Niemeyer: a vida foi um sopro

"A vida é um sopro, um minuto. A gente nasce, morre. O ser humano é um ser completamente abandonado..." A obra de Oscar Niemeyer deixa-nos a necessidade de abrir novos caminhos na arquitetura.


01_Palacio_da_Alvorada_01.jpg © Oscar Niemeyer, Palácio da Alvorada, (Wikicommons)

A morte de Oscar Niemeyer não deve ser interpretada como um momento de enorme tristeza, nem como de refestelo como alguns jornalistas oportunistas quiseram. É um momento que devemos interpretar como de reflexão forçada, mas ao mesmo tempo longamente esperada, que deve ser feita por todos os arquitetos, principalmente os brasileiros. A arquitetura de Niemeyer marcou certamente a todos nós. A ousadia das formas, a delicadeza no toque da arquitetura com o solo, a destreza na apresentação simplificada com que sempre foi capaz de explicar a lógica por trás de seus projetos. Não foi por simples coincidência, mas por sua real competência, que este homem, que será para nós sempre um professor, se tornou um dos arquitetos mais conhecidos do mundo.

Digo que não é possível entristecer profundamente com sua morte porque Oscar era um homem que conhecia o valor da vida e que certamente viveu a sua de maneira intensa, à sua máxima extensão. Morrer, todos nós morreremos. Mas viver como ele viveu, poucos podem dizer que o farão. Mesmo com essa consciência, confesso que uma ponta de nostalgia ainda nos alcança.

"Cem anos é uma bobagem, depois dos 70 a gente começa a se despedir dos amigos. O que vale é a vida inteira, cada minuto também, e acho que passei bem por ela." Niemeyer em entrevista no seu centenário.

02_PalazzoMondadori_02.jpg © Oscar Niemeyer, Palácio Mondadori, (Wikicommons).

Embora tal acontecimento fosse há muito esperado e os jornais já tivessem a notícia pronta desde sempre, a morte do arquiteto foi, até certo ponto, surpreendente. Os arquitetos brasileiros não estão preparados para as consequências disso. E elas são nada menos que o repensar forçado de toda a forma como fazemos projetos. É o momento de repensar como a arquitetura brasileira se projeta para o exterior e, principalmente, como seguir projetando sem o último dos expoentes mais significativos do movimento moderno entre nós. A presença de Oscar Niemeyer era sempre uma espécie de fantasma sobre as nossas lapiseiras. Uma presença que outros arquitetos também relevantes, como Paulo Mendes da Rocha ou Joaquim Guedes, não exercem de forma tão pesada. Ela implicava uma persistência do movimento moderno sobre a nossa cultura arquitetônica que não mais é necessária e que deve, inclusive, ser rejeitada em certos pontos. Ruptura - é o que se espera.

Os arquitetos brasileiros devem honestamente reexaminar com que parâmetros seus projetos serão realizados de agora em diante. Os parâmetros em que a arquitetura de Niemeyer se baseava, como por exemplo o uso extensivo do concreto armado em todo tipo de criações, deve ser reavaliado. A forma desprendida das condições da mão-de-obra ou do desperdício de material como projetava devem ser revistas. O concreto é ainda o material de maior utilização no Brasil, principalmente devido aos custos reduzidos em comparação com outros materiais. Isto embora sua eficácia em diversos outros aspectos (como durabilidade, reaproveitamento ou reuso) e o grande desperdício de material auxiliar - como a madeira com que se fazem formas de execução - esteja muito abaixo da de outros materiais como aço, madeira, ou mesmo a construção em terra, que vem sendo retomada por diversos arquitetos que projetam na revisão da taipa uma possibilidade muito mais sustentável de edificar.

03_Auditorio_do_Ibirapuera_03.jpg © Oscar Niemeyer, Auditório do Ibirapuera, (Wikicommons).

Lições de arquitetura, num dado momento, as obras de Niemeyer não devem ser simplesmente reproduzidas em suas características. Ninguém questiona a qualidade de um Monet mas, ao mesmo tempo, bons críticos de arte questionariam a validade de se reproduzir a técnica impressionista como forma de representação artística atual. Com arquitetura não é diferente. Não se deve confundir a validade de uma construção no período em que foi realizada com a validade de sua reprodução à exaustão. Alguns arquitetos parecem relutar contra essa mudança, que se faz imensamente necessária. Contraditoriamente, poucos deles defenderiam a reprodução do modelo de Brasília - cujo projeto urbano é de Lúcio Costa e não de Niemeyer, como muitos erroneamente atribuem. Por isso, o distanciamento histórico que virá com a morte de Niemeyer é mais que bem-vindo. Lembrando as palavras do próprio arquiteto:

"Não basta fazer uma cidade moderna. É preciso mudar a sociedade."

04_Edificio_Copan_Sao_Paulo_04.jpg © Oscar Niemeyer, Edifício Copan, (Wikicommons).

Há tempo que a arquitetura brasileira precisa de um novo sopro. De uma inspiração que deixe o moderno de lado, sem esquecer suas lições, mas possa beber sem preconceitos em novas tecnologias e em uma estética também nova. Uma revisão do ensino de arquitetura nas escolas superiores é igualmente necessária há muito. Questões como a preservação da arquitetura e o ensino de técnicas alternativas devem preencher as grades universitárias, ainda que tardiamente - antes tarde do que nunca.

É certo que a geração que deixa hoje as escolas - a minha geração, de fato - que praticamente apresentava seus trabalhos de graduação enquanto Niemeyer dava seu suspiro final, sente esse sopro nas costas: o impulso de uma arquitetura brasileira com história e tradição; com grandes responsabilidades e uns sapatos talvez muito largos para calçar; mas, com certeza, muito disposta a enfrentar essa tarefa e buscar novos caminhos para a arquitetura. Buscar caminhos justos que entendam, principalmente, que a arquitetura é produzida para nós, humanos, que habitamos esse planeta, de tal forma que o desenho do arquiteto não pode ser senão uma conjuntura do que há de melhor tanto no homem quanto na natureza. Niemeyer já sabia disso. Cabe a nós dar novas interpretações ao discurso.

"Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura, inflexível criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país. No curso sinuoso dos sentidos, nas nuvens do céu. No corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo."


mariana martins

é escritora, fotógrafa amadora e arquiteta-urbanista. Rodou uma partezinha do mundo com uma mochila nas costas, se meteu em muita encrenca, mas saiu viva, felizmente. Cantarola o tempo todo.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
x8
Site Meter