Pussy Riot v. Vladimir Putin: uma luta religiosa?

Maria Aliokhina, 24 anos, Nadezhda Tolokonnikova, 22, e Iekaterina Samutsevich, 29, foram presas depois de terem ocupado a Catedral de Cristo Salvador, em Moscovo, e cantado uma "oração punk".



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As três jovens russas que cantaram uma música anti-Putin numa catedral ortodoxa – a letra suplica à Virgem Maria que afaste Putin do poder – começaram a ser julgadas no dia 30 do mês passado.

Antes da sua detenção, Tolokonnikova era uma estudante de Filosofia, Alekhina estudou jornalismo e escrita criativa e estava envolvida em organizações religiosas de caridade e causas ambientais. Samutsevich, a mais velha dos três, tem uma licenciatura em programação de computadores. Estas jovens são membros de um grupo maior - também apelidado de Pussy Riot - com um programa dito "radical" patrocinado por ideias de esquerda que variam amplamente desde o anti-autoritarismo ao feminismo. As suas ações envolvem flash mobs em locais públicos e concertos com músicas em protesto.

Em janeiro deste ano, o grupo invadiu a Praça Vermelha, um local usado durante a Rússia czarista para anunciar decretos do governo, e executou uma canção intitulada “Putin Chickens Out”. Todos os oito ativistas foram presos por protestos ilegais mas acabaram por ser libertos. O grupo cita figuras como Michel Foucault e Julia Kristeva entre as suas muitas fontes de inspiração, assim como a banda americana de punk-rock Bikini Kill e o movimento “riot grrrl”, dos anos 90. Tolokonnikova e Alekhina são mães de crianças pequenas, com quem não estão desde a sua prisão.

As Pussy Riot, que aparecem sempre mascaradas (a intenção é a de sugerir que qualquer pessoa pode ser uma Pussy Riot), juntaram-se no final de setembro de 2011, logo após o presidente Vladimir Putin anunciar que pretendia candidatar-se a um terceiro mandato. Impulsionadas pelas teorias feministas escolheram um nome destinado a levantar as sobrancelhas e combater noções preconcebidas sobre mulheres e política.

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A Igreja Ortodoxa, acusando-as de blasfémia, pediu que fossem severamente condenadas, pelo que poderão, caso sejam culpadas, passar (imagine-se!) até sete anos na prisão (ainda que a acusação do Ministério Público peça só três). Não é difícil perceber a motivação política (e a mensagem altamente repressiva) subjacente a este julgamento. A banda foi acusada de vandalismo, desordem pública e de "actos de ódio religioso" na catedral mas também na Praça Vermelha onde deram um concerto não autorizado que fez parte de uma manifestação anti-Putin. Na manifestação, à medida que cantavam, as mulheres foram retirando a roupa, acabando em lingerie. A acusação destas mulheres é mais do que um acto de injustiça e de crueldade absurdas, é um sinal de que o Estado russo continua a censurar e reprimir os cidadãos que vê como muito avant-garde. Putin tem dito muitas vezes que a modernização é o objetivo do seu regime, mas a sua política vai descaradamente deslizando em direção a algo flagrantemente anti-moderno (e anti-ocidental) e mesmo medieval.

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Além disso, este caso ilustra uma fusão – muito pouco desejada num regime dito democrático – entre política e religião, traduzida na crescente dependência (vá, “lealdade mútua”) de Putin da Igreja Ortodoxa Russa. As semelhanças entre o líder político e o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa são assustadoramente semelhantes: cada um deles preside a um "reino" fortemente centralizado e extremamente hierarquizado e ambos são intolerantes face a desafios à sua autoridade. A Igreja Ortodoxa Russa é, em geral, profundamente conservadora, com fortes traços xenófobos e declaradamente anti-ocidental. Nos últimos anos, o clero de topo foi segurando as rédeas às suas opiniões de modo a não comprometer o Estado e a sua retórica de modernização. Mas, como o próprio governo começou a reprimir os ativistas anti-governo deixará de haver necessidade de quaisquer rédeas ao conservadorismo social. Bem, os perigos do fundamentalismo religioso são bem conhecidos…

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Mais de 200 figuras russas da cultura e das artes assinaram uma carta manifestando a sua indignação com esta paródia da justiça e mais de 41 mil soldados russos subscreveram a dita carta. Em São Petersburgo, Petr Pavlensky, artista russo, coseu a boca em protesto contra a prisão das ativistas e segurou um cartaz dizendo que "a atuação das Pussy Riot foi uma repetição da ação de Jesus Cristo (Metódio 21:12-13)." A passagem deste cartaz é uma famosa cena em que Jesus expulsa os comerciantes e mercadores da igreja. Madonna recentemente passou em digressão pela Rússia e aproveitou para defender a libertação das Pussy Riot. Claro que uma organização ligada à Igreja Ortodoxa já veio pedir às autoridades para cancelarem os dois concertos da cantora na Rússia, acusando Madonna de interferir com os assuntos internos do país e de tentar influenciar os tribunais. Outros artistas internacionais - como Jarvis Coker, dos Pulp, Alex Kapranos, dos Franz Ferdinand, Johnny Marr, dos Smiths e a cantora folk Corinne Bailey Rae - já se manifestaram contra as acusações "grotescas" feitas a este grupo.

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graça c. moniz

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