
© "Querida, voy a comprar cigarrillos y vuelvo" - Mercador na Argentina.
Se fosse possível voltar no tempo nossa vida seria um inferno, essa é a minha teoria. O ser humano acostuma-se à facilidade de errar e poder consertar, e aí todas as relações estariam acabadas. Só quem acredita que voltar no passado seria algo bom são os produtores e roteiristas menos criativos de Hollywood.
A fórmula é bem conhecida: alguém, por algum motivo, recebe de presente a possibilidade de voltar no tempo e se redimir daqueles erros que o levaram a uma existência miserável ou a perder o grande amor. Pelo viés moralista dos maiores estúdios cinematográficos americanos, depois disso, tudo fica lindo, os erros deixam de existir, o tal personagem retorna ao seu devido lugar com a consciência tranquila e a vida ganha.

© "Querida, voy a comprar cigarrillos y vuelvo" - Ernesto.
Mas os diretores argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat partilham a minha falta de otimismo frente a esta possibilidade. No filme Querida, me voy a comprar cigarrillos y vuelvo um homem medíocre é sempre um homem medíocre.
A história começa no Marrocos, no século III. Um mercador foge ao nosso conhecido ditado e é atingido duas vezes por um raio. Daí em diante, ele se torna imortal e sai pelo mundo propondo tratos a pessoas comuns pelo puro prazer de observar a degradação da humanidade. Num certo dia, ele desembarca de um taxi em Olavarría, uma cidade interiorana da Argentina. O mercador-demônio entra em um bar e escolhe Ernesto como “vítima”.

Ernesto é um senhor de 60 anos que teve uma vida de fracassos e se lamenta o tempo todo. O diabo lhe propõe o seguinte pacto: ele escolhe qualquer momento da vida que gostaria de reviver, mas, deste período em diante, terá de viver 10 anos daquele passado novamente, porém com memória e consciência atuais. Depois disso, voltaria ao tempo presente e ganharia um milhão de dólares. Para aceitar o acordo, bastava dizer a sua esposa a senha “Querida, me voy a comprar cigarrillos y vuelvo”.

© "Querida, voy a comprar cigarrillos y vuelvo" - Ernesto e o Diabo.

© "Querida, voy a comprar cigarrillos y vuelvo" - Ernesto e sua mãe.
Ernesto aceita o trato e volta ao leito de morte de sua mãe para pedir perdão mas, para a decepção dos fãs de autoajuda, ela diz pura e simplesmente: não, eu não te perdoo. Aí começa a se formar a ideia central do filme.
Voltar no tempo não basta para apagar uma vida de escolhas medíocres, é preciso muito mais, e às vezes este muito mais não está ao nosso alcance. Se vendo obrigado a viver 10 anos preso a uma vida sem atrativos, ele tenta enganar ao diabo e comete erros ainda maiores.

© "Querida, voy a comprar cigarrillos y vuelvo" - Ernesto em Guantánamo.
Em uma das hilárias tentativas de fazer a vida valer a pena, Ernesto decide avisar a embaixada americana na Argentina sobre os ataques de 11 de setembro. É claro que ninguém deu a mínima para suas informações: ele não só não conseguiu salvar a vida de ninguém, como foi torturado em Guantánamo. Depois disso, ele ainda se envolve em um processo de plágio da música Imagine de John Lennon e assiste à morte do próprio pai.
O filme tem muitas reviravoltas - é uma daquelas histórias para quem não gosta da mesmice do cinema e não espera por finais felizes. Ou seja, para quem prefere o aqui e agora, seja como for, do que uma volta utópica ao passado.

© "Querida, voy a comprar cigarrillos y vuelvo" - Ernesto plagia John Lennon.

© "Querida, voy a comprar cigarrillos y vuelvo" - Ernesto com maleta de dinheiro.
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