O imaginário humanista da fotografia

O fotodocumentarismo contemporâneo reacende a função de reflectir sobre a realidade. João Roberto Ripper acrescenta uma formação humanista a esta fotografia que atua socialmente.


01_joao_roberto_ripper_01.jpg © João Roberto Ripper.

A fotografia documental tem como principal característica o poder de tradução e registro de temas sociais e lutas políticas. Muito mais que isso, agora as lentes dos fotógrafos buscam incorporar outras representações para outros sentidos de conquista e emancipação humanista. Mesmo que isso inclua alguma construção por meio do imaginário e da subjetividade.

Muita da fotografia documental faz parte do fotojornalismo, mas os dois apresentam distinções muito precisas no que toca ao tratamento artístico e de interpretação da realidade. A fotografia documental serve-se da pluralidade para abarcar discursos, aparências, denúncias, contradições e valores distintos. O cotidiano, do banal ao bárbaro, é tema funcional desse gênero fotográfico e reforça o imaginário.

Mas aqui não entramos no embate “construção e apropriação do realismo”, usualmente usado pela crítica cinematográfica para refletir sobre documentários, pois a formação da fotografia documental introduz a subjetividade como elemento que cria cenários e assim gera a dúvida, contradizendo a realidade social. É possível visualizar a criação de outros cenários e formações imagéticas dentro da fotografia documental, principalmente utilizando a força subjetiva do que se olha! E para isso há recursos técnicos que auxiliam o processo de criação do fotógrafo, permitindo centralizar sua visão e discurso.

02_joao_roberto_ripper_02.jpg © João Roberto Ripper.

A fotografia alcança uma dualidade para o gênero documental ao apresentar esses autores de olhares abrangentes. O registro fixo, de enquadramento previsível, deixou espaço para representações sócio-político-poéticas da contemporaneidade de sua linguagem. Isso é debate teórico e nada mais.

Mas quando nos deparamos com a forma atuante de se relacionar com temas sociais, com o trabalho em movimentos que mesclam comunicação e direitos humanos, e principalmente quando nos deparamos com o choque em preto e branco proporcionado pelas imagens de João Roberto Ripper, compreendemos a formação distinta de um discurso que contempla multimeios.

04_joao_ripper_foto_arison_jardim_04.jpg © João Roberto Ripper, (fotografia de Arison Jardim).

Ripper trabalhou como repórter-fotográfico do Luta Democrática, Diário de Notícias, Última Hora, O Globo e Agência F4. Atuou como diretor na Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio de Janeiro, no Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro e na Federação Nacional dos Jornalistas. Foi coordenador das campanhas pela obrigatoriedade do crédito na fotografia e contratos de direito autoral e o responsável pela criação e implantação das tabelas de preços mínimos. Fundou e coordenou a organização não governamental Imagens da Terra, entidade de defesa dos direitos humanos, atuando principalmente na cobertura fotográfica de conflitos sociais (sem terra, índios, trabalho escravo, trabalho infantil, favelas, entre outros). E também idealizou e coordenou o projeto Imagens do Povo do Observatório de Favelas, que engloba a Escola de Fotógrafos Populares e a agência Imagens do Povo. O projeto é um centro de documentação, pesquisa, formação e inserção de fotógrafos populares no mercado de trabalho. Espaço que alia a técnica fotográfica às questões sociais, registrando o cotidiano das favelas através de uma percepção crítica, que leve em conta o respeito dos direitos humanos e da cultura local.

03_joao_roberto_ripper_03.jpg © João Roberto Ripper.

O sujeito anônimo, o transeunte desconhecido, tornam-se costura para a revelação do cotidiano de certos espaços e para a denúncia de alguns modos de vida. Há 13 anos Ripper faz documentação social em comunidades indígenas do Mato Grosso do Sul, principalmente entre os Guaranis-kaiowás. Documenta trabalho escravo e infantil, com enfoque especial nas fazendas da Amazônia, principalmente no sul do Pará, e em projetos de recuperação de crianças, além de atividades de grupos de profissionais como carvoeiros, caranguejeiros e marisqueiras.

Quem percebe as fotografias de Ripper capta a formação humanista, o avesso daquele tratamento que simplesmente manipula um dado, ou representa uma estatística. O olhar trazido por Ripper traz perguntas aos processos ilegais, ao caos da informação, a necessidades básicas, à discriminação social e à relação entre homem e natureza, provocando (incessantemente) o debate.

E apesar de ter uma carreira longeva (iniciou aos 19 anos no jornal Luta Democrática), sempre participou em trabalhos coletivos. Foi somente em 2009 que fez sua primeira exposição individual e publicou o livro “Imagens Humanas”, com 195 fotos, selecionadas a partir de um acervo de 150 mil imagens.


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