Ainda não foi desta, Sr. Murakami...

As duas luas de Murakami eclipsaram no momento em que não ganhou o Nobel da Literatura este ano. O romancista japonês Haruki Murakami era dado como favorito. Para quem não conhece, o escritor nipónico usa os seus romances para descascar, camada a camada, o caos de um mundo incerto (o nosso, quiçá, ou só o dele?).


literatura, murakami, nobel, novela, prêmio, romance, surreal © Haruki Murakami, imagem de wakarimasita (Wikicommons, licença CC-SA 3.0).

O autor de “Norwegian Wood”, “The Wind-Up Chronicle Bird” e, mais recentemente, “IQ84”, seguia mesmo à frente nas previsões. Duas características faziam (e fazem!) dele um bom candidato ao Nobel: a natureza transaccional da sua prosa e o liberalismo ínsito nas suas obras de não-ficção. Ambos os factores brotam da sua marca multicultural e da sua relevância política (por exemplo, recentemente pronunciou-se de forma bastante, digamos, nacionalista - a propósito da disputa territorial pelas Ilhas Senkaku com a China).

literatura, murakami, nobel, novela, prêmio, romance, surreal © Livro "Norwegian Wood, 2ª Edição (Wikicommons, Heart of the World).

Primeiro: Parabéns a Mo Yan. Na minha ignorância, nunca li nada dele, assim como nunca li um sem fim de prémios Nobel, mortos e vivos. Segundo: não é minha intenção desmascarar o gosto sueco quando os resultados não correspondem às minhas expectativas (ou aos meus sonhos, cobertos agora de nevoeiro). Mas, se as pessoas discutem um resultado de futebol, o Nobel da literatura certamente merece algum debate. A verdade, porém, é que o facto de escritores como Joyce, Proust, Kafka, Borges e Twain terem sido esquecidos ​​pelo Nobel é o suficiente para me apaziguar.

Para quem não conhece, o escritor nipónico usa os seus romances para descascar, camada a camada, o caos de um mundo incerto (o nosso, quiçá, ou só o dele?). Sim, a sua mestria é a criação de ambientes surreais. Nesse mundo incerto, peixes caem do céu perto de uma estação de comboios de Tóquio, os poços de um quintal são causa de violência política e pessoal e um sapo gigante diz a um homem de negócios para salvar Tóquio do seu próximo terramoto.

literatura, murakami, nobel, novela, prêmio, romance, surreal © Assinatura de Haruki Murakami (Wikicommons, Galoren.com).

O mundano mistura-se com o absurdo, mas não oferecem soluções para um mundo que ruma, inevitavelmente, em direção ao caos. "Quando escrevo romances, tenho que ir para as profundezas, para lugar muito profundo, escuro e solitário", Murakami disse quando foi entrevistado pelo New Yorker, em 1999, descrevendo o seu processo criativo com uma imagem que tem repetido em conversas muitas vezes desde então. "Mas tenho sempre que voltar, voltar para a superfície. É muito perigoso. E tenho que ser forte, física e mentalmente, de modo a fazer isso todos os dias".

Os leitores da ficção de Murakami provavelmente vão reconhecer esta descrição instantaneamente: é o mesmo processo pelo qual muitas das suas personagens passam, embora para elas a experiência seja mais literal, envolvendo poços, túneis de metro e outras passagens subterrâneas em domínios secundários, onde travam lutas para ligar duas realidades. Por exemplo, no seu romance "1Q84", o mais recente e mais longo, o protagonista, um instrutor de fitness e assassino nas horas livres, ao descer umas escadas de emergência encontra uma realidade paralela de tempo deformada, com duas luas, e todo um cenário que pode ou não pode estar a acontecer no ano orwelliano de 1984. Não é de admirar que a obra de Murakami mais importante, de não-ficção, seja "Underground".

Parece-me, também, que o autor japonês é mestre numa outra "dimensão": consegue viver, simultaneamente, em duas realidades paralelas e bem terrestres: o interior do Japão e o Ocidente - a mestria está aí, na captura da essência da intersecção entre estes dois mundos culturais.

Murakami cita Franz Kafka como uma das suas maiores influências. Porém, Murakami, aquece o frio desapego de Kafka com a seriedade japonesa, escrevendo novelas que antecipam o apocalipse (“normal” num país como o Japão, atacado pela bomba atómica em 1945 e frequentemente assombrado com tufões, furacões, tsunamis e terramotos) e que, notavelmente, não sucumbem a um cinismo fácil. No mundo de Murakami, o caos é suavizado pela empatia – uma qualidade/característica rara e cada vez mais escassa, na ficção ou na realidade, do nosso século XXI.

“Tudo é incerto”, confessa Tengo, protagonista de “1Q84”, e “extremamente ambíguo”. No Mundo de Murakami, a incerteza é a norma. Mas, uma vez aceite, sugerem as suas histórias, é possível viver e amar em harmonia.


graça c. moniz

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