Anatomia da traição: entre a moral e a ciência

Allende via, em Pinochet, um dos seus militares de maior confiança. Três semanas depois da sua nomeação, este liderou um golpe de Estado fatal. Na Roma Antiga, Brutus lutou pelo Império Romano, gerido pelo seu pai, Júlio César, que traiu e matou. Em 1789, Joaquim Silvério estaria implicado numa conspiração para autonomizar a “Capitania de Minas Gerais” mas acabou por denunciar a organização, para proveito próprio. Exemplos de erros morais… que a “plasticidade humana” aceita.


brutus, cesar, historia, julio, moral, shakespeare, traição © "O Fabricante de Máscaras", (Wikicommons, Carlos Orduna).

“Até tu, Brutus?”

Para a comunidade ocidental, em geral, a simbologia do acto de “trair” está revestida de uma carga bastante negativa ou até criminosa. Hoje, o conceito de “traição” é, aparentemente, visto com vulgaridade mas com frequência como um ataque (o nome carrega, em si, esse peso) à intimidade do ser humano que sofre tal prejuízo. Na prática, a “traição” pode revestir inúmeros formatos e muitos deles dependem da interpretação de quem avalia o gesto. É fácil entender alguns gestos como consensualmente “traiçoeiros” - por exemplo, o contar de um segredo sem que determinada pessoa, que confiou, saiba; ou outros que poderão dar a entender muito pouco, sem deixarem de ser “traiçoeiros” - como um olhar “extra-conjugal” ou até um breve pensamento “desviante”. Certo é que este comportamento depende, essencialmente, da interpretação, não deixando de ser parte da existência humana e, como qualquer comportamento, de influenciar decisivamente a história dos povos.

brutus, cesar, historia, julio, moral, shakespeare, traição © "Sansão e Dalila", Sir Anthony Van Dyck, (Wikicommons, Google Art Project).

A “traição” encontra-se em diversos episódios curiosos e sugestivos da História. Na Bíblia, por exemplo, começando pela morte de Abel por Caim: este último levou o irmão para um campo, sem que Abel se apercebesse das suas verdadeiras intenções, tendo como motivo a preferência divina para com Abel, cujas ofertas Deus preferia. Para alguns católicos, é o primeiro homicídio da Humanidade resultante de uma traição - já que a primeira traição teria sido a de Adão a Deus, ao trincar a maçã.

brutus, cesar, historia, julio, moral, shakespeare, traição © "Judas a receber pagamento para trair Jesus Cristo", Lippo Memmi (Wikicommons).

brutus, cesar, historia, julio, moral, shakespeare, traição © Mural de Rivera pintado no Palácio Nacional, México, (Wikicommons).

Já no período clássico, fora dos textos bíblicos, Álvaro Oppermann lembra-nos a Batalha de Termópilas (480 a.C.), entre uma aliança de “pólis” gregas (liderada por um rei espartano) e os persas. Efialto, grego, sabia de um segredo geográfico-estratégico, ou seja, uma passagem por entre as montanhas, até à “retaguarda grega”, e contou-o ao inimigo. Efialto terá sofrido uma maldição por parte de Ares, deus da guerra, num período em que “trair era agir contra os deuses”. Este erro vulgarizou-se mas, de tão receado que era, passou a ganhar relevo jurídico na Roma Antiga, com a definição do conceito “crimen maiestatis” para actos de “lesa-majestade” - actos contra o Estado, onde se incluiríam algumas “traições à pátria” ainda que esta não existisse definida como tal. Contudo, só no período medieval é que a definição de “traição” ganha contornos mais personalizados e é reconhecida como um “atentado” - normalmente, a um senhor temporal, rei ou papa, que representa um povo. “A quebra da hierarquia configura o delito”, refere Oppermann.

Shakespere, na tragédia “Julius Caesar”, imortalizou a expressão “et tu, Brute?”, quando Brutus, na tentativa de usurpar o poder do imperador romano (seu pai, Júlio César - supostamente adoptivo), traiu-lhe a confiança, apunhalando-o. É uma expressão que persiste no tempo. A história mostra-nos que o conceito de “traição” não se prende à dimensão conjugal ou da amizade, por exemplo, mas tal nem sempre se percebe. Nem sempre se entende a traição fora do contexto amoroso ou da amizade.

Traição: entre a moral e a ciência A traição existe desde que há vida em sociedade, precisamente, porque também advém da Humanidade. Mas, mesmo que o gesto se relacione, intrinsecamente, com o comportamento humano, a educação, mais do que a cultura, pode ser o factor que torne a “traição” menos comum ou, simplesmente, menos visível. Em sociedades onde a ideia de “traição” é, frequentemente, vista como uma forma de comportamento humano e não tanto como um desvio do bem-estar social, poderão existir riscos de uma habituação social a esse fenómeno que pode, mais do que tudo, gerar sensações cada vez mais frequentes de hiperrealismo social. Ou seja: podemos deixar-nos confundir acerca da percepção do significado mais verdadeiro do comportamento humano e da realidade social. Um comportamento que, inicialmente, é considerado lastimoso por revestir uma traição e que, não deixando de ser lastimoso, continua a ser praticado cada vez mais no relacionamento entre as pessoas, pode ajudar a que estas passem a considerar “normal” o comportamento em causa. Ou “aceitável”, por ser “normal”.

brutus, cesar, historia, julio, moral, shakespeare, traição © "Action Speaks Louder When not Betrayed By Words", (Wikicommons, U.S. National Archives and Records Administration).

A “plasticidade humana” é, na linguagem das ciências sociais e humanas, uma das características do ser humano que o permite adequar-se a realidades, físicas e psicológicas, bastante distintas daquelas em que começou por ser educado. A partir de certa altura, o Homem, para melhor se adaptar, desenvolve inconscientemente rotinas. Essas rotinas são o conjunto de gestos e de interpretações desses gestos que o ser humano executa para melhor se reconhecer e se estabelecer no contexto social, temporal e geográfico, dando origem, posteriormente, às instituições (como hoje as conhecemos).

Contudo, visto que as traições permanecem presentes na sociedade ocidental (pelo menos), são pejorativamente consideradas. E o que é pejorativo, o ser humano, normalmente, pensa em evitar (logicamente considerando): serão as traições, então, moralmente evitáveis ou um filho legítimo dessa “plasticidade humana”?


Luís Pereira

Chamo-me Luís Pereira e quero acreditar que o homem tudo pode. Só não consegue mudar a sua própria condição, de quem vai com Caronte. Só nos resta ouvir a prosa e a poesia da "nossa Grécia".
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