A música fugidia de Alegre Corrêa

Alegre Corrêa teve na sua formação popular - na mescla com estudos e aprofundamentos sobre o erudito – o diferencial para ampliar a linguagem de sua música.


alegre correa, áustria, choro, grammy, jazz, Jazz Contemporâneo, Joe Zawinul, música, música instrum © Alegre Corrêa, (Foto:Gerson Lopes).

Alegre Corrêa começou a sua carreira na cidade de Passo Fundo, Rio Grande do Sul, tocando em bailes e bares. Uma vertente que trouxe a diversidade para dentro das suas composições. O músico brasileiro já iniciava um processo de globalização feita pela sintetização e controle do som, tomando pra si a característica fugidia da música.

A partir de então começou a participar de festivais regionais e a compor grupos instrumentais, como o grupo Circuito Emocional, que trouxe o seu reconhecimento na capital gaúcha nos anos 80 misturando jazz, MPB, pop e folclore gaúcho. A característica plural de sua produção se manteve pelos anos, com incessantes recodificações para comunicar e sensibilizar.

Por essas razões, o músico tratou de carimbar seu passaporte para a Áustria, onde solidificou a sua carreira. Fez diversas turnês pela Europa, produziu seis discos e participou na Vienna Art Orchestra (VAO), grupo onde permaneceu entre 2000 e 2006. Inicialmente, o contato com a VAO veio pela participação, como convidado, da turnê realizada pela big band em comemoração do centenário de Duke Ellington. Veio a ser o primeiro músico brasileiro a integrar a VAO e, em 2003, o primeiro estrangeiro a ser eleito Músico do Ano na Áustria.

Alegre possui uma lista de parceiros que vai do saxofonista Letieres Leite, passando por Luiz Carlos Borges, Alessandro Kramer, Pedro Tagliani, Gerald Preinfalk, Márcio Tubino, Izabel Padovani, Joyce, e os mestres Hermeto Pascoal e João Gilberto, com quem dividiu temas e participou de espetáculos. Dentro da discografia do multi-instrumentista destacam-se o disco de estreia "Infância" (1993), "Negro Coração" (1995), "Handmade" (1999, em parceria com Guinha Ramires), "Raízes" (2000), "Por Causa do Samba" (2006, com a cantora Ana Paula da Silva) e "Laçador" (2008).

Em 2005, Alegre Corrêa passou a integrar o grupo The Zawinul Syndicate, liderado pelo lendário tecladista Joe Zawinul (que tocou com Cannonball Adderley, Miles Davis e Ella Fitzgerald). Permaneceu por dois anos no grupo, que foi um dos responsáveis pela criação do jazz fusion. E em 2010 receberia o prêmio mais importante de sua carreira, o Grammy, como guitarrista do disco "75", de Joe Zawinul & The Zawinul Syndicate, na categoria Melhor Álbum de Jazz Contemporâneo.

E Alegre continuou a produção de sonoridades enérgicas, emocionantes e lúdicas; além da reconhecida força de interpretação, ele já declarou que “seu barato” (são suas palavras) está na fase de composição. E em sua discografia percebemos essa definição, que o conduz para o lado significante primário de compositor que, com intenção única, pulsa e vibra os acordes do violão e da guitarra.

Estruturas centrais da música como o ritmo, harmonia e melodia são tratadas com respeito, mas ao mesmo tempo com a liberdade de deslocamento (e às vezes de estranhamento), como quem adentra a casa do melhor amigo abrindo janelas, mexendo na geladeira, trocando a arquitetura e mostrando novas opções de se adequar ao espaço que já parecia cômodo e imóvel.

Uma música que não é feita para ouvidos “educados”, mesmo tendo a conotação de música “sofisticada”, pois tem na sua estrutura o popular, e traz a música de Alegre para percepções sonoras identificáveis e sua correlação com diferentes histórias, lembranças e projeções, entre progressões, texturas e linhas melódicas.

Kafka, num dos seus últimos contos, escreveu: “...nossa espécie não aprecia a música. A música que mais apreciamos é a paz silenciosa; nossa vida é dura, por mais que tentemos deixar de lado as preocupações do dia a dia, não conseguimos elevar-nos a coisas tão afastadas do nosso cotidiano como a música.”

O conto Josefine, A Cantora é evocado não para comparar o fazer artístico e modo de atuação na vida das pessoas, mas para obsevarmos através desse trecho a comunicabilidade entre artista e público. A arte se faz natural para olhos e ouvidos de quem sente e vê na fruição algo mutável para seu dia a dia. Alegre Corrêa é um de tantos exemplos de artistas cuja produção é sentida como estrangeira e muitas vezes ignorada pelo público e crítica. Um fenômeno, no melhor estilo “síndrome do vira-lata”, de observar a aprovação de outros povos sobre a legitimidade de nossa cultura – foi assim com Tarsila Amaral, Anita Mafaldi, e com o redescoberto Tom Zé, por exemplo.

Será que realmente não apreciamos música? O que ouvimos é o eco do silêncio? Será que precisamos representar a cultura enquadrada em certos modelos espalhados por editorias de revistas culturais (revistas que agridem com petulância e desprezo a cultura popular)? Será que não acreditamos no que se está fazendo ao nosso lado? Santo de casa não faz milagre mesmo?!

Eu não quero que Alegre e outros tantos artistas (como Eduardo Neves e Toninho Ferragutti, por exemplo) participem de programas dominicais de calouros, que façam publicidade de supermercados, que sejam figuras carimbadas em revistas semanais de fofoca, ou que participem de algum reality show. A estrutura da indústria cultural já nos mostrou que artistas como ele nunca serão um fenômeno pop como os vendáveis e remodelados sertanejos de nossa época. O papo aqui não é colocar lado a lado o conhecimento e o reconhecimento, coisas tão discrepantes que fico confuso em ler em letreiros de instituições de ensino, mas estabilizar uma função tão importante para a vida diária – o espaço transcendental da arte. Deveria ser digno que esses artistas pudessem ter a tranquilidade de tocar adiante a sua produção, de saber que o próximo disco terá uma estrutura melhor, que não precisaram “mendigar” apoio a empresários descrentes, que os shows vão ter aceitação e que chegarão à população sem meio termos, nem preconceitos estabelecidos pela crítica cultural que inventou nichos, depositando a cultura em caixinhas divididas em gênero e poder econômico.

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guilherme cruz

nasceu numa fronteira física e se mantém numa fronteira ambulante de ambiguidades, acasos e dúvidas. Insiste em ter os olhos transcendendo Nhu-Porã e em escrever sobre assuntos incertos.
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