Ed Wood: o pior diretor de todos os tempos

São diversas as listas de melhores realizadores do cinema, e alguns nomes se revezam na ocupação dos postos mais altos. Lendas vivas indispensáveis no estudo e conhecimento da arte. Mas também ocorre essa disputa na eleição dos piores. Dentre esses, um tem o destaque que lhe dá fama de lenda do desastre filmado. Conheçam Ed Wood, o pior diretor de todos os tempos.


Burton, Depp, diretor, Ed, Johnny, Tim, Wood Ed Wood e sua esposa Dolores Fuller no set de Glen or Glenda (1953), seu primeiro longa metragem.

Pedir para assistir aos filmes de Ed Wood é pedir muito. Apesar de a ideia algumas vezes dar espaço para uma trama de gênero interessante, o resultado é desastroso. Grande parte do esforço de Wood para ser tão ruim era a vontade que tinha de filmar, muitas vezes deixando de lado a linearidade da trama. O foco estava na imagem, e com narrações tentando encontrar uma conexão entre todos os fragmentos.

Edward Davis Wood Jr. nasceu em 1924. Serviu na Segunda Guerra durante dois anos e em 1948 começou a realizar comerciais em sua produtora (com seu nome, no seu apartamento em Hollywood). No documentário The Haunted World Of Edward D. Wood Jr. (1995), de Brett Thompson, amigos e colegas de trabalho da época de seus filmes dividem opiniões. Alguns o defendem, outros o condenam, mas todos são unânimes quanto à sua paixão e determinação.

Seu primeiro trabalho foi em Crossroads of Larado (1948) com o produtor Crawford Thomas. Típico filme western para a televisão. Nesta experiência, Thomas descobre a marca de Wood. Dois dias de gravação, sem tomadas extras, cenário limitado e repetido (buscaram a ambientação mais próxima da cidade) e erros de continuidade. Traços de um diretor desconhecido e confiante. Tal confiança o levou a gravar Glen or Glenda (1953), onde o próprio Wood interpretaria o protagonista homem/mulher do título.

O filme trata do travestimento do personagem, assunto polêmico para os anos 50, com que Wood convivia diariamente. Sentiu-se capaz de realizar este projeto mais que qualquer outro porque este era um filme sobre sua vida. Sua namorada na época, Dolores Fuller, que também participa, não conhecia o roteiro nem o segredo de Wood até às filmagens. Por fim, com o lançamento do filme, sentiu-se humilhada com a exposição de suas vidas.

Burton, Depp, diretor, Ed, Johnny, Tim, Wood Cartaz de Bride of the Monster (1955), com Bela Lugosi como astro e promessa de um bom filme.

Muito se fala que Hitchcock é o diretor mais didático para o estudo do cinema. Seus filmes são uma aula de linguagem cinematográfica. Mesmo assim, além da impecabilidade também há espaço para alguns erros de continuidade. Fazer cinema é um processo complexo, até os mestre deixam passar algumas coisas. O importante é não afetar o resultado final. Dito isso, Ed Wood também pode ser chamado de didático. Seus filmes contêm um recorde de erros. Em poucos minutos de projeção é possível detectar todas as gafes do cinema, e até algumas surgidas do filme. Em Plan 9 From Other Space (1959), marcianos invadem a Terra e se aliam a vampiros e mortos vivos para lutar contra os humanos. Potencial filme mediano - talvez melhor, se bem realizado - não fosse por Ed Wood.

Burton, Depp, diretor, Ed, Johnny, Tim, Wood Este vampiro é Bela Lugosi, de dia, no filme Plan 9 From Outer Space.

Burton, Depp, diretor, Ed, Johnny, Tim, Wood Este não é Bela Lugosi, à noite, no filme Plan 9 From Outer Space.

Burton, Depp, diretor, Ed, Johnny, Tim, Wood O lutador Tor Johnson interpretou muitos zumbis e monstros no cinema, como este em Plan 9 From Outer Space.

Bela Lugosi, o Conde Drácula do filme de 1931, interpreta o vampiro de Plan 9..., mas morre durante as filmagens. Substituir um ator é possível com um novo casting até encontrar um semelhante. Tempo demais para o apressado Ed Wood. Chamou seu dentista para substituí-lo. Em uma cena de perseguição em um cemitério (onde a atriz foge em um vai-e-vem sempre no mesmo cenário) é possível saber quem é Bela Lugosi e quem é o dentista. Lugosi mostra seu rosto, o dentista está sempre com a capa na frente. As cenas de Lugosi são de dia, as do dentista à noite.

A grande sorte é poder conhecer melhor sua vida pelo filme biográfico dirigido por Tim Burton, em 1994. Um dos melhores momentos é a conversa de Wood (interpretado, como de praxe, por Johnny Depp) e Orson Welles (Vincent D’Onofrio) em um bar. Os dois falam das dificuldades de filmar, de atores, de produtores. Os dois são colegas de trabalho. Os dois são apaixonados pelo cinema. Um é um gênio, o outro não.

Burton, Depp, diretor, Ed, Johnny, Tim, Wood Johnny Depp como Ed Wood, e seu gosto estranho por roupas femininas, conversa com Tim Burton no set da cinebiografia de Wood.


mauricio de boni

volta e meia é encontrado em livrarias admirando títulos e capas, e, esporadicamente, na cozinha criando coragem ao assumir experiências cada vez mais complexas (o mesmo ocorre com a escrita).
Saiba como escrever na obvious.
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