Aaron Sorkin - The Newsroom e os roteiristas afiados

A série "The Newsroom" (HBO), idealizado pelo cultuado roteirista Aaron Sorkin, prova um conceito que vem crescendo no formato das histórias para a televisão. Cada vez mais elas se assemelham aos filmes, algumas vezes superando-os, em matéria de qualidade dramática, refinamento técnico e de importância nos debates atuais.


01_Will_McAvoy_comportamento_anacronico_na_era_da_midia_comercial_01.jpg © HBO (2011), Will McAvoy, comportamento anacrônico ma era da mídia comercial.

Aaron Sorkin (1961, Nova Iorque) ganhou ainda mais repercussão quando ganhou em 2011 o Oscar pelo roteiro de "The Social Network". Conhecido por seu método particular de escrever, Sorkin trouxe ao público fortes debates políticos com a série "The West Wing" (sobre o dia a dia do assessoramento político na Casa Branca). Seu retorno em "The Newsroom" traz um estilo cada vez mais refinado. A série conta a rotina de um noticiário nova-iorquino, o News Night, que tenta de muitas formas resgatar o verdadeiro sentido do jornalismo sério. O roteiro de Sorkin é uma patrola, um emaranhado de informações que aos poucos se revela parte da trama fictícia, mesclado com eventos recentes de repercussão global. Mesmo para os profissionais da comunicação, o nível de conhecimento sobre tudo o que passa nas conversas dos personagens é difícil de acompanhar. Política externa, tecnologia digital, referências à figuras influentes do jornalismo, piadas sarcásticas intelectuais. Isso tudo é intencional, e marca o método de Sorkin.

Muitos críticos não concordam com seus diálogos extensos e carregados. Sua intenção, no caso de "The Newsroom", é aproximar o público não somente do trabalho jornalístico, mas da maneira de pensar dos jornalistas. Sorkin pensa na musicalidade (e na quantidade) das palavras para ditar o ritmo das histórias. Segundo o autor, não é necessário que o público saiba sobre o que se está falando, contanto que pense “Esses caras realmente sabem sobre o que estão falando!” Um elemento bastante claro e responsável por pressionar o elenco ao limite da expressividade. Seus personagens são pessoas que pensam e agem muito rápido, portanto também falam e absorvem tudo mais depressa. Leva alguns episódio até se acostumar com o sorkinismo.

02_cartaz_02.jpg © HBO (2011), cartaz de divulgação.

"Game of Thrones" e "The Walking Dead" fazem parte da revolução das produções para canais a cabo. O drama acabou fortalecendo-se, trazendo para seus bastidores grandes nomes (e, com eles, dinheiro). Diretores como Michael Mann, (Luck) Martin Scorcese (Boardwalk Empire) e David Fincher (House of Cards) produzem e dirigem projetos viáveis de serem realizados somente hoje. Porém, as séries ainda pertencem aos roteiristas e aproveitam a carona para expandir seu espaço criativo. Matthew Weiner repete com "Mad Men" a mesma dedicação total que tinha por "The Sopranos". Ambas sucessos impressionantes.

Tal evolução no gênero se soma ao surgimento de personagens carismáticos antes impossíveis de serem aprovados. Vidas roteirizadas no seio do problema do homem moderno: sua vida pessoal engolida pela profissional. Personagens que, apesar de politicamente incorretos e antissociais, possuem um forte senso de justiça e valores morais. O maior exemplo é House (Hugh Laurie), com quem o público se acostumou a um nível de sarcasmo inverso à tolerância. O âncora de "The Newsroom", Will McAvoy (Jeff Daniels) é inteligente e grosseiro na mesma proporção, tal qual um chefe deve ser.

03_o_ancora_Will_McAvoy_Jeff_Daniels_03.jpg © HBO (2011), Will McAvoy, por Jeff Daniels.

Uma série de TV permite um maior tempo de desenvolvimento dos personagens, de causar reviravoltas e adicionar outros elementos como pano de fundo. Em "Mad Men", Weiner retrata a sociedade de consumo dos anos 50/60. Sorkin, dedicado ao mundo que existe detrás das câmaras, aborta os conflitos que a comunicação moderna enfrenta. A equipe do noticiário News Night busca de todas as formas resgatar o jornalismo sério, em meio a uma sociedade viciada na informação rápida, gratuita e desatenta; entram em conflito com a própria empresa de comunicação que visa sua segurança com relacionamentos que podem ser afetados com o ataque jornalístico; lidam com o choque da nova e velha guarda do ramo.

Para quem estuda ou trabalha com jornalismo, os detalhes que fogem à realidade podem ser determinantes em amar ou odiar "The Newsroom". Sem dúvida, mesmo abordando eventos reais, não deixa de ser uma simulação da realidade. Contudo, o roteiro passa por mãos de diversos especialistas (assessores políticos e econômicos, repórteres, blogueiros, comunicadores em geral) e tem a real intenção de gerar debate sobre o assunto de cada episódio com a seriedade necessária (entre jornalistas, principalmente). O mesmo ocorre em "Mad Men" para os publicitários; em "Law & Order" para os advogados; em "House M.D." para os médicos; e, quem sabe, em "Dexter" para os assassinos em série.

04_Jornalismo_verdadeiro-nas_maos_da_nova_e_velha_guarda_04.jpg © HBO (2011), Jornalismo verdadeiro nas mãos da nova e velha guarda.

05_Redação_do_News_Night_eventos_reais_na_ficcao_05.jpg © HBO (2011), Redação do News Night, eventos reais na ficção.


mauricio de boni

volta e meia é encontrado em livrarias admirando títulos e capas, e, esporadicamente, na cozinha criando coragem ao assumir experiências cada vez mais complexas (o mesmo ocorre com a escrita).
Saiba como escrever na obvious.
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