O cinema e a velhice

Pois é, as pessoas envelhecem. Mas parece que, durante muito tempo, a grande tela não foi país para velhos e a máquina cinematográfica não quis retratar a terceira idade, - porventura para se dedicar à aventura do “teen” dólar, retratando, sobretudo, atributos e talentos que apenas um jovem é dotado e pode alcançar.


01_up_poster_01.jpg Poster do Filme "UP".

Ou a tendência paralela era a de retratar a velhice era como um cliché ou um estereótipo segundo o qual os velhinhos são caquéticos, mal-humorados, deprimidos, solitários, rudes, etc.. No fundo, tratou-se a velhice como uma doença. Mas, pensando melhor, creio que a nossa sociedade (generalizando um pouco, se me é permitido) tem um problema com o envelhecimento. Para afastá-la, estamos preparados para sufocar-nos em tratamentos, submeter-nos a cirurgias, tingir o cabelo e mentir sobre a nossa idade. Por vezes, até tratamos os mais velhos ora com uma condescendência desnecessária (o que me irrita bastante, devo confessar) ora com uma vergonha estúpida. Alguns de nós já nem ousam chamar de "velho" recorrendo a eufemismos como “sénior”, “terceira idade” ou “idoso”, como se nos referíssemos às vítimas de uma aflição indescritível.

Claro que, no cinema, há sempre algumas exceções, como o filme de animação "UP", da Pixar, ou os "Wild Strawberries", de Ingmar Bergmann e "About Schmidt". Pensando noutros, "Gran Torino", "Million Dollar Baby", "Tokyo Story", "Fear eats the soul", "Harold and Maude", "The Sunshine Boys", "Driving Miss Daisy" - aqui encontramos personagens velhinhas retratadas com compaixão e respeito. Mas a crítica tem razão. Não só na compaixão ou paternalismo excessivos como também, por vezes, no tratamento do envelhecimento como uma espécie de horror nos casos de "What Ever Happened to Baby Jane?" ou "Sunset Boulevard".

02_Wild_Strawberries_02.jpg Poster do Filme "Wild Strawberries".

03_about_schmidt_03.jpg Poster do Filme "About Schmidt".

04_gran_torino_04.jpg Poster do Filme "Gran Torino".

05_million_dollar_baby_05.jpg Poster do Filme "Million Dollar Baby".

06_DRIVING_MISS_DAISY_06.jpg Poster do Filme "Driving miss Daisy".

07_What_Ever_Happened_to_Baby_Jane_07.jpg Poster do Filme "What Ever Happened to Baby Jane".

08_sunset_boulevard_08.jpg Poster do Filme "Sunset Boulevard".

Contudo, recentemente, a situação parece inverter-se. Se, por exemplo, o leitor decidir assistir a “Trouble with the Curve”, verá um Clint Eastwood a lutar para fazer xixi; se optar por ver “Hope Springs”, encontrará Meryl Streep e Tommy Lee Jones a representar um casal a lutar contra um casamento “impotente”; ainda, se escolher “The Best Exotic Marigold Hotel” (que já está disponível em DVD) descobrirá homens e mulheres (diga-se de passagem, grandes actores) a lutarem contra o luto, contra problemas cardíacos e contra ancas deslocadas; e, por fim, se o leitor tiver a possibilidade de ver “Amour” então, encontrará um homem e uma mulher que se amaram durante mais de 50 anos, silenciosamente a caírem em pedaços. A mulher, Emmanuelle Riva, durante o pequeno-almoço, de repente, é sufocada por um ataque. O homem, o fabuloso Jean-Louis Trintignant, puxando pela mulher numa cadeira de rodas, ajudando-a a sair da casa de banho e a vesti-la. Verá um casamento que se alimentou de amor, conversa, partilha de experiências, transformar-se em algo cheio de medo, solidão e vergonha. Por outras palavras, verá aquilo que acontece ao corpo humano e à mente humana, quando um e outro começam a perecer.

09_Trouble_with_the_Curve_09.jpg Poster do Filme "Trouble with the Curve".

10_hope_springs_10.jpg Poster do Filme "Hope Springs".

11_The_Best_Exotic_Marigold_Hotel_11.jpg

Porém, em três dos filmes que mencionei a esperança (ou ilusão) salta à vista. Nas entrelinhas das legendas lêem-se os versos de Florbela Espanca “A mocidade/ Estará só, então, na nossa idade, / Ou está em nós e em nosso peito mora?”. Sobretudo, no filme “The Best Exotic Marigold Hotel”. Ali, a esperança de que as coisas boas, incluindo o sexo, “nunca acabam”, e de que essas coisas acontecem se, como diz a personagem interpretada por Judi Dench, “acordarmos de manhã e dermos o nosso melhor”.

Todavia, sem querer deitar fora os finais felizes destes filmes “feel-good”, a verdade é que não se chamam assim porque nos deixam a sentir mal. Eles são, de diferentes formas, agradáveis. Eles são, de formas diferentes, limitados. E todos eles roçam a caricatura cedendo à tentação de apadrinhar a terceira idade com sentimentalismos e risos fáceis como que oferecendo apenas um alívio breve ao nosso medo daquilo que está para vir. O que, de resto, é comum na sétima arte.

“Amour”, por seu turno, não apadrinha nada nem ninguém. Não ilude nem engana. Marca, deste modo, a diferença entre um historiazinha que nos anima e uma obra de arte que é triste mas, ao mesmo tempo bela, por ser verdadeira. É a verdade, nua e crua.

12_amour_12.jpg Poster do Filme "Amour".


graça c. moniz

gosta muito de séries, Arte, Cinema, Livros, Viajar, etc,... Aprendeu que o essencial, em quase tudo, é muito simples.
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