Shaun Tan: o “tradutor” de ideias de criança

Em 2011, Shaun Tan foi distinguido com o mais importante prémio na área da literatura infantil. Num ano, o reconhecimento do seu trabalho atingiu um nível difícil de transpor. O ilustrador diz ser “omnívoro” nas influências que recolhe. Com isso tenta chegar ao imaginário dos jovens, e é aqui que se revela a sua verdadeira arte: a sensibilidade.


00_Tan_Shaun_WFA_foto_K_Tempest_Bradford_00.jpg © Shaun Tan com o sue World Fantasy Award, (Wikicommons, K. Tempest Bradford).

Começar a vida “de manhã”

Australiano, nascido em 1974 na zona oeste do país, Shaun Tan tornou-se conhecido como ilustrador e autor de livros para crianças. Nos seus tempos de adolescente, ilustrou poemas e contos relacionadas com a sociedade, política e a história, bem como a fazer desenhos de dinossauros, robots e naves espaciais, por exemplo. Começou, já nessa altura, por pintar e desenhar imagens para contos de horror e de ficção científica em revistas de pequena tiragem. Era conhecido, na escola, como o rapaz mais pequeno de todas as turmas por onde passou mas, para compensar, também era reconhecido como ”o bom desenhador”. Também já trabalhou como designer artístico, de teatro, e fez trabalhos de arte conceptual para alguns filmes, como Wall-E, da Pixar. Enquanto artista “freelancer”, esteve envolvido em inúmeros projectos, experimentando sempre coisas novas, segundo o próprio. O sem número de prémios que recebeu enquanto artista deixa antever um talento inequívoco ou uma capacidade de trabalho e de superação constante. Ou ambas.

01_2008TIBE_PreShow_Shaun_Tan_foto_Rico_Shen_01.jpg © Shaun Tan, Taipei International Book Exhibition em 2008, (Wikicommons, Rico Shen).

02_img02_img03_02.jpg © Shaun Tan, "Fifth Avenue" (imagem da esquerda). © Shaun Tan, "Norseman" (imagem da direita).

A “manhã” da sua vida profissional surgiu quando ainda tinha idade para se preocupar com os estudos escolares, na adolescência. O seu sucesso começou a notar-se na ilustração. Aos 16 anos (1990), o seu primeiro trabalho foi publicado numa revista australiana que, cinco anos mais tarde, viria a receber o prémio de excelência na área da ficção. Mais do que tudo, trata-se de um artista que, antes de o ser, foi sendo.

Sempre existirem pessoas nas quais “Deus pôs a mão”, nas diversas artes e ofícios. Mas o que torna essas pessoas mais ou menos reconhecidas, se essa “mão de Deus” é a mesma para todos? Talvez os “mass media” e a sensibilidade da educação social? E o que será mais reconhecido quando vemos a “mão de Deus”? O talento ou o trabalho? Qual a parte dessa “mão de Deus” que gostamos mais de ver?

Uma vida com sentido

Quase acabou os estudos para ser geneticista, gosta de química, física, história, inglês, belas artes, literatura... Tan explora os seus gostos e considera-se “omnívoro” no que toca a influências. Umas são mais directas do que outras. Algumas são ideológicas, outras são visuais, por vezes são artísticas. Essencialmente, são várias e de variados tipos, desde o cinema (Tim Burton, Ridley Scott, Staney Kubrick, por exemplo), até artistas e ilustradores (Francis Bacon, Giorgio de Chirico, Magritte, etc.) ou até mesmo obras de arte, técnicas de pintura, piadas, incidentes, animais, ruas, nuvens... A vivacidade e a criatividade dos seus trabalhos gráficos facilmente se lhe descobre na origem. O que recebeu do seu percurso pessoal e social e o que recebe de influências exteriores é passado para o papel num misto que não é uma mistura, com uma relação de pormenores que não estão embrenhados ou à espera que alguém os apresente. Falam por si, ou fazem por isso. 

Para Shaun Tan, também faz sentido pintar uma imagem, mas não como uma reprodução do que se está a observar. Tenta criar e recriar de forma a conseguir atingir resultados paralelos mas equivalentes. A verdadeira emanação é a que vem do seu cruzamento mental, da “sensação alternativa” e a sua criatividade não é um acto de inspiração. É uma ramificação das suas raízes.

Dar sentido a outras vidas

Tan já trabalhou a preto e branco, utiliza grafites, colagens e chegou a usar vidro, metal, recortes de livros e insectos mortos. Agora, os seus trabalhos são mais coloridos e menos monocromáticos. Para dar essa mesma cor ao imaginário das crianças, Tan tenta colocar-se na cabeça delas e chegar à “criança” que tem dentro de si. Shaun Tan sente-se como um “tradutor de ideias” e acredita que as crianças, em particular, reagem bem quando se deparam com questões de justiça. Desta forma, acredita conseguir chegar até elas e, através dessa empatia, receber diversas respostas sem ter que fazer diversas perguntas. Ao sentir-se numa posição que não é a dele, consegue demonstrar que é possível acompanhar-nos uns aos outros, sem que andemos sós. Afinal, Tan acaba por sugerir uma condição humana menos frágil e sem ter que sair de si próprio para entrar no próximo.

04_children_book_week_fuel_landscape_04.jpg © Shaun Tan, Children Book Week, "Fuel Landscape".

A sua verdadeira arte encontra-se, mais do que na ilustração e nas suas colagens, na sua sensibilidade que cria sentidos e que dá motivos. Talvez seja este o motivo de ter recebido o prémio “Astrid Lindgren”, em 2011.

06_lost_thing_book_06.jpg © Shaun Tan, Capa do livro "Lost Thing".

07_img07_img08_07.jpg © Shaun Tan, ilustração do livro "Lost Thing, "Saying Hello" (imagem da esquerda). © Shaun Tan, ilustração do livro "Lost Thing, "The Loungeroom" (imagem da direita).

08_img09_img10_08.jpg © Shaun Tan, ilustração do livro "Lost Thing, "Feeding Time" (imagem da esquerda). © Shaun Tan, ilustração do livro "Lost Thing, "A Dark little gap off some anonymous little street" (imagem da direita).


Luís Pereira

Chamo-me Luís Pereira e quero acreditar que o homem tudo pode. Só não consegue mudar a sua própria condição, de quem vai com Caronte. Só nos resta ouvir a prosa e a poesia da "nossa Grécia".
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