O fim do mundo... como o conhecemos

Quando as pessoas não precisarão ser uma coisa só? Quando poderão ter mais de uma ideia ao mesmo tempo e não sofrerão reprimendas por pensar diferente? É possível sair da caixinha?


conhecimento, do, especialização, fim, ideias, mudanças, mundo © Sherrie Smith, Dreamstime.com

Dividir o conhecimento em gavetas faz sentido hoje? Já fez algum dia? Quando tinha por volta de quinze anos me convenci - ou fui convencida pelos outros, ainda não sei ao certo a percentagem de responsabilidade de cada um por isso - de que deveria ser boa em uma única coisa. A sociedade capitalista foi introduzida à ideia da especialização muito pela industrialização: a necessidade de sobreviver traduzida através da capacidade de ser qualificado em uma única coisa. Não que esse pensamento não existisse antes, mas com a industrialização tomou outras proporções.

Foi por causa dessa ideia absurda - outrora muito lógica - da setorização do conhecimento que concluí erroneamente que, para ser arquiteta, eu precisaria deixar de lado a “insana” ideia de escrever e de me dedicar a qualquer outra coisa como fotografia, desenho e instrumentos musicais. Reduzi, assim, meu pontencial a uma única tarefa.

Não foi, de todo, desastroso este processo, visto que hoje saio formada da melhor escola de arquitetura do país. Uma hora foi preciso, entretanto, para que isso de fato ocorresse: que eu negasse essa louca mania de querer ser excelente em uma única coisa e abrisse caminho para outros talentos adormecidos. Se não o tivesse feito, ainda que tardiamente, não poderia estar aqui escrevendo, e certamente não estaria feliz com minhas conquistas no próprio campo da arquitetura.

Sei como é difícil olhar para os mais novos e dizer a eles “vocês não precisam escolher uma só coisa”. Parece tirar a responsabilidade de suas mãos. Mas acredito que ao permitir escolhas mais amplas, a responsabilidade seja, na verdade, ainda maior. As provas de vestibulares para faculdades, o tão temido mercado de trabalho com profissões da moda e o pensamento tradicional de que um diploma fará toda a diferença estão juntos para dizer exatamente o contrário. Bom, você não precisa ser mais um com esse discurso limitado.

conhecimento, do, especialização, fim, ideias, mudanças, mundo © Fim do Tempo.

Estou fazendo um apelo aqui: deixe que os mais novos sejam mais de uma coisa. Aquele aluno que desenha na sua aula de literatura pode vir a tornar-se um bom escritor, mesmo sendo igualmente um bom desenhista. Ele não precisa dar exclusiva e única atenção a qualquer uma dessas duas coisas. O seu filho que parece não ter qualquer noção aproximada do que deseja fazer com o resto da vida dele tem uma atitude perfeitamente natural - estranho seria se ele soubesse exatamente o que quer com doze, quinze ou vinte anos de idade. Você, por acaso, sabia?

Gerar expectativas exacerbadas pode prejudicar - e muito! - a percepção e a sensibilidade de alguém sobre suas próprias habilidades e vocações.

conhecimento, do, especialização, fim, ideias, mudanças, mundo © Ideia luminosa (Wikicommons).

Veja só quem está se dando bem Por que alguém não pode ser um ótimo baterista e um excelente fotógrafo, ao mesmo tempo? Conheço um ou dois, sobreviventes do discurso ideológico paternalista, da inserção garantida no mercado, numa grande empresa com um gordo salário. “Ter que escolher uma coisa só” vem de uma percepção restritiva e maniqueísta. Achamos que alguém ter capacidades tão diversas, num mundo que não se divide em exatas, humanas e biológicas, soa estranho.

Isso não é mais estranho para as novas gerações. Coibir a capacidade de ser bom em mais de uma coisa com o pretexto de que é preciso ser melhor e se aperfeiçoar em apenas uma área é de um estúpido anacronismo. É não perceber que, ao contrário do que se pensava há poucos anos, quem está se dando bem por aí são justamente aqueles sujeitos versáteis que sabem fazer mais de uma coisa e, além de tudo, relacionar suas capacidades paralelas.

Ninguém mais quer saber se você é excelente em uma coisa que muitas pessoas fazem bem; o que é preciso é mais gente que pense fora da caixinha: pessoas capazes de imaginar soluções diferentes para aquilo que é feito da mesma forma há muito tempo estão em falta. Essas pessoas, geralmente, são as que tem um gênio criativo por natureza ou que cultivaram a capacidade de raciocinar em situações diversas, podendo agrupar mentalmente coisas que normalmente não seriam relacionadas.

conhecimento, do, especialização, fim, ideias, mudanças, mundo © Pintainhos (imagebase).

Olhos Mortos de Sono, de Tchekov, é um ótimo exemplo disso. Tchekov era médico. Nesse conto de que vos falo, loucura e sonho se misturam resultando num surpreendente final. O escritor estava utilizando seus conhecimentos e capacidades da medicina para dar veracidade à escrita. Ao mesmo tempo, estava tentando provar uma teoria médica: a má influência da falta de sono, através da literatura. Relacionar medicina e literatura. É tão absurdo?

Os eventos TED, que se espalharam por todo planeta, são a maior prova de que é preciso - e já existe -, muita gente repensando aquilo que parecia há pouco escrito em pedra. Os palestrantes são, cada um, de maneira particular e diversa do outro, exemplos excelentes disso.

TEDxUSP - Ligia Amadio - Aventurar-se pelas escolhas

O fim do ego e da competição

Para dar novas soluções aos problemas que surgem, é preciso novos indivíduos, capazes de enxergá-los apenas como são: problemas, ou seja, questões com respostas possíveis. Não podemos nos deixar encarar o universo de situações novas que surgiram com a tecnologia ou mesmo da diversidade social atual como entraves insolúveis. Para isso, é preciso formar indivíduos novos, tão diferentes quanto as adversidades a que estarão expostos. Pessoas com mente aberta, ouvidos e olhos atentos e vontade de mudar.

Conformismo e setorização do conhecimento não cabem mais numa sociedade que abre mais de uma aba no navegador da internet enquanto ouve música, lê o jornal, assiste tevê e pensa se a pizza está chegando. Estagnação não pode mais ser aceita por uma sociedade cujo pensamento voa mais rápido que o corpo pode andar. Se podemos compartilhar ideias na velocidade em que podemos, então devemos nos adaptar a ter ideias conjuntas, à ausência de autoria e ego sobre projetos e realizações. Esta é mais uma coisa que a sociedade atual não pode comportar: ego e competição.

É verdade que a constante competição foi responsável pela construção de grande parte dos avanços da industrialização - vide a estagnação tecnológica que Cuba sofreu depois que se tornou um sistema comunista. Hoje, talvez Cuba não sofresse desse mal, se liberdade política estivesse incluída na pauta do governo; afinal, em um país onde não se pode falar, ideias não dão em árvores. Estamos entrando num campo em que a competição se torna inútil, na medida em que as ideias são cada vez mais fruto de pensamentos coletivos de uma construção conjunta e a tecnologia avança apenas para produzir objetos muito parecidos entre si. Basta observar um grupo de celulares de diferentes fabricantes que tenham benefícios similares. Corrijam-me se eu estiver errada, mas acho que eles são parecidos em muito mais do que os sistemas e aplicativos que apresentam. Eles são quase iguais, ainda que projetos de empresas diferentes.

Mais do que isso, repare em como os eletrodomésticos são todos parecidos, ainda que um seja uma máquina de lavar e o outro seja uma geladeira. Diferentes fabricantes de carros fazem praticamente o mesmo produto, com a mesma cara. Os modelos podem variar detalhes, mas continuam a fazer as mesmas coisas, com o mesmo tipo de energia, para atender ao mesmo tipo de indivíduo que se locomove pelo mesmo motivo que há três décadas já o fazia.

Como nossos pais Mudamos tanto quanto acreditamos ter mudado? Já dizia Elis Regina que continuamos a viver “como nossos pais” - e isso na década de 1960! Estamos em 2012 e vejo pessoas cheias de incertezas e agonias que eram as exatas preocupações análogas de seus pais e avós. Podemos nos permitir seguir com esse raciocínio? Acredito que não. O mundo está mudando ainda que nós não mudemos; é preciso acompanhá-lo.

Para todos aqueles que estão esperando o fim do mundo, parem de esperar! Façam o fim do mundo! O mundo como conhecemos deve, de fato, acabar. Há um mundo tão melhor possível! Não é uma ilusão. Não sou John Lennon. Sou apenas uma observadora. Parem de boicotar uns aos outros. Unam-se contra a mediocridade e o simplismo - e não será impossível. Vejo um mundo em que pode haver igualdade de direitos, mas não uma massificação do pensamento; liberdade de expressão, sem uso da palavra para violar a liberdade dos outros; mais do que respeito, aceitação pelo que é diferente, como algo natural. Ou, apenas, um mundo em que as pessoas possam ter mais de uma ideia ao mesmo tempo e não sejam recriminadas por isso.


Mariana Martins

Flanêur, escritora, observadora, mochileira, arquiteta-urbanista pela FAU USP. Paulista e Paulistana - com muito orgulho -, com um pezinho na cidade do Porto, Portugal de onde tem muitas saudades. Twitta no le_papillon_m.
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