maiores trunfos e um dos principais segredos de seu sucesso: o constante questionamento ao espectador de até que ponto seu conteúdo é uma mera paródia da r,ealidade. Usar os fatos que acontecem mesmo na sociedade para distorcê-los depois, além de uma grande sacada da animação, é uma forma de expor a visão crítica não só de seus autores, mas de grande parte das pessoas. Para comprovar isso, basta analisar como ela retrata a eleição de Barak Obama e a reação dos partidários de McCain, o aumento de desabrigados nas ruas e os temas relacionados ao sobrenatural e extraordinário.

Para coroar o sucesso de South Park como ícone da cultura pop, o sitcom já recebeu vários prêmios, como um lugar na lista de 100 Melhores Programas de Televisão de Todos os Tempos da revista Time e a terceira posição na lista dos 100 maiores desenhos animados do Channel 4. Mesmo ofensivo, ultrajante e “incoerente”, o programa, hoje com 15 anos, é um dos mais interessantes desenhos adultos já produzidos. Justamente por não ter a obrigação de agradar, torna-se expert em criticar, com tiradas sarcásticas e criativas, basicamente a tudo e a todos.

Aberturas de South Park (temporada 1 a 15).

jeferson scholz

é fascinado pela cultura pop em todas as suas esferas de manifestação, por música, cinema e nerdices em geral.
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