O Iluminado: um clássico do terror

Quando um filme de terror é realmente bom, não adianta assistir de luz acesa. O medo vai se instalar em seu inconsciente ainda que você tente resistir e vai assombrá-lo causando pesadelos noturnos. "O Iluminado", de Stanley Kubrick, tem esse poder. Um filme que há mais de 20 anos faz espectadores roer as unhas cada vez que Jack Nicholson esbraveja “Heeeere’s Johnny!”.


01_shinning_01.jpg © "O Iluminado/The Shining", Warner Bros. Entertainment (1980).

O Iluminado / The Shining (1980), filme de Stanley Kubrick baseado na obra homônima de Stephen King, é um daqueles típicos clássicos eternos. Não poderia ser diferente - afinal, Kubrick refez King com uma criatividade inigualável. Do elenco à fotografia, dos cenários aos figurinos, tudo está devidamente encaixado, como em uma moldura de um quadro de terror, preso no inconsciente de algum pesadelo noturno.

Quando Jack Torrance, um escritor desempregado, aceita a oferta para ser zelador do suntuoso Hotel Overlook, parece-lhe que surge a grande oportunidade para, enfim, colocar as ideias no lugar e conseguir escrever seu livro. Acompanhado da mulher Wendy e do filho Danny, ele parte para ocupar sua nova função. Tudo poderia não passar de mais uma experiência corriqueira na vida da família Torrance, mas o que os aguarda é muito mais que um inverno rigoroso em um hotel afastado do resto do mundo.

02_shinning_02.jpg © "O Iluminado/The Shining", Warner Bros. Entertainment (1980).

Jack inicialmente é mostrado como um bom pai e marido, mas no decorrer do filme passamos a perceber uma forte dualidade na sua personalidade. Não dá para saber ao certo se ele já carregava dentro de si esse transtorno ou se é apenas uma influência do hotel, mas o fato é que de uma passagem a outra o espectador pode acompanhar uma transfiguração completa de pai e marido estável para psicopata sem escrúpulos. O personagem muito bem construído pela dobradinha Kubrick/Nicholson nos presenteia com cenas de puro medo e terror, por conta das expressões sinistras, falas desconexas e trejeitos psicóticos.

03_shinning_03.jpg © "O Iluminado/The Shining", Warner Bros. Entertainment (1980).

O conceito de dualidade do bem contra o mal sempre teve uma influência no consciente da humanidade. Há algo de fascinante nessa ideia de que existe um anjo e um demônio dentro de cada um de nós. Kubrick soube trabalhar muito bem esse arquétipo e inundou o filme com ciclos, duplas, pessoas existentes em dois períodos de tempo, encarnações diferentes e personagens em constante conflito. No caso do personagem Jack, essa dualidade é ricamente demonstrada no filme, principalmente na simbologia dos reflexos nos espelhos. Na cena em que ele conversa com o antigo zelador Delbert Grady no banheiro, por exemplo, vemos imagens duplicadas em todos os sentidos.

05_shinning_05.jpg © "O Iluminado/The Shining", Warner Bros. Entertainment (1980).

Danny Torrance, o personagem título do filme, é dotado de poderes paranormais e de certa forma é o único a se dar conta de tudo que acontece no hotel. Em seu inconsciente ele sempre conversa com Tony, seu amigo imaginário. Essa dupla psique de Danny é também um exemplo claro da dualidade implícita no filme. O menino tem um único amigo de verdade, o senhor Dick Hallorann, o cozinheiro do hotel que também tem poderes extra-sensoriais e adverte o garotinho sobre os perigos do amaldiçoado hotel, principalmente acerca do quarto 237. “Nunca entre no quarto 237. Ele está trancado e é por um bom motivo”, alerta o cozinheiro.

06_shinning_06.jpg © "O Iluminado/The Shining", Warner Bros. Entertainment (1980).

Em meio ao encontro entre o desconhecido e o sobrenatural, a família Torrance é absorvida pela energia do hotel e seus moradores fantasmagóricos. Em certos momentos não é possível distinguir o que é real ou fantasia de suas mentes perturbadas. “Vem brincar com a gente... para sempre”, dizem as gêmeas a Danny. “Danny não está mais aqui, senhora Torrance”, balbucia o menino em uma voz gutural e assustadora para a mãe. “Redrum, Redrum, Redrum”. “Você foi o zelador aqui, Sr. Grady?”, pergunta Jack, “Não, senhor. Você é o zelador. Você sempre foi o zelador. Eu sei disso: eu sempre estive aqui”, responde Grady. “Heeeere’s Johnny” grita Jack enquanto quebra a porta do banheiro com o machado, obcecado em matar a esposa. Diálogos como esses causam ou não um tremendo pavor?

07_shinning_07.jpg © "O Iluminado/The Shining", Warner Bros. Entertainment (1980).

Para o papel de Jack Torrance foram considerados Robert De Niro, Robin Williams e Harrison Ford, mas, convenhamos, Jack Nicholson soube elevar o personagem a um nível dificilmente alcançado por outro ator. Danny Lloyd, que interpretou Danny Torrance, também foi um excelente destaque na trama, principalmente pela perspicácia do seu personagem. O ator só assistiu ao filme na versão completa 11 anos após ter participado das filmagens.

Por incrível que pareça, O Iluminado levou dois Framboesas de Ouro: Pior Atriz e Pior Diretor. Dá para acreditar? Também levou o Saturn Award de Melhor Ator Coadjuvante para Scatman Crothers (Dick Hallorann).

Diz a lenda que, enquanto filmava O Iluminado, Stanley Kubrick fazia seu elenco assistir filmes como Eraserhead (David Lynch), O Bebê de Rosemary (Roman Polanski) e O Exorcista (William Friedkin). Boas referências que certamente contribuíram para a composição desse clássico cinematográfico.

Fontes: 1 e 2.


petit gabi

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