Operação Doolittle: algumas considerações Freudianas

A Operação Doolittle foi a entrada dos Estados Unidos na Segunda Grande Guerra, mas foi, também, um momento de análise social: o nacionalismo demonizado, automaticamente imputado aos países do Eixo, se acendeu na América e o ataque só foi eficaz pelo impulso que forneceu à moral dos EUA perante os outros e perante seu próprio povo. A guerra não se localizava somente no campo físico de batalha.


doolittle, estados, guerra, harbor, japão, mundial, pearl, roosevelt, unidos © Destroços do bombardeado USS Shaw em Pearl Harbor (Wikicommons).

No dia 7 de dezembro de 1941 os Estados Unidos da América foram alvo de um dos ataques mais famosos da Segunda Guerra Mundial, que os obrigou a entrar no conflito e assumir uma posição definida – até então, não tinham participado ativamente no campo de batalha. O ataque a Pearl Harbor, além de ter sido uma ofensiva direta, também foi o ponto decisivo para um segundo ataque - desta vez, dos EUA ao Japão: a Operação Doolittle.

Após o bombardeio a Pearl Harbor, toda a mídia e a população norte-americana pressionaram as lideranças políticas (tendo como referência, claro, o presidente Roosevelt) para um contra-ataque. Os sentimentos de raiva e o nacionalismo americano estavam à flor da pele. Havia pressão para Roosevelt tomar uma atitude drástica que não deixasse abalada a fé da nação americana em si mesma, ou seja, pedia-se uma atitude de estabilização do ideal de nação. Sob vários olhares e sem muitas opções, sua cartada foi, juntamente com os líderes de operações militares, convocar um antigo piloto: James Doolittle.

doolittle, estados, guerra, harbor, japão, mundial, pearl, roosevelt, unidos © Hangar e aviões destruídos pelos bombardeiros Japoneses em Pearl Harbor (Wikicommons).

doolittle, estados, guerra, harbor, japão, mundial, pearl, roosevelt, unidos © Destroços do bombardeado USS Downes em Pearl Harbor (Wikicommons).

O plano de Doolittle   Após a primeira parte de sua carreira militar, Doolittle tinha conseguido grande fama por utilizar sua capacidades em filmes e como piloto de corrida. Mas, após avaliar os traços gerais do plano de ataque ao Japão, percebeu que seria inevitável a entrada dos Estados Unidos na guerra e, além de ajudar a concluir todos os preparativos para a operação, se ofereceu para liderar a missão.

doolittle, estados, guerra, harbor, japão, mundial, pearl, roosevelt, unidos © James Doolittle (Wikicommons).   No papel, o plano era possível, mas era necessário avaliar todos os detalhes, como a estrutura superior do Japão para batalhas no Pacífico e a iniciativa tomada no combate direto. Por conta disso, o foco da operação era sua rapidez e intensidade. Não precisava ter dimensões de destruição inimagináveis, mas deveria ser uma retaliação a Pearl Harbor. O ataque deveria significar a autoridade e força do estado americano. Para isso, foram chamados um total de mais de 90 combatentes, entre militares da Marinha e voluntários do Corpo Aéreo dos Estados Unidos.

doolittle, estados, guerra, harbor, japão, mundial, pearl, roosevelt, unidos © A Formação completa de oficiais (Wikicommons).   Os treinos rígidos exigiam técnica e precisão para a decolagem a curta distância, e todos os voluntários estavam vendados sobre a missão a ser cumprida. Tudo era tão secreto que a etapa de treinamento se passou sem nenhum militar saber para onde iriam – eles só tinham a certeza de que seria uma missão altamente perigosa e eram livres de desistir a qualquer momento.

O ataque

A operação consistia na ação de quatorze navios de escolta, dois porta-aviões com dezesseis aviões B-25 recheados de 230kg de bombas e sem o peso das armas de defesa (peso esse que foi utilizado para a adição de combustível extra) que teriam que atacar instalações estratégicas e pontos militares; e depois, com rapidez, aterrizar em solo chinês, em suposta segurança. Tudo seria perfeito, caso o exército japonês não fosse precavido: barcos de pesca ficavam de vigia no entorno do território marítimo, prontos para avisar sobre qualquer objeto suspeito em mar ou pelos ares.

doolittle, estados, guerra, harbor, japão, mundial, pearl, roosevelt, unidos © Porta-aviões utilizado na Operação Doolittle (Wikicommons).

Não foi outro o destino. Os pequenos barcos pesqueiros avistaram a frota americana e a operação teve seu início ainda longe da costa japonesa – os aviões conseguiram lançar as bombas em localidades estratégicas, em Tóquio e Nagoya, e tentaram retornar para um local seguro e já planejado: a China. Entretanto, pelo início inesperado, o combustível dos aviões acabara, também, de maneira inesperada, e os pilotos americanos tiveram que descer em locais de emergência ou pular dos aviões em pleno mar e território inimigo. A operação foi um sucesso enquanto ataque, mas não conseguiu completar o planejado em relação aos oficiais, sendo que alguns chegaram a morrer em operação, e outros foram prisioneiros de guerra e depois executados pelo exército japonês.

Tentando explicar a história com um pouco de Freud

Como explicar o sucesso simbólico dessa operação que, no final, acabou por ditar a crença dos americanos na possibilidade de uma vitória final e reforçou a moral estadounidense? Neste artigo, recorremos a Freud.

Entre a obrigação de agir e a possibilidade de agir, não há outra opção que não seja agir. Já não havia impedimentos morais à participação dos EUA na guerra e, ao mesmo tempo, havia a pressão por parte do povo americano a uma ação. O mais interessante é a comprovação da tese freudiana de que um grupo coeso tem sempre uma causa em comum, que pode ser, como neste caso, impressa num inimigo em comum, que funciona como um depósito das pulsões agressivas e um investimento da libido objetal. Haver este inimigo em comum permite que os indivíduo criem laços libidinais em prol da satisfação deste mesmo objetivo, deste mesmo sentido de viver, desta causa em comum.

doolittle, estados, guerra, harbor, japão, mundial, pearl, roosevelt, unidos © Descolagem de avião B-25 (Wikicommons).

Este acontecimento histórico também comprova a tese durkheimiana de que o crime (em sentido amplo, aquilo que fere a sociedade, que fere a coletividade) é útil para a coesão social. O crime cria grupos locais e une os indivíduos a algo além deles – a própria sociedade.

Qual é a grande sacada disso? Esses dois movimentos se retroalimentam. Aplicando ao caso específico, enquanto o ataque a Pearl Harbor une os indivíduos em busca de proteção do “nós”, da sociedade americana como coletividade, essa união se faz por laços libidinais e investimento da libido por uma causa que é dupla: manutenção da sociedade vigente, da honra e força do Estado americano; e rejeição do “eles”, daqueles que, por sua vez, agrediram a representação da América como unidade preenchida por valores dignos de respeito e tidos como o melhor que a humanidade poderia desenvolver.

Logo, não se pode dizer que a operação foi uma ação de um grupo tomador de decisão, não se pode diminuir esse fato histórico à culpa de alguns militares loucos por vingança ou por uma massa alienada sedenta por sangue japonês. Isso é reducionista. Deve-se perceber que a operação foi uma expressão de defesa-ataque do “nós” contra o “eles”. Do grupo contra aqueles que, além de não pertencerem ao grupo, o agrediram. Esse fato foi simbólico, não só por significar a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, mas por significar a adesão dos grupos politico e socialmente dominantes a uma causa onde se torna legítimo entrar num campo de guerra. Foi uma movimentação que legitimou certas hierarquias, tornando as ações que são produtos delas e que as representam em as únicas possíveis (o ataque ao Japão era “necessário”).

Os militares voluntários não eram pessoas corajosas que deram suas vidas pela pátria: eram pessoas que, durante toda sua vida, toda sua socialização, tiveram inculcados valores de forma de agir, sentir e pensar onde este tipo de ação (suicida pela pátria, praticamente) era legítimo e, também, um imperativo construído – uma obrigação moral. Não dar a vida pela pátria é, ao mesmo tempo, causa de desprezo para a sociedade (sanção externa ao indivíduo) e causa de desprezo do indivíduo por ele mesmo, com a atuação do Superego culpabilizando o indivíduo por ter feito aquilo que era moralmente desprezível, por não ter mantido o laço com a sociedade, por ter rompido as normas, por abandonar a pátria (sanção interna). Abandonar a pátria, - que é mãe simbólica, por ser a terra onde nascemos e onde nos sentimos em casa, e é pai simbólico, por ser a autoridade que exige nossa abdicação do gozo pleno e impõe barreiras e regras ao nosso cotidiano – é quase como realizar o desejo edípico de destruir a figura paterna e possuir a figura materna.


Vinicius Siqueira

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