Trazer à luz o que vimos na escuridão

As pinturas do alemão Caspar Friedrich representam paisagens naturais tão fascinantes e assustadoras que ali se revelam as perturbações e sensações humanas. Um convite a sentir primeiro e pensar depois.


Caspar, filosofia, Friedrich, paisagem, romantismo, sublime © Casper Friedrich, "Monge Diante do Mar".

A expressão da interioridade era o foco de Caspar (1774-1840), como ele escreveu em sua coleção de aforismos: "Fecha teu olho corpóreo para que possas antes ver tua pintura com o olho do espírito. Então traz para a luz do dia o que viste na escuridão, para que a obra possa repercutir nos outros de fora para dentro". Esse aforismo revela a pretensão romântica de Caspar: produzir no observador esse arrebatamento de emoções que a cena na obra estimula.

Em Monge diante do mar (1810), um de seus quadros mais conhecidos, vemos a grandiosidade do céu, do mar, do deserto do homem que observa a imensidão. A solidão diante da vida, a angústia diante do belo, o temor de entregar-se ao desconhecido dentro de si. A natureza revela e conduz para dentro de si, manifesta o desejo de ser maior para conseguir suportar sentimentos tão bravos quanto o mar que expressa sua fúria nas ondas. Um mar negro que arrebata o homem, pequenino, diante da imensidão. O céu, acima, é invadido pelo negro das águas que respingam mas, logo depois, as nuvens cedem espaço à luz. Ela, que revela a mais forte tempestade também estará ali, depois de tudo, indicando que tudo não passa de um momento, uma fúria e sua escuridão, cada homem com o seu mar.

Caspar, filosofia, Friedrich, paisagem, romantismo, sublime © Casper Friedrich, "O Peregrino Sobre o Mar de Brumas".

Um outro quadro famoso, O peregrino sobre o mar de brumas (1818), mostra um jovem sobre um rochedo negro a olhar não para o horizonte, mas para baixo, para as brumas. A natureza, em sua imensidão, é convidativa. Não vemos a face do jovem, estamos junto a ele nas pedras sobre a neblina. Há o temor e a vontade de ser mais. Um jovem herói romântico que luta contra seus sentimentos, contra o suave chamar da natureza - que não é humana, mas está em cada um, que convida a ser mais do que se é. O retorno para a imensidão que salva ao abrir as portas do ilimitado. Quanta beleza nas alturas, sobre as nuvens, na solidão. Quanta angústia por estar só e por notar a pequeneza diante da montanha. Seria uma linda paisagem se o pintor não impusesse ao espectador a partilha dos pensamentos do rapaz. Somos cúmplices sobre a montanha, somos peregrinos que se encontram e estão de passagem pela névoa que encobre os dias.

Obras como estas são representações do sublime: expõem a grandiosidade da natureza em forças tão belas que chegam a aterrorizar. Esse foi um tema da filosofia romântica por excelência. Explorou o feio como meio de expor o arrebatamento dos sentimentos humanos. A imensidão da natureza e suas forças foram utilizadas como metáfora para os sentimentos dos jovens românticos. O romântico que a arte de Caspar Friedrich revela em suas paisagens simboliza a cumplicidade do homem com as forças maiores que ele, isto é, com o sublime - entendido como “feio” nos escritos filosófico-estéticos por não ser uma expressão do belo que agrada e que produz boas sensações no público, ao contrário.

Caspar, filosofia, Friedrich, paisagem, romantismo, sublime © Casper Friedrich, "Casal Contemplando a Lua".

Caspar é famoso pelas paisagens onde retratava o mundo que lhe importava: montanhas, penhascos, mares e tudo que conduzisse o olhar para muito além do perto, do conhecido. Ele desejava o horizonte, e esse é um tema que a todo homem comove, pois desde sempre desejamos o desconhecido, as terras de além-mar, os reinos distantes do aqui, o que há depois da montanha. Somos todos românticos por natureza? Isso é reflexão para cada um. O interessante é como a natureza retratada em sua grandiosidade nos inebria e amedronta. Queremos ir o mais longe possível sem deixar de desejar a segurança ilusória de ficar para sempre em um só lugar. Os sentimentos humanos são maiores do que um corpo poderia suportar. Talvez por isso Caspar Friedrich tenha tido o cuidado de não incorporar seus homens e mulheres na obra, mas de colocá-los como observadores dela, como todos nós diante de sua janela: queremos quebrar as vidraças e sair voando para as nuvens, mas sempre acabamos por fechar as persianas.

Caspar, filosofia, Friedrich, paisagem, romantismo, sublime © Casper Friedrich, "Mulher Diante da Aurora".

Caspar, filosofia, Friedrich, paisagem, romantismo, sublime © Casper Friedrich, "O Caçador na Floresta".


Larissa Couto

Estudo para ser Filósofa, Leio para ser escritora e Penso para ser eu mesma - ou ao contrário.
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