Graça e Natureza: as escolhas de "A Árvore da Vida"

Com "A Árvore da Vida", Terrence Malick nos apresenta uma obra de arte significativa, digna de ser assistida, reassistida e sentida. Os conflitos familiares, a aproximação à religiosidade, a dúvida em relação à existência de Deus, tudo no filme é válido e flui naturalmente – mas é a abordagem fundamental dos temas da graça e da natureza que faz do filme o que ele é e o que pode ser.


01_O_Filme_01.jpg Cartaz do filme "A Árvore da Vida" de Terence Mallick.

A Árvore da Vida é um filme difícil e com ideias memoráveis. Uma em particular me fez escrever este texto: a oposição das ideias de graça e natureza. Preciso ser muito sincero: não pretendo analisar o filme como um fim em si, não vou “mostrar uma opinião” nem partir de um pressuposto onde “cada um é cada um”. Posso me explicar rapidamente.

Vendo Um Filme

Não creio que o significado de um filme "dependa de quem vê", ou seja, que é algo relativo ao indivíduo, mas creio que há maneiras de se ver e sentir um filme que são aprendidas durante toda um vida; o cinema, como arte, depende dos valores e daquilo que a sociedade vê como artístico – do que é reconhecido socialmente como arte. O que isso quer dizer? Que o filme precisa ser visto como o produto de uma dada sociedade, e, portanto, que precisa ser explicado por categorias de análise social.

02_Brad_Pitt_Como_Sr_O_Brien_02.jpg Brad Pitt como Sr. O'Brien.

03_Jessica_Chastain_Como_Sra_O_Brien_03.jpg Jessica Chastain como Srª O'Brien.

A Natureza e a Graça

Começando o texto com esta introdução nada fílmica, posso já falar sobre o filme em questão, e entretanto já coloco outra barreira: A Árvore da Vida tem pouco mais de duas horas, muito conteúdo e não é nada linear; em suma, não dá para fazer sinopse antes de comentar, não dá pra começar com um resumão. Exatamente por isso tentarei expor o filme junto com as análises, mas você pode ler algumas sinopses aqui, aqui.

qui e aqui.

06_Sra_O_Brien_Como_a_Graca_em_oposicao_a_Natureza_06.jpg Srª O'Brien como a Graça em oposição à Natureza.

O ponto inicial, e que estabelece um parâmetro para referência no filme inteiro, se refere às noções de Graça e Natureza. De forma diferente do artigo no Ultimato, não creio que deve-se utilizar categorias religiosas para entender o filme, mas sim que essas categorias precisam ser secularizadas e sociologizadas para realmente saber o que é este filme. Sendo assim, a oposição Graça X Natureza, que se traduz na oposição Sra. O'Brien X Sr. O'Brien e, vendo mais de perto, na oposição do Filho Mais Velho X Filho Caçula, só pode ser entendida como uma oposição de Passividade X Atividade, de Fraqueza Nobre X Força Animal.

04_Sra_O_Brien_Com_Seus_Tres_Filhos_04.jpg Srª O'Brien com os seus três filhos.

Eu creio que o filme é a expressão da permanência do dominado pelo dominador com a esperança da retribuição pós-vida. A nobreza religiosa que a graça fornece é um projeto de vida sublime, é uma aceitação da penosidade da vida pela esperança do prazer espiritual, do prazer religioso, do prazer. Enquanto a escolha da Natureza se refere a uma escolha da vida prática, da vida cega, puramente material (no sentido filosófico)... É a escolha de uma vida pautada na realidade crua.

Fica óbvio pela temática do longa que a escolha “correta” é a escolha celestial. A Graça é a resposta. Entretanto, vejamos que, na prática, aquele que escolheu a natureza tem poder sobre aquele que, por sua vez, escolheu a Graça. Sr. O'Brien é a severidade em pessoa, além de ser o patriarca. Jack é o irmão mais velho, mais forte e mais rebelde. Ambos se rendem às surpresas negativas que a vida lhes dá: o pai perde o filho e se arrepende de sua severidade, o filho se torna um arquiteto infeliz.

05_Hunter_McCracken_Como_Jack_O_Brien_05.jpg Hunter McCracken como Jack O'Brien.

A receptividade da ideia do fracasso como sendo o apego à vida material é quase como a afirmação de que o mendigo deve ficar feliz pelo futuro que o aguarda no paraíso. Como se o grande ganhador fosse aquele que parece estar totalmente perdido.

Pressupostos perigosos

É necessário deixar claro uma outra questão: a escolha de um dos dois caminhos. Eu duvido que haja uma real escolha. Ninguém escolhe sua posição na divisão social do trabalho, ninguém escolha a posição dentro da estrutura social. Ninguém escolhe se será alvo de preconceito racial ou não, ninguém escolhe se estará entre aqueles que são marginalizados ou entre aqueles que marginalizam. Isto não é escolha, mas herança social, ou seja, se trata de nascer no local certo e nos grupos sociais certos.

O pressuposto da escolha também é uma armadilha, já que nos faz esquecer que a maior parte do que vivemos não é um produto de escolhas livres, mas está imerso em todo tipo de determinação político-economico-social.

Desta forma, a oposição Graça X Natureza aparece como algo tangível a qualquer um; parece que as posições que os personagens tomaram nesta oposição foram produto de suas escolhas. Parece que é possível ser o detentor de seu próprio destino.

07_Todos_Reunidos_No_Pos_Vida_07.jpg Todos reunidos no Pós-Vida.

Pautar o filme nesta oposição não é só suspeito por nos trazer um delineamento de destino onde o apegamento à vida prática, à agressividade, é algo negativo, mas também é suspeito por trazer este destino como uma escolha do sujeito.

Pode-se concluir que, de facto, o filme é uma obra religiosa, mas não só por tratar de temas religiosos. É religioso por ter dentro de si as formas das oposições que o próprio cristianismo carrega, desde as relações familiares até as significações dos atos e das escolhas. O filme é uma grande rede de significações ocidentais e cristãs, como era de se imaginar. O complexo de édipo, de que não pude falar neste texto, e que é visível e importante no longa, é retratado com detalhes: o filme todo carrega as passagens fundamentais da vida e carrega seus conflitos mais profundos. Para ser assistido quantas vezes for necessário, com paciência e atenção.


Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha
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