Alan Moore e o outro lado dos quadrinhos

Sabem aquelas HQs que não estão no mainstream das grandes editoras, com temáticas profundas e adultas, chegando a ser apavorantemente reais dentro de sua ficção? Nem todas foram criadas por Alan Moore, mas foi seu pioneirismo que possibilitou a existência delas. Prepare-se para conhecer um pouco mais sobre a mente sombria e brilhante deste mago dos quadrinhos.


alan, banda, desenhada, gráfico, HQ, moore, quadrinhos, romance, super-herois © Alan Moore, (Wikicommons, Stew Dean).

O que dizer de alguém que se autoproclama feiticeiro e usa argumentos brilhantes e filosóficos, com embasamento histórico, para dizer que arte é magia e sua função é transformar a vida e a consciência das pessoas? Pode ser um louco, um gênio ou um revolucionário- um cara no mínimo incomum. Para todos os efeitos, este é Alan Moore, um escritor e quadrinista britânico responsável por instituir elementos reais e inovadores em suas obras, elevando as histórias em quadrinhos a um novo patamar, transformando-as em uma arte tão séria quando a literatura.

Agora com 58 anos, este grande artista mostrou desde criança um espírito questionador e rebelde. Ao crescer em um ambiente pobre e humilde, Moore desenvolveu um sentido de realidade privilegiado em relação às outras pessoas. Por conta de sua personalidade forte e dificuldade em se enquadrar em sistemas com regras questionáveis, foi expulso de uma escola conservadora quando jovem, e aos 18 anos, em 1971, não tinha emprego ou formação. Foi quando começou a escrever com amigos em um projeto chamado Embryo, que o fez ter contato com o Laboratório de Artes de Northampton e entrar em definitivo para a área. A partir de então iniciou sua bem sucedida carreira, que lhe renderia fama internacional.

O escritor entrou no mundo dos quadrinhos em 1979 sob o pseudônimo de Curt Vile, quando fez Roscoe Moscou, que narrava as aventuras de um detetive. Logo ele percebeu que não era um bom ilustrador e a partir de então passou a se concentrar em escrever histórias, sempre inspiradas por suas fortes ideologias. Sob os conselhos de seu amigo, o também quadrinista Steve Moore, passou a trabalhar como freelancer em várias revistas, como a 2000 AD e a Marvel UK, em uma época que os quadrinhos ganhavam popularidade na Inglaterra. As tramas que escrevia eram permeadas por uma mistura pioneira de engajamento social e político com fantasia e horror, que logo chamou a atenção da DC Comics, onde, junto com Dave Gibbons, lançaria entre os anos de 1986 e 1987 uma de suas mais famosas sagas: Watchmen.

alan, banda, desenhada, gráfico, HQ, moore, quadrinhos, romance, super-herois © Alan Moore, (Wikicommons, Loz Pycock).

A obra de herois psicologicamente atormentados e desajustados sociais revolucionou o mundo dos quadrinhos, tornando-se rapidamente um símbolo da cultura pop. A história gira em torno das investigações e teorias de conspiração de Rorsharch com respeito à misteriosa morte de Edward Blake. Os dois são ex-membros do famoso grupo de vigilantes mascarados que outrora protegiam a população – os Watchmen, agora proibidos de agir por uma lei promulgada pelo presidente Richard Nixon. Paralelamente, enquanto os EUA comemoram a vitória na guerra contra o Vietnã graças ao Doutor Manhattan (o único do grupo com super-poderes), a ameaça do holocausto nuclear da guerra fria aterroriza a todos. Em meio a reflexões e críticas sociais mostrando pela primeira vez protetores da sociedade como pessoas comuns e problemáticas, Moore fez a primeira HQ que ganhou o Prêmio Hugo, voltado para a literatura.

Popularizando o formato de romances gráficos (conhecidos como "graphic novels"9, o escritor continuou desenvolvendo obras primas, entre elas V de vingança (1982-1989) e Do inferno (1991-1996). O primeiro é uma grande reflexão sobre o poder e a sociedade e o segundo uma visão particular sobre Jack, o Estripador. Suas narrativas refletem diretamente suas crenças e valores, como o neopaganismo, o ocultismo, a mágica e o anarquismo. Embora seja um quadrinista bastante popular, grande parte de seu trabalho se concentra no meio underground, exceto alguns títulos de maior prestígio da DC Comics. Desde 2009, ele tem se voltado para projetos independentes, como a minissérie de terror baseada no universo de H.P. Lovecraft intitulada Neonomicon e o projeto de um futuro livro sobre magia intitulado The moon and serpent bumper book of magic.

alan, banda, desenhada, gráfico, HQ, moore, quadrinhos, romance, super-herois © Alan Moore, (Wikicommons, Andre Lanz).

No mainstream dos quadrinhos, Moore também escreveu obras de destaque, como o premiado Batman: A piada mortal (1988) e a trilogia O que aconteceu ao Super-Homem? (1991), O Adeus (2003) e O que aconteceu ao homem de aço? (2006). Mesmo com um enfoque ligeiramente comercial, o quadrinista não deixa de acrescentar sua visão do mundo, fazendo uma grande análise sobre a loucura por meio do Coringa na HQ do homem-morcego e imaginando uma crise para o homem de aço que põe fim a sua vida de heroi. Como sempre, a realidade e seus aspectos mais subjetivos ganham destaque nas tramas.

Este é um esboço básico sobre um escritor que afirma que desde os 40 anos também é um mago de grande inteligência filosófica. Claro que existe muito mais para se ler e para se escrever sobre Alan Moore, mas procurar seus principais trabalhos aqui citados e pesquisar um pouco mais de seu estilo de vida é um ótimo começo. Assim, acaba ficando fácil entender como uma mente tão complexa consegue elucidar tantos paradoxos da existência humana, mudando nossa maneira de ver o mundo ao transformar o mundo dos quadrinhos.

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jeferson scholz

é fascinado pela cultura pop em todas as suas esferas de manifestação, por música, cinema e nerdices em geral.
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