Os Falsificadores de Hitler

Uma reunião no dia 18 de setembro de 1939, no altivo prédio do Ministério das Finanças do Terceiro Reich, tinha uma única pauta: o maior plano de falsificação de dinheiro de todos os tempos.



01_The_Counterfeiters_01.jpg © "Os Falsários".

Como tudo o que envolve o sinistro governo de Hitler, o plano era completamente megalómano. Os alemães pretendiam falsificar milhões de cédulas de libras esterlinas e depois colocá-las em circulação no mercado Inglês e demais colônias britânicas, a fim de causar um colapso no mercado financeiro ou no mínimo uma séria desvalorização de tal moeda. O plano ainda previa a atuação do famoso Ministério da Propaganda na acusação contra o Banco da Inglaterra, a quem seria atribuída a culpa pela distribuição das falsificações, alegando que essa atitude tinha como propósito esconder sua própria falência.

Mas por que atacar a libra esterlina? Primeiramente, pelo óbvio motivo de que se tratava da moeda de um inimigo do regime alemão. Porém, inimigos eram o que não faltava à nação de Hitler; o que melhor explica a escolha é algo anterior ao conflito. No período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, as moedas de todo o mundo sofreram por falta de confiança. Os países mais astutos, Alemanha incluída, percebendo a fragilidade do sistema monetário mundial, desvalorizavam a própria moeda para favorecer os produtos locais e elevaram tarifas alfandegárias, ou seja, o que se criou a nível mundial foi um sistema de comércio completamente desleal em que cada um visava o protecionismo e lucro a qualquer custo. Contudo, os ingleses foram na contramão desse processo: o que eles queriam era uma moeda confiável, por isso voltaram ao padrão-ouro, ou seja, a moeda era mais cara mas, em teoria, era a única confiável o suficiente para ser trocada por ouro. Tendo esse cenário como pano de fundo, a libra esterlina se firmou como moeda forte e tornou-se o alvo mais visado por falsificadores de todas as espécies.

Esses falsários atuavam no mundo todo; normalmente, eram artistas desiludidos com o incerto mundo das artes e que para não morrerem na miséria utilizavam seus dons artísticos para fins menos gloriosos. Como a Alemanha era uma das principais representantes da Comissão Internacional de Polícia Criminal, formada após a Primeira Guerra Mundial para rastrear atividades de falsários e contrabandistas nas fronteiras europeias (mais tarde daria origem à Interpol), a tarefa de encontrar e “recrutar” estes criminosos era simples.

02_The_Counterfeiters_02.jpg © "Os Falsários".

O mais famoso deles foi Salomon Smolianoff, um judeu russo que estudou pintura, mas a quem as guerras não pouparam. Primeiro, foi a Revolução Russa que obrigou sua família a fugir do país e, anos mais tarde, no início da Segunda Guerra, tendo sido descoberto nos seus golpes, foi levado para o campo de concentração de Mauthausen. Lá, ele se revelou um excelente retratista e chamou a atenção do oficial nazista Bernhard Krüger, que o transferiu para o campo de concentração de Sachsenhausen, onde estava para iniciar uma das operações mais ousadas da história deste conflito: a Operação Bernhard.

Tal ação contou com 142 falsificadores arrebanhados de vários campos de concentração que formaram uma equipe sediada em Sachsenhausen. Obrigados a se tornar “Kapos”, designação para aqueles que colaboravam com a SS dentro dos campos, eles produziram aproximadamente 132 milhões de libras em notas falsas. Além de algumas centenas de dólares.

03_The_Counterfeiters_03.jpg © "Os Falsários".

A operação só não obteve sucesso por falta de tempo. Antes de recrutar o famoso falsário, os alemães já haviam executado uma primeira tentativa do plano, mas não lograram sucesso. A libra esterlina não era uma moeda fácil de falsificar - feita de uma mistura de linho com urtiga, num papel que possuía um padrão muito específico, o que demandou grande tempo em pesquisas e tentativas falhadas. Além disso, neste primeiro intento, a equipe não era tão qualificada para tal trabalho e com isso demoraram demais para chegar a um resultado satisfatório em relação à marca d’água e selos presentes nas notas.

Quando finalmente as notas ficaram tão boas a ponto de serem confundidas com as verdadeiras, era tarde demais. No dia 6 de maio de 1945, os falsificadores de Hitler foram libertados pelo exército americano. A incrível história destes homens foi contada em livros, e teve seu enredo nas telas do cinema em 2007, no filme Os Falsários, de Stefan Ruzowitzky (em Portugal, Os Falsificadores).

04_The_Counterfeiters_04.jpg © "Os Falsários".

05_The_Counterfeiters_05.jpg © "Os Falsários".

jéssica parizotto

é uma proparoxítona, interessa-se por haicais, músicas pouco conhecidas e jogo de palavras. Queria voar de balão, mas tem medo de altura.
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