Robert Crumb: o choque do génio

Com desenhos inconfundíveis, inteligência aguçada e uma visão de mundo chocante e sincera, Robert Crumb transforma seu indigesto circo de horrores artístico em um impressionante retrato da sociedade atual.


banda, crítica, crumb, desenhada, hippie, hq, quadrinhos, robert, social © Robert Crumb, (Wikicommons, Marcelo Braga).

Não é exatamente uma novidade que ao longo da história a arte sempre refletiu o contexto social em que esteve inserida. Assim sendo, responda à seguinte pergunta: você acha que as histórias em quadrinhos podem ser consideradas formas de arte? Se não, pare de ler este artigo agora mesmo. Caso contrário, imagine o mundo na década de 60, o espírito hippie, o flower power e a instituição do lema "sexo, drogas e rock’n' roll". Agora pense num jovem cartunista que, em ascensão nesta época, foi capaz de traduzir de maneira admirável tal contexto em seus primeiros trabalhos, e a partir daí tornou-se um dos mais ferozes críticos da vida moderna. Este é o brilhante e controverso quadrinista americano Robert Crumb.

Nascido na Pensilvânia em 1943, o ilustrador cresceu em um ambiente familiar conturbado, em meio às discussões do pai ausente e da mãe viciada em anfetaminas, o que contribuiu para o seu caráter anti social e subversivo. Sendo fortemente influenciado por seu irmão mais velho, Charles, Robert contraiu um espírito de rebeldia, uma bomba-relógio esperando o momento certo para explodir. Com a chegada da era paz e amor, Crumb viu a oportunidade perfeita de fazer parte da revolução sessentista e expor sua visão do mundo. Assim nasceu a Zap Comix, uma HQ artesanal imaginada por ele que tratou de mostrar aquilo a que o artista gráfico tinha vindo.

Nela havia histórias intituladas Keep on Truckin, com observações ácidas e inteligentemente metaforizadas que se opunham ao conformismo à época. Além disto, a publicação deu origem ao Mr. Natural, um guru sarcástico e pervertido, cujas noções de misticismo e existência espiritualizada são explicitamente distorcidas. Definindo estas características como traços que aparecem até hoje em sua obra, o desenhista foi rapidamente adotado como ídolo de toda uma geração e símbolo da contracultura. Com sua revista, Crumb foi responsável pela criação dos quadrinhos underground, que pela primeira vez saiam do circuito comercial.

Fritz_the_Cat_front_cover.jpg Capa de Fritz the cat, 1969

A partir de então, Crumb se consagrou como um dos maiores quadrinistas de todos os tempos. De fato, seus feitos sempre foram notáveis, mas o que o faz ter tanta importância dentro da cultura pop moderna? Bem, um de seus inegáveis trunfos é sua capacidade de fazer com que seu universo absurdo seja costurado com a realidade de uma maneira inimaginável. Quer uma prova? Fritz the cat! Criado em 1965, o gato antropomórfico do ilustrador vive em uma cidade com vários tipos de animais humanizados, e tem em sua rotina de artista uma vida sexual ativa e promíscua. O egocentrismo e a falta de moral do felino e as atitudes dos demais moradores da metrópole traçam um quadro social espantosamente preciso em vários aspectos.

E a genialidade do desenhista em arquitetar reflexões que fazem sentido entre o mundo real e seu pandemônio artístico pessoal não se limita somente a seus personagens. Suas histórias recheadas de toda a sorte de imoralidade e até certos crimes podem parecer condenáveis à primeira vista, mas um olhar atento consegue identificar diversas atrocidades que podem ser vistas em qualquer telejornal diário. Seu traço único ilustra situações de perversão, violência, drogas e visceralidade, em muitos casos inspiradas por fatos reais. Em um de seus últimos trabalhos, intitulado The Book of Genesis (2009), o artista gráfico não hesita em criticar e tentar injetar sua própria noção de coerência e racionalidade na passagem bíblica.

Mas os quadrinhos do ilustrador também possuem outras facetas. Sua paixão por diversos estilos musicais, como o blues e o jazz, já foi tema de seus trabalhos. Além disso, ele também é músico e escritor. Juntamente com sua esposa Aline Kominsky-Crumb produziu diversas autobiografias. Já adaptou clássicos literários de nomes como Franz Kafka, Charles Bukowski e Philip K. Dick para os quadrinhos. Com isso, o artista mostra não só uma capacidade invejável para ler a humanidade, mas uma grande versatilidade intelectual.

Cheapthrills.jpg Capa do álbum "Cheap Thrills", de Big Brother and the Holding Company, 1968, ilustrada por Robert Crumb

Hoje, Crumb vive com a mulher e suas duas filhas desenhistas no sul da França, onde continua trabalhando. Citado em 2007 como o 20º maior gênio vivo pela empresa de consultoria global Synectics, este homem pode se orgulhar de um legado que, apesar de ser amado por uns e odiado por outros, é inegavelmente importante. Cria da geração da "Era de Aquário", o ilustrador parece conhecer de cor o passado, presente e futuro ao mesmo tempo, e por mais que exiba isso de maneira meio deformada ao seu público, ele o faz com uma propriedade inigualável.


jeferson scholz

é fascinado pela cultura pop em todas as suas esferas de manifestação, por música, cinema e nerdices em geral.
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