Do frio para o mundo: a estética da música platina

No canto do Sul da América existe um território que possui bandeira e hino, longe do discurso separatista que muitos lhe julgam e longe também das padronizações estilísticas. "A Linha Fria do Horizonte" é um documentário que intercepta estas fronteiras entre a estética do frio, o templadismo e os subtropicalistas.


documentário, drexler, jorge, milonga, pampa, ramil, vitor © Elisandro Dalcin.

Da vastidão do pampa platino parece que, ao longe, em meio à geada que anuncia o frio, estão tremulando bandeiras de três países e todos entoam milongas como dialeto único e universal.

A integração proposta pela agenda do Mercosul nunca passou perto de um envolvimento sócio-cultural que abrange um conceito humanista, desqualificando fronteiras e adentrando no verdadeiro caráter do conceito plantado como Mercosul. Não são assinaturas de chefes de estado em palácios que garantem a integração sul-americana: a cultura popular tratou de construir esse ponto de encontro.

O documentário A Linha Fria do Horizonte registrou esse momento musical que tem como propulsores o uruguaio Jorge Drexler e o brasileiro Vitor Ramil. Os compositores de música popular do sul do Brasil, Argentina e Uruguai passaram por barreiras alfandegárias para discutir, melodicamente, sobre as representações da paisagem onde vivem e o que está refletido, e compartilhado, em suas canções. O diretor Luciano Coelho, ao descrever essas comparações no site do filme, diz: “Estes artistas têm proposto - em paralelo à criação de sua obra e cada um à sua maneira - uma reflexão sobre a identidade própria da região, em conflito e diálogo com um sentimento de identidade global”. Ou seja, um registro que não se finda, mas que expõe um momento específico, principalmente sobre a música urbana feita por esses e outros músicos. Uma música que por muitos anos sempre foi embebida (e estigmatizada) na fonte raiz da música interiorana, da música popular folclórica com trejeitos, temas e sotaques que até hoje são usados como estereótipos para a região, mas agora tratada de uma forma ampla e universalista.

O pelotense Vitor Ramil se tornou nos últimos anos a referência musical gaúcha com discos, participações e composições que mesclam regionalismo e o linguajar urbano. Já teve canções cantadas por Gal Costa, Mercedes Sosa, Lenine, Zizi Possi e Maria Rita. Compositor, cantor e escritor, formatou sua carreira com uma reflexão própria sobre a identidade sulista, criando A Estética do Frio. Nessa criação Vitor deslocou o epicentro cultural e político brasileiro (“sitiado” no sudeste, nos grandes centros de Rio de Janeiro e São Paulo), e propôs um novo centro de trânsito, por meio do Rio Grande do Sul, para demonstrar uma outra história com influências e características divididas, principalmente, com Argentina e Uruguai. Uma formação intelectual do que é Brasil, mas que se propaga, representa e se expõe através de outros fatores. Para confirmar essa estética ele produziu alguns discos, começando com o CD À Beça (1995), e confirmando com Ramilonga – A Estética do Frio (1997) e com Tambong (2000).

A proposta de Ramil era registrar sonoramente a paisagem, a climatização e o temperamento do homem do campo. Tudo isso foi traduzido pelo compasso comum entre Argentina, Uruguai e Brasil, utilizando o que ele intitulou de “as sete cidades da milonga: rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza, leveza e melancolia”. A Estética do Frio foi gerada no Rio de Janeiro, através da televisão que mostrava cenas do carnaval baiano. E foi através da estranheza dessas cenas que Ramil refletiu sobre aquele calor que ao mesmo tempo contrapunha-se com o frio no sul do país - “Vejo os campos cobertos pela geada na luz branca da manhã, vejo crianças escrevendo com o dedo nos vidros dos carros, vejo homens de pala andando de bicicleta, vejo águas congeladas, vejo gente esfregando as mãos, gente de nariz vermelho, vejo a expectativa de neve na serra, vejo o chimarrão fumegando”. Era o símbolo que faltava para a constatação teórica desse “exílio”, e a criação de sutilezas harmônicas que apresentassem esse universo. A identidade do extremo sul brasileiro, e sua integração com as nações ao seu redor, fez com que a milonga se tornasse a forma do seu trabalho, que teria a diversidade como unidade dessa formalização.

documentário, drexler, jorge, milonga, pampa, ramil, vitor © Jorge Drexler.

documentário, drexler, jorge, milonga, pampa, ramil, vitor © Vitor Ramil.

12 segundos de oscuridad – Parceria entre Ramil e Drexler

Ao mesmo tempo que Vitor Ramil realiza essas reflexões, os irmãos Daniel e Jorge Drexler falam em templadismo, uma ideia que traz alusão ao tropicalismo, mas que introduz um debate sobre a "Estética do Frio" pela ótica uruguaia com argumentações assentes no clima temperado da região. Um clima com estações definidas que, consequentemente, intervém no perfil dos seus habitantes. E, na Argentina, o músico Kevin Johansen teoriza através do termo subtropicalistas – “Milonga subtropical, Milonga del Rio Grande Do Sul para acá. Milonga subliminal, milonga subcampeao por un tiro penal. …Aquí me pongo a cantar al compás de la nada, así se llama esta milonga subtropical..Milonga subtropical, milonga de humedad para ningún lugar...”. Esses versos de Milonga Subtropical, de sua autoria, fazem um reconhecimento das vertentes que dialogam, sendo apenas um espelhamento para o reconhecimento do outro como sujeito e irmão cultural – sem estrangeirismos. E não somente uma união musical, mas inclusão de hábitos, formas arquitetônicas e formações sociais.

documentário, drexler, jorge, milonga, pampa, ramil, vitor © Ana Prada.

Dulzura Distante, parceria entre os uruguaios Ana Prada e Fernando Cabrera que também participam do documentário

O pensamento crítico desses músicos tem conexões pelas aproximações, através da identificação estética e comportamental, sem tratar de um movimento formador e constituído, mas sim de uma indicação de algo produzido de forma uníssona ao vento (e no frio).

O filme tem previsão de estreia para o primeiro semestre de 2013, e como forma de interação (e intervenção) com o público o documentário organizou, através de um perfil do Facebook e um blog, um roteiro de viagem interativo que sugere artistas e locais para serem visitados. As imagens, entrevistas e shows foram captados durante os meses de junho e julho de 2011 e 2012, e foram percorridas 24 cidades. Essa ideia quis aproximar os fãs e mapear uma rede de conexões para compartilhar dicas e pensamentos sobre o projeto.

documentário, drexler, jorge, milonga, pampa, ramil, vitor © Rede de conexões na web.

PS: para se interar sobre o trabalho de pesquisa do documentário indica-se a leitura do artigo “A Estética do Frio e o Templadismo: representações da paisagem platina através da música popular”, do geógrafo Lucas Panitz que auxiliou na produção do filme.


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