O cinema de terror italiano

Spaghetti, máfia, falas efusivas e bastante gestuais... Se você vê além dos estereótipos da Itália também nos filmes, que tal uma boa dose de terror al dente? Prepare-se para ser surpreendido, pois estas produções têm muito mais importância no gênero fantástico e na sétima arte do que pode parecer.


01_bird_with_crystal_plumage_poster_01.jpg © Cartaz do filme "O Pássaro das Plumas em Cristal", de Dario Argento (1970).

O que você acha dos famigerados filmes estilo slasher, onde assassinos impiedosos espalham abundantemente vísceras e sangue por todos os cantos da tela? E o que dizer das numerosas produções do subgênero zumbi, exploradas até quase a exaustão? E os filmes sobre fantasmas e espíritos vingativos? Bem, o fato de que são clichês é incontestável, mas quando se atribui o surgimento de todos eles à poderosa Hollywood, existe uma pequena discrepância geográfica sobre o conteúdo de grande parte destas marcas registradas do cinema de terror. Acredite ou não, muitas das sanguinolentas conjecturas do gênero fantástico se devem à Itália.

Não que o país conhecido internacionalmente pelos faroestes spaghetti supere o pioneirismo de Meliés com O Castelo Mal Assombrado (1897), considerado o primeiro filme de terror de que se tem notícia. Também não bate o nascimento propriamente dito do fantástico na sétima arte com o surgimento do expressionismo alemão na produção O Gabinete do Doutor Caligari (1919), nem a consolidação do gênero pelos EUA nos anos seguintes. Apesar de tudo isso, tem uma significativa importância. Desde que entrou para a história cinematográfica com o neorrealismo nos anos 40, a Itália passou a chamar a atenção do mundo neste aspecto.

Embora seja difícil precisar um marco para o apogeu da produção italiana dentro do cinema que influenciou todo o conceito de terror moderno, é provável que este tenha acontecido na década de 70. Se anteriormente diretores como Mario Bava e Lucio Fulci já haviam produzido diversas obras e tinham uma carreira consolidada no país, é com o lançamento de O pássaro das plumas de cristal, de Dario Argento, em 1970, que o terror macarrônico passou a chamar a atenção do mundo. Nesta época, alguns dos clássicos mais icônicos do gênero foram lançados, consolidando uma cartilha de mandamentos fílmicos que de tão usados viraram clichês.

LucioFulci_JoeDAmato_RuggeroDeodato.jpg © Da esquerda para a direita: Lucio Fulci (Wikicommons, Ilya Smeh); Joe D'Amato (Wikicommons,Olivier Strecker); Ruggero Deodato (Wikicommons,Olivier Strecker).

Duvida? É só olhar para o trabalho do próprio Argento. Graças a filmes como Profondo Rosso (1975) e Suspiria (1977), os serial killers reais e sobrenaturais conquistaram os holofotes. Mas os exemplos não param por aí. Se George Romero instituiu o conceito de zumbi na sétima arte com A noite dos mortos-vivos (1968), Fulci ampliou essa cartilha mostrado pela primeira vez mortos-vivos se levantando de caixões e com corpos putrefatos com a ação do tempo, com Zombie (1979). Neste meio tempo, outros diretores também criavam escola, como Bava, que criou o gênero slasher e efeitos especiais pioneiros. Além disso, revolucionou o subgênero de espíritos e forças malignas com obras como Lisa e Il diavolo (1972) e Shock (1977).

A produção cinematográfica de terror italiana também se estendeu para a década seguinte, embora sem a mesma força. Ruggero Deodato resgatou o falso documentário inaugurado em Mondo cane (1962) de Paolo Cavara com o longa-metragem Cannibal Holocaust (1980), sendo responsável por chocar o mundo apresentando um novo conceito de “medo real”. Outro cineasta realizava paralelamente filmes absurdos e ultra-violentos, mas nem por isso menos inspiradores e copiados pelas gerações de diretores que vieram depois. Aristide Massaccesi, mais conhecido como Joe Damato, realizou, entre faroestes e produções pornográficas, alguns filmes doentios e memoráveis, como Buio Omega (1979) e Antropophagus (1980).

E não foram somente estes diretores mais conhecidos que fizeram história neste meio fílmico. Algumas obras segmentadas e não tão conhecidas também merecem destaque, como o longa de Sergio Martino intitulado A ilha dos homens peixe (1979). A produção possui um charme único, e conta a história de um rico coronel que obriga um cientista a fazer experiências terríveis com humanos em uma ilha quase deserta, a fim de conseguir objetivos pessoais. Além deste clássico, outros filmes italianos figuram entre os de maior influência no gênero fantástico, como os sangrentos Demons (1985); Demons 2 (1986), de Lamberto Bava, e A catedral (1989), de Michele Soavi. Épicos sobrenaturais que merecem destaque pela influência no horror atual.

E aqui termina uma pequena amostra da importância do terror italiano dentro da sétima arte. Claro que há muito ainda para ser citado mas, com um pouco de sorte, este artigo faz justiça e torna-se um bom ponto de partida para uma pesquisa mais aprofundada. Afinal, filmes com uma boa história serão sempre divertidos, certo? Ainda mais quando carregados de expressões macarrônicas, impagáveis dublagens americanas e referências que servem para todo o cinema atual. Então se arrisque a ver alguns destes clássicos e se surpreenda positivamente.


jeferson scholz

é fascinado pela cultura pop em todas as suas esferas de manifestação, por música, cinema e nerdices em geral.
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