Alain de Botton: como a filosofia pode mudar a sua vida

Para uns, Alain de Botton é uma versão “coca-cola zero” dos clássicos e teóricos da filosofia. Já outros consideram-no um prodígio capaz de tornar o “misticismo” da utilidade quotidiana da filosofia algo claro.
Por isso, uma filosofia de auto-ajuda... será a questão?


01_de_botton_1_by_Vincent_Starr_01.jpg © Alain de Botton (fotografia de : Vincent Starr).

Alain de Botton aborda temas da vida quotidiana recorrendo à “força” e à “legitimidade” das diferentes correntes filosóficas, mas admite uma feição de auto-ajuda nos seus escritos e intervenções públicas.

Influências para uma filosofia de acção

Alain de Botton é originário de Zurique e residente em Londres. Escritor e pensador contemporâneo, a sua popularidade aumentou quando, pela escrita, pela televisão ou pela “internet”, começou a difundir as suas abordagens filosóficas da vida do dia-a-dia da generalidade das pessoas. Estudou História e Filosofia, em Cambridge e depois no King’s College, em Londres. Chegou a inscrever-se num doutoramento em filosofia francesa, em Harvard, mas acabou por preferir ficção. O seu pai é coleccionador de arte e investidor e a sua irmã, psicóloga, o que indicia um contexto familiar propício para o desenvolvimento de um gosto filosófico.

03_Charles_Baudelaire_1931_de_Gaston_Schefer.jpg © Charles Baudelaire (1931), (Wikicommons, de Gaston Schefer).

04_Adelaide_from_the_air_south_Australia_de_Leon_Brooks.jpg © Adelaide vista do ar, Sul da Austrália, (Wikicommons, Leon Brooks).

05_Bean_de_Michael_Day_05.jpg © "Bean", (Wikicommons, Michael Day).

Segundo o próprio autor, a experiência que teve até agora de ter passado e/ou vivido em diversos países permite-lhe mais facilmente o exercício (e o gosto) de reflectir sobre as experiências da sua vida ou aquelas com que toma contacto a partir de terceiros. Talvez a sua formação o tenha ajudado ao exercício da reflexão filosófica a partir de situações comezinhas. Certa parece ser a coincidência do seu gosto em viajar com o gosto “observatório” de passear pelo mundo como tiveram personagens e artistas como Van Gogh, Flaubert, Baudelaire, Humboldt ou Marcel Proust. Mesmo que, segundo este último, essa viagem passasse por não sair e procurar novas paisagens, desde que se possuísse novos olhos. Botton terá recebido influências de alguns destes autores e artistas ao nível do raciocínio enquanto técnica/prática e na perspectiva da vida enquanto cenário de fundo.

Uma filosofia de “auto-ajuda”

Parece complicado mas, tal como sugere o autor, basta perceber que, actualmente, o ser humano, mais do que nunca, precisa que alguém lhe diga como lidar com o desespero ou com a felicidade, isto é, com a vida. Aqui, o estudo de problemas relacionados com a existência e o conhecimento do e sobre o ser humano, como a filosofia faz, parece encaixar nas necessidades actuais da humanidade (principalmente, a ocidental, por ser a que conheço melhor). Botton acaba por provar que abordar filosoficamente algo ou alguém não tem, necessariamente, que ser complicado ou apenas ao alcance de alguns. Acaba por destacar uma feição mais prática do estudo da filosofia e, deste modo, abrir “filosoficamente” a vida das pessoas. “Nós somos todos vulneráveis e infantis por dentro. E, como crianças, precisamos de ser lembrados do que é bom para nós”, diz Botton. No fundo, de uma “voz grave e doce de uma religião”, para que o ser humano aprenda a viver em comunidade e se saiba comportar. Serve-se de Séneca, de Epicuro ou de Proust, por exemplo, para situar o lugar dos “conselhos” que dá, nas tendências da sociedade ocidental que observa, em geral.

Abdicar da fé, mesmo sendo religiosa, pode, na visão do autor, não ser necessário por poder abrir certos perigos pessoais (e, se for em massa, sociais) que, a longo prazo, podem dificultar mais a vida em interacção social, “em vizinhança”: o perigo do individualismo (o ser humano, enquanto indivíduo, colocado no centro do mundo), o perigo do “perfeccionismo tecnológico” (baseado na crença de que a tecnologia e a ciência servem de panaceia para os males do mundo, quando o mais certo é servirem de caixa de Pandora) e a crença na inexistência de um Deus (que pode levar à redução de importância de conceitos e atitudes sociais como a simpatia, a ética, a empatia e o sentimento). Viver em comunidade respeita um desejo/necessidade das pessoas em fazerem daqueles que se conhecem e em quem confiam o seu respectivo sustentáculo simbólico. Ainda assim, esta forma de interacção social não implica estar-se em constante julgamento (isto, sim, um modo de pesadelo para o autor).

06_A_picture_is_worth_a_thousand_words_de_HikingArtist_06.jpg © "Uma imagem vale mais do que mil palavras", (Wikicommons, Hiking Artist).

07_Ori_God_creations_de_Victorvictori_07.jpg © "Criações do Deus Ori", (Wikicommons, Victor Victori).

08_Discourse_into_the_night_de_William_Blades_08.jpg © "Discurso Nocturno", (Wikicommons, de William Blades).

A sua “filosofia” passa por pegar na filosofia de outros pensadores e pensar numa sua aplicação junto da sociedade actual que conhece. Ao mesmo tempo, reflecte sobre os conceitos e os comportamentos que dominam a actualidade e, aqui, a ciência histórica ajuda a perceber a dinâmica dos ciclos de vida social, bem como o pouco de místico que a filosofia tem com estas reflexões. Rapidamente se conclui que, independentemente dos tempos diferentes e dos contextos variados, o ser humano continua a entender-se segundo comportamentos repetidos, a tender para uma estabilidade “instável” (isto é, que nunca é estanque) e que, quanto muito, podem variar um pouco, conforme a noção consciente que o ser humano tem do que é, do que faz, do que sente e do que provoca. Poderá ser a partir desta corrente iniciada por Botton que o entendimento da filosofia pode começar a dar-se para a generalidade da população.


Luís Pereira

Chamo-me Luís Pereira e quero acreditar que o homem tudo pode. Só não consegue mudar a sua própria condição, de quem vai com Caronte. Só nos resta ouvir a prosa e a poesia da "nossa Grécia".
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