Docas de Nova York: A Frieza do Cotidiano

Neste filme romântico e profundamente triste, o diretor Josef von Sternberg desenvolve, com técnica apurada, sua visão do mundo. Sem som, mas com atuações de cortar qualquer coração, "Docas de Nova York" foi um filme aclamado em sua época e é um dos exemplos claro do que era o cinema mudo em Hollywood.


01_Os_personagens_principais_no_quarto_de_hotel_acima_do_saloon_01.jpg Os personagens principais no quarto de hotel acima do saloon.

Docas de Nova York é um filme de 1928, dirigido por Josef von Sternberg, que conta a história de um casal composto por um marinheiro (Bill) e uma prostituta suicida (Mae). O interessante é a forma fria e grosseira como todo o longa é levado. Não há passagens melodramáticas, há só passagens dramáticas; não há o beijo do herói na donzela perdida, há o adiamento eterno deste momento – ele não deve chegar.

O saloon perto das docas, onde a sujeira, a dança, as brigas e a bebedeira são partes estruturais, pode ser considerado como o cenário principal do filme, que mostra, também, com que perspectiva ele vai seguir – com certeza não será um melodrama inspirador. Diga-se de passagem, o filme todo se passa em poucos cenários - a sujeira, a frieza e a impossibilidade de um amor romântico é o que liga todos.

02_Poster_do_Filme_02.jpg Poster do filme "Docas de Nova York".

A primeira grande cena do filme ocorre fora do saloon, quando Bill, ao ver Mae tentar se matar, a salva e, na primeira cena digna de um beijo, este beijo não acontece! O interessante da cena é o fato de não haver demonstração de contrato carnal (em 1928 um beijo não é só um beijo, quando colocado na tela de um cinema em uma cena onde só há foco para o casal). É o distanciamento que toma conta de boa parte do filme que parece dar significado ao personagem de Bill.

07_Apos_o_salvamento_07.jpg Após o salvamento.

Na verdade, é até non-sense pensar em um beijo naquela situação – o ambiente ajuda, mas... Se for para firmar um contrato amoroso, as características de ambos os personagens freiam este destino. É sociologicamente improvável.

Como um marinheiro grosso, inconsequente, que tem como objetivo o gozo imediato para compensação de um trabalho duro e contínuo no mar, pode conseguir de uma maneira lógica e fluida ter um amor romântico com uma prostituta linda, porém pobre, quase sem roupas e envergonhada de sua vida? A ligação de ambos está no fato de serem marginais.

04_Betty_Compson_como_a_prostituta_Mae_04.jpg Betty Compson como a prostituta Mae.

Em diversos momentos ambos explicitam que não são dignos de uma vida comum e “boa”. “Que tipo de homem se casaria comigo?”, ela pergunta - “Que tipo de mulher se casaria comigo?”, ele pergunta. A pergunta é a mesma e em comparação, neste ponto, eles são iguais. São dois marginais.

03_O_casal_menos_provavel_do_mundo_03.jpg O casal menos provável do mundo.

O casamento dos dois, feito dentro do saloon, em clima de brincadeira ridícula, já transmite como não há lugar para amor no mundo das docas de Nova York – o amor é para livros e filmes, a realidade é cruel. Tão cruel quanto o dinheiro que Hynm Book Harry, a autoridade religiosa, aceita para legitimar o casamento (mas o rejeita no primeiro momento, em frente às outras pessoas no saloon, para não sujar sua imagem).

No dia após o casamento (o filme se passa em dois dias), quando Bill precisa voltar para seu trabalho no mar, o clima volta à decepção: Mae percebe que seus momentos juntos foram só diversão – da mesma maneira que Bill conta ao seu chefe, após batê-lo na noite anterior: “Bill, presumo que você esqueceu do que aconteceu na noite passada”, pergunta o chefe levemente inconformado - “Estava me divertindo, você nunca foi jovem?”, diz o rapaz naturalmente.

05_George_Bancroft_como_o_marinheiro_Bill_Roberts_05.jpg George Bancroft como o marinheiro Bill Roberts.

O ponto de inflexão é a volta do marinheiro para a cidade – ele percebe que não foi só uma diversão, percebe que teve significado para ela e que ela também teve significado para ele. Percebe que o mundo pode ser mais do que o gozo imediato para compensação de uma temporada de trabalho árduo. Mas será que essa inflexão é, de alguma maneira, revolucionária? Ela, eu acredito, é a ultima maneira de Sternberg captar o público.

É obvio que seu filme é recheado de expressões faciais que fazem do som algo irrelevante, é óbvio que os cenários repetitivos e os temas repetitivos demarcam uma esfera de ação e de sensação para os espectadores em relação ao filme, mas é óbvio que a chave de ouro hollywoodiana é o realinhamento com a conduta esperada – o amor romântico triunfa. Talvez este ponto seja o decisivo para fazer do filme mais um ótimo filme da esfera cultural de Hollywood.

06_Olga_Baclanova_como_Lou_esposa_de_Bill_06.jpg Olga Baclanova como Lou, esposa de Bill.

Digo, é esta cena que fecha, completa o longa – completa todas as características esperadas por um público da década de 20 nos Estados Unidos.

Depois da volta para a cidade e de um segundo sacrífico que tem função de provar o amor dele por Mae, a frieza retorna e a história dos dois é passada – é parte de um cotidiano maior. O amor, então, não é especial, é cotidiano. Especial é só uma maneira de focar o amor, mas este foco desconsidera a grandeza da realidade – e sua frieza.

Ou seja, após a anestesia provocada pela volta do marinheiro à terra firme, Sternberg afirma que a história de cada um está entre a história de cada outro. Que tudo não passa de um cotidiano, que não somos especiais, coisa valiosa para nossa cultura narcísica atual.

Se olharmos mais devagar, perceberemos que Bill é o sujeito líquido moderno, que Bill é como que uma previsão do futuro, um sujeito imediato e gozador. Mas, ao contrário do filme, na atualidade não há este “retorno à vida segura e fixa” empreendida pelo marinheiro ao sair do barco e voltar nadando para sua amada. Na verdade, esta opção, de certa forma, nem existe.

Abaixo o trailer do filme, que pode ser assistido completo no Viooz.


Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Vinicius Siqueira