Jim Morrison - O Rei Lagarto

Jim Douglas Morrison tornou-se para muitos um imortal poeta do rock, um talentoso cantor que sucumbiu aos excessos dos finais dos anos 60 ou um entertainment provocador dirão outros. Vocalista da banda The Doors, morreu aos 27 anos em Paris quando fugia da pressão mediática após um julgamento polémico. Considerado membro do fatídico clube dos 27, juntamente com Jimi Hendrix e Janis Joplin, Jim Morrison é um exemplo perfeito para tentarmos compreender os loucos anos 60.



01_Jim_Morrison_1969_Elektra_Records_01.jpg © Jim Morrison, 1969 (Wikicommons, Elektra Records).

I´m the Lizard King, I can do Anything. Desde pequeno Jim Morrison tinha uma paixão por literatura. A sua irmã chegara a confessar que lera na adolescência, de uma assentada, toda a obra de Friedrich Nietzsche. Fascinavam-no os filósofos franceses existencialistas. Devorava obras de Frank Kafka, Charles Baudelaire, Honoré de Balzac e Jack Keroac. No entanto é Nietzsche que o fascinará ao ponto da dicotomia filosófica da Grécia Antiga por ele abordada, Dionísio e Apolíneo, vir a marcar mais tarde vincadamente a estética poética da banda The Doors.

Seu pai, George Morrison, é um almirante da marinha dos EUA, fazendo com que a infância e adolescência de Jim Morrison sejam marcadas pelas frequentes viagens. A que mudará a sua vida será, no entanto, quando se mudou para Los Angeles para frequentar a Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA). É lá que se deixa apaixonar pela obra surrealista de Antonin Artourd que o influenciará nos vários filmes por ele produzidos na universidade, raramente compreendidos pelos seus colegas de turma. Um dos que o apoia artisticamente é Ray Manzarek , seu colega de curso e futuro colega de banda. Após concluir a licenciatura em Cinema na UCLA em Los Angeles em 1965, faltando á cerimónia de graduação, Morrison dorme num telhado de um edifício abandonado perto da praia de Venice. Mergulhado em ácidos e LSD, Jim Morrison escrevia ininterruptamente poemas e canções. Segundo confessara, “ Eu tinha um concerto rock inteiro na minha cabeça”.

Foi tal frase que dirá ao seu amigo Manzarek na edílica cena na praia de Venice, quando se reencontram após uma temporada de ausência de Jim Morrison no deserto. Jim canta Moonlight Drive a medo ao seu amigo Manzarek , que fica atónito perante a beleza poética que a canção encerra. Perante o talento que Jim Morrison evidencia, não hesita e ambos combinam formar uma banda cujo nome vai derivar de um poema de William Black, The Doors of Perception.

02_Doors_Elektra_Records_Joel_Brodsky_02.jpg © The Doors, (Wikicommons, Elektra Records, Joel Brodsky).

Nascem aí os “The Doors”. A sua essência. Manzarek convida dois colegas seus das aulas de meditação, o guitarrista com formação clássica, Bobby Krieger e o baterista com formação em jazz, John Densmore. Em poucos meses, os The Doors já tocam em bares razoáveis. Light My Fire, canção curiosamente escrita por Bobby Krieger num dos primeios ensaios da banda, será um sucesso nacional em pouco tempo. A banda dá nas vistas. É uma banda diferente para diferentes. A ausência de baixo convencional, o teclado circense-sombrio de Ray Manzarek, a clara influência flamenga de Krieger na guitarra e a poesia mística de Morrison tornam-se marcantes. Jim Morrison sobressai. Não é só a sua extrema inteligência e sensibilidade espelhadas na poesia que canta, ou a sua voz grave e profunda. A sua imagem sensual e misteriosa é um apelo á libido mais profunda das jovens de Los Angeles. Torna-se um ídolo em pouco tempo.

Em 1966, os The Doors gravam o seu primeiro álbum com o mesmo nome e as portas da percepção da fama e do sucesso escancaram-se para sempre. Por entre aparições televisivas a concertos que começam a ser teatralizações, os The Doors têm uma ascensão apoteótica. Jim Morrison refugia-se nos ácidos procurando uma transcendência energética com o seu público. Os concertos ao vivo são uma forma de troca de fluidos cósmicos com a audiência…uma simbiose perfeita. Ele rebola no chão, ele desmaia ou simula gemidos sexuais, ele invoca shamans….Tudo com o suporte dos seus companheiros de banda sempre dispostos a ampará-lo em seus devaneios artísticos.

Estamos numa época de contra-cultura e rebelião. De paz, amor e drogas para viagens com o transcendente. De amor á natureza. De hippies. De contestação a uma guerra no Vietnam. De repúdio a uma sociedade de consumo que começava a espalhar-se rapidamente. Como tal, a musica e a poesia do The Doors era uma perfeita resposta contestatária á época em que se vivia. Uma catarse espiritual cujo guru era um Morrison rebelde em palco.

03_James_Douglas_Morrison_Karl_Ludwig_Poggemann_03.jpg © James Douglas Morrison (Wikicommons, Karl Ludwig Poggemann).

Com o sucesso crescente e avassalador, Jim começa a refugiar-se cada vez mais nos ácidos e na bebida. A sua vida pessoal é marcada pela instabilidade entre ele e a sua namorada de sempre Pamela Courson, devido às sucessivas infidelidades de Jim. Conheçe Andy Warhol e mergulha num circulo de amigos com uma forte paixão pelas drogas e pela boémia. Começa a chegar permanentemente atrasado às gravações dos álbuns da banda.

Em palco, o descontrolo é evidente. Jim começa a ser um entertainment enlouquecido pela qual a audiência paga bilhete para ver em detrimento da poesia e da sua música. Há um choque profundo no seu ser quando se começa a aperceber que se tornou apenas numa imagem sensual e comercial em vez da imagem de um poeta inteligente e com algo a dizer.O descalabro acontece quando num concerto em Miami, Jim Morrison é preso e acusado pela polícia de “exposição indecente” alegadamente por ter exibido o seu órgão sexual a uma plateia em delírio. Ninguém afirma ter visto qualquer exposição indecente do cantor, nem se verificaram provas concretas, no entanto Morrison é mesmo levado a tribunal e condenado a prestar trabalhos forçados pagando uma fiança pela liberdade.

Os concertos em várias cidades começam a ser cancelados e Jim Morrison cai em desgraça consigo mesmo. A banda chega a gravar o álbum LA Womam pouco depois, um álbum que seria o último da banda, que incluí a música Riders on The Storm, um dos êxitos mais marcantes dos The Doors.

Jim Morrison e a sua namorada Pamela Courson viajam para Paris no intuito de fugir a toda a pressão em volta do cantor. Jim planeia dedicar mais tempo á poesia e quem sabe mais tarde voltar a compor para os The Doors. Morre inesperadamente com 27 anos no dia 3 de Julho de 1971, ao que tudo indica de overdose. É enterrado no célebre cemitério Pére Lachaise em Paris onde estão sepultados vários artistas mundiais, que Morrison admirava, como Honoré de Balzac e Oscar Wilde. Uma das mais marcantes bandas de sempre acabava assim de maneira trágica.

04_Jim_Morrison_lastFM_Anniesbackin_04.jpg © Jim Morrison, (Anniesbackin).

Passados recentemente 40 anos sobre a sua morte, Jim Morrison é considerado um dos maiores poetas rock da música contemporânea. A sua poesia é apaixonada, sombria e profundamente irónica. Apela ao misticismo, a uma rebelião psicológica com vista á libertação da nossa mente das amarras criadas pelo dia-a-dia. Muitas vezes incompreendido e perfeitamente consciente de como a arte pode ser mal interpretada por uma sociedade ainda com valores castradores e retrógrados, Morrison usou as drogas e a bebida com o escape alienador para a dor? Ou estas substâncias fomentavam a sua criatividade? Ou ambas as hipóteses? Os finais dos anos 60, época de excessos a todos os níveis, acabaram por ter um imenso peso no desenrolar da história de Jim Morrison. Em apenas cinco anos, este ser conheceu a glória e a fama mas também o lado negro do sucesso. Os The Doors gravaram com Jim Morrison seis álbuns durante esse período (The Doors, Strange Days, The Soft Parade, Waiting for The Sun, Morrison Hotel e LA Woman). Provavelmente uma ascensão meteórica que Jim não estaria á espera e\não soube lidar da melhor forma. O seu legado consta para além da música, os seus livros de poesia. Como ele próprio se definiu, durante o seu 27º aniversário, bebendo sem parar, gravando a sua poesia:

“ Vejo-me a mim próprio como um ser humano inteligente e sensível mas com um coração de palhaço que me obriga a estragar tudo nos momentos mais importantes”.

Durante seis anos ele pôde realmente tudo. Ele foi o Rei Lagarto. He could do anything. He was the Lizard King.

Ana Filipa Carvalho

Estudante de Belas-Artes apaixonada por todas as formas de arte mas com um fraquinho especial por música.
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