Innerspeaker: Um Leve Sopro De Rock Psicodélico

Lembram de Woodstock e Monterey? Com certeza não estivemos lá, mas vimos os vídeos, vimos o que aconteceu, lemos sobre o que ocorreu, mas claro que o sentimento não é o mesmo. Ouviram depoimentos de pessoas que puderam passar seus dias nestes festivais a céu aberto? Perceberam a emoção que flui a cada palavra? Como cada uma delas impõe a utopia do amor naqueles momentos memoráveis?



01_A_Banda_01.jpg © Tame Impala - A Banda.

Tame Impala não é uma banda comum de rock alternativo. Suas maiores influências estão no rock psicodélico, mas não são uma banda de rock sessentista – não veríamos Tame Impala no Woodstock de 68 ou no Monterey de 67, mas os veríamos em um Woodstcok de 2014 ou num Monterey de 2013. Se conseguíssemos fazer o esforço imaginativo para visualizar uma versão moderna destes festivais, mas que não traíssem seus princípios, Tame Impala seria um headliner.

A banda é australiana, formada em 2007 por Kevin Parker, Jay Watson e Dominic Simper, com a participação ao vivo de Nick Allbrook, que dá uma força na execução das viagens loucas do grupo.

02_Os_Tres_Membros_Fixos_02.jpg © Tame Impala - Os Três Membros Fixos.

Innespeaker

Lançado em 2010, o álbum é o pontapé inicial da banda. Já haviam lançado um EP; mas álbum, completinho, detalhado - este foi o primeiro.

06_Capa_de_Innerspeaker_06.jpg © Tame Impala, "Innerspeaker", capa do álbum.

05_Tame_Impala_05.jpg © Tame Impala.

Os sons oníricos debulhados nas guitarras plugadas em inúmeros pedais de efeito e todas as utilizações de sintetizadores fazem do núcleo do disco uma imensa viagem lisérgica.

"Lucidity" e "It's Not Meant To Be" deixam clara a similaridade entre os vocais de Kevin Parker e os de John Lennon – um John Lennon mais espacial, mais contínuo, mais espiritual. Seus vocais são colheradas de mel a cada música, deslizam sobre os acordes e repousam em confortáveis travesseiros feitos sob medida por modulações fabricadas em sintetizadores.

04_O_Sorriso_forcado_de_Nick_Allbrook_04.jpg O sorriso forçado de Nick Allbrook.

O início de "Alter Ego" remete àquelas imagens paisagísticas de filmes onde o campo é o cenário principal – onde a combinação de árvores, cerca de madeira, sol nascente e aves em loucas piruetas pelo ar se sincronizam como uma mistura perfeita de felicidade e realidade. Talvez "Solitude Is Bliss" continue essa fantasia, pois é a música das segundas-feiras – não aquelas chatas e sem vida, mas aquelas onde a semana começa. E começa bem. O ritmo invade o coração até os olhos não se aguentarem.

"Why Don't You Make Up Your Mind" e "Jeremy's Storm" são calmarias pós-tormenta. São demonstrações de que o stress pode ser combatido sem nenhum remédio, sem nenhuma medicação prescrita por algum médico que seguramente nunca pensaria em Woodstock.

Apesar de toda a suavidade e dos sons frios e oníricos, Tame Impala também tem algo que se pode chamar de "peso". Um rascunho de peso, mas não no mau sentido. É um peso colorido (também não no mau sentido). Melhor: é um peso nas alturas. Percebe-se que, retirando as camadas de efeitos, é possível localizar um hard rock em "I Don't Really Mind" e "The Bold Arrow Of Time", mas, propositadamente, ele foi imerso em águas profundas e de retorno impossível. O peso não morreu, mas foi remodelado.

Talvez esse seja um sinal de que o rock alternativo também pode buscar nos sons quase esquecidos um pouco de inspiração para novas criações. O psicodélico e o progressivo são duas vertentes que tiveram enorme impacto, mas que foram suprimidas após (segundo opinião de alguns) o advento do punk rock.

E, sonhando alto, talvez seja possível até desejar novos festivais ao estilo do fim dos anos 60, contando com temáticas atuais, mas com a essência daqueles que foram os festivais da libertação.

03_Em_apresentacao_ao_vivo_03.jpg © Tame Impala em apresentação ao vivo.

vinicius siqueira

tem seu interesse fixado em sociologia francesa e psicanálise freudiana. Ainda é um estudante, mas quem não é?
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