Nashville Skyline - uma viagem ao redor do country

Cansado do rock, cansado do estrelato, cansado das fãs histéricas e dos junkies que o viam como um grande profeta, Dylan muda de voz, vai atrás de Johnny Cash e incorpora o melhor e o mais poético que a musicalidade country pode ter com o brilhante "Nashville Skyline".


01_bob_skyline_01.jpg © Capa do álbum "Nashville Skyline", Bob Dylan (1969).

Quando o disco Nashville Skyline chegou às prateleiras das lojas de música em 1969, Dylan de certa forma estava cansado de ser uma estrela pop. Poucos anos antes, Like a Rolling Stone tinha estourado nas paradas de sucesso e muito daquele frenesi das fãs endiabradas da beatlemania foi transferido para o autor de Blowin’ in the Wind. A sua vida privada foi progressivamente virando um inferno, ao ponto de Dylan resolver, após um misterioso acidente de moto, refugiar-se em um sítio em Woodstok. Ainda assim, neste sítio não achou exatamente a paz que procurava, porque, pelo que se sabe de suas entrevistas e relatos em relação a este período (encontrados facilmente no excelente documentário No Direction Home ou no livro de memórias Crônicas Vol. 1), as frenéticas adolescentes foram substituídas por junkies, hipsters e hippies de toda espécie, que buscavam em Dylan o caminho da verdade, a dose de sabedoria necessária para viver. Estes anos de turbulência e auto-exílio no mundo rural se refletiram naturalmente nos trabalhos do compositor. Os famosos Basement Tapes (compostos em 67, mas só lançados em 1975) e o disco John Wesley Hardy, de 68, de certa forma já apontavam para a sonoridade country e para o lirismo sentimental, direto e maduro, encontrados em sua melhor expressão em Nashville Skyline.

02_Bob_Dylan_in_November_1963_02.jpg © Bob Dylan em Novembro de 1963, (Wikicommons).

O tema central das canções de Nashville Skyline é o amor. O tratamento literário a este tema foi o mais direto e objetivo possível. Ao se tratar de um disco cuja maior referência foi o country (ou, vá lá, o country-rock), não foi por acaso que Johnny Cash apareceu em dueto na regravação de "Girl From North Country" (originalmente lançada no Freewheelin’, de 1963), canção que abre o disco. Daí, após um tema instrumental (Nashville Skyline Rag), as novas canções vão se sucedendo. As frases curtas, o vocabulário simples, a ausência de ironia e de metáforas rebuscadas (que inevitavelmente aparecem em algumas canções, como Lay Lady Lay) foi algo pensado, desejado e realizado com maestria. Cabe destacar como Dylan conseguiu imergir no mundo country de tal maneira que, não satisfeito apenas com o fato de ter desenvolvido uma lírica rica e adequada a esta estética musical, buscou, inclusive, “mudar” a própria voz, transformando-se em um crooner de voz aveludada e grave.

Nashville Skyline é realmente um álbum sem arestas. Legando ao passado recente a sua verve poética mais vanguardista, com a trilogia-rock Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited, ambos de 1965, e Blonde On Blonde, de 1966, Dylan mais uma vez guinou para um caminho de certa forma inesperado quanto ao que se aguardava dele após sua furiosa ascensão ao estrelato naquele conturbado período histórico.

Mais calmo, mais maduro e mais apaixonado (as canções de Nashville Skyline não me deixam mentir!), às portas dos anos setenta, que de alguma forma inauguravam uma lógica musical diferente da década anterior (teria sido à toa a célebre frase de John Lennon a respeito do fim dos Beatles: “The dream is over”?), Dylan buscava caminhos inesperados para sua música, almejando, antes de tudo, entender, dialogar e criar os novos tempos que ele sempre foi capaz de vivenciar, mesmo que, para isto, fosse necessário voltar às raízes, como fez com o excelente e acolhedor Nashville Skyline.


Ederval Fernandes

Ederval Fernandes é baiano de Feira de Santana.
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